quarta-feira, 15 de março de 2017

Na penumbra do interesse público

OpiniãoMANUEL CARVALHO
15 de Março de 2017, 7:11

Enquanto não houver uma implosão no labirinto opaco, centralizado e nepotista do poder lisboeta, jamais o país se livrará desta cultura.

À custa de muita fé e pela necessidade de descobrir um mínimo de dignidade para resistir à iminência da bancarrota, houve muita gente a acreditar que o país estava em vias de chegar a uma saída limpa das negociatas que capturaram o Estado desde os alvores do cavaquismo.
O fim do reinado do Espírito Santo parecia a prova acabada de que o regime se podia regenerar, que os laços espúrios entre os promotores de negócios nebulosos a coberto do exercício de cargos no Estado estavam rompidos, que o país tinha pago um preço tão alto pelo que se passou que jamais toleraria sequer um vislumbre de falta de transparência.
A ida de Maria Luís Albuquerque para a Arrow Global já tinha mostrado a dimensão da ingenuidade.
O caso Núncio veio acabar com o que restava dessa fé inocente.

Assunção Cristas lembrou este fim-de-semana que “não vale a pena estar a criar nexos” entre as decisões de Paulo Núncio na administração fiscal e a multiplicação de notícias do PÚBLICO que revelam a sua relação profissional com a petrolífera venezuelana ou com o seu empenho na criação de 120 sociedades na zona franca da Madeira.
Com esta declaração, a líder do CDS dá voz aos defensores do relativismo.
Há quem acredite que um facilitador de negócios nesse mundo obscuro que são as contas offshore só precisa de mudar de fato para chegar ao Governo e, num passe de mágica, fazer da sombra luz.
Como Assunção Cristas, muitos hão-de dizer que tudo é legal, que a maledicência é um mal nacional, que Portugal não pode ser uma excepção na liberdade de circulação de capitais sob pena de ficar à margem do exuberante capitalismo financeiro.
É precisamente aí que começa a tolerância aos conflitos de interesses e acaba a exigência na avaliação dos titulares de cargos políticos.

Nomear um fiscalista com o passado e o futuro de Paulo Núncio para mandar na Autoridade Tributária é a mesma coisa de que meter uma raposa no galinheiro.
A raposa pode prometer ser vegetariana, mas no final do dia o seu instinto prevalecerá. Paulo Núncio pode ter feito tudinho dentro do previsto em todas as alíneas de todos os decretos-lei, mas a sua formação, o seu pensamento, o seu círculo de poderes, os seus interesses, a sua mundivisão sobre a suposta inocência das transferências offshore jamais o recomendariam para essa função.
Porque, com tantos bancos na realidade terrena, a expedição dinheiro para paraísos fiscais tem de merecer a qualquer governante a mais grave desconfiança.
Não era o caso.

Os governos toleram esses paraísos apenas porque sabem que é impossível erradicá-la em todo o lado ao mesmo tempo.
Mas, no fundo, à esquerda e à direita, embora mais à esquerda do que à direita, todos gostariam de os extinguir.
É por causa dessa atitude que hoje percebemos o grave erro de Passos e Portas em nomear Paulo Núncio.
Numa matéria desta natureza, não pode haver dúvidas.
Depois de sabermos do passado de Paulo Núncio como facilitador, ou promotor, da exportação de dinheiro para contas cobertas pelo manto diáfano do segredo e da suspeição, temos de olhar de soslaio para a displicência com que abafou a publicação de estatísticas sobre transferências para offshore.
Ou para o pouco que fez para garantir que todas as operações fossem sujeitas ao crivo do fisco.

Paulo Núncio, Sérgio Monteiro, o homem que antes de ir para o Governo negociou PPP pelo lado dos bancos, Pina Moura ou, numa outra escala de gravidade, Armando Vara fazem parte dessa enorme legião de transumantes entre o privado e o público deixando como rasto uma zona cinzenta, tipo terra de ninguém.
Foi aí que germinaram muitos dos problemas que conhecemos.
O colapso do BES ou a ruina da PT são apenas escândalos maiores e mais audíveis de uma mesma panela que cozinhou o Monte Branco, a história dos sobreiros numa herdade da Companhia das Lezírias que acabou nas mãos privadas, ou no processo Face Oculta – a sucata e ferrugem talvez sejam o melhor símbolo do falhanço do país e das suas elites políticas nestes anos desgraçados.
Agora que é necessário respirar fundo para encarar o provável cenário de um primeiro-ministro acusado de corrupção, é normal que a nossa tolerância para a suposta falta de “nexo” da história de Paulo Núncio seja zero.
O registo de interesses voltará à berra, o perfil dos políticos ganhará por semanas direito a debate, as fórmulas para travar a ambição de infiltrados no coração da máquina do Estado animarão as opiniões.
Mas bem sabemos que será só fumaça.
A cultura que infesta o poder do Terreiro do Paço faz-se, como sempre se fez, de ligações antigas e oleadas, de dinastias familiares, de círculos que ora se colam ao PS, ora ao PSD, ora ao CDS.
Uma sociedade que espera tudo do Estado e concede tão pouco protagonismo à iniciativa individual acaba por gerar no seu seio um sistema de castas onde quem almoça com o ministro tem tudo e quem está na base fica com as sobras.
Os contratos do tabaco na Monarquia Constitucional perpetuaram-se no estilo e no conteúdo no condicionamento industrial, no império do BES e sobreviveram até hoje na condescendência com os offshore.
Enquanto não houver uma implosão no labirinto opaco, centralizado e nepotista do poder lisboeta, jamais o país se livrará desta cultura.
É por isso que a regionalização administrativa causa tanta urticária.
O sistema vive bem com o que existe.
Núncio regressará em breve ao Parlamento.
O feitor da zona franca da Madeira que se recusou publicar estatísticas sobre as offshore por recear impactes na zona franca da Madeira ficará mais uns dias no centro das atenções.
Mas o seu exemplo e história não levarão o PS, o CDS e o PSD a ter mais cuidado em analisar os curricula dos ministros ou secretários de Estado que propõem.
Paulo Núncio pode não ter feito nada de ilegal (e, pelo que se sabe, não fez), mas depois de ter uma vida tão intensa num território tão tóxico e insalubre como o das offshore, dificilmente poderia chegar ao Governo e salvar o Estado dessa potencial contaminação. Não perceber isto é não perceber nada do que se passou.
Mas, os partidos, agora o PSD e CDS e amanhã o PS, não percebem nem querem perceber.
É este alheamento que torna o Face Oculta ou o escândalo do BES histórias tão tipicamente portuguesas.

tp.ocilbup@ohlavrac.leunam

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Mosul Operações Ofensivas definidas para recomeçar

Análise
28 DE DEZEMBRO DE 2016 | 17:21 GMT
Nota do Editor: A operação para recapturar a cidade iraquiana de Mosul chave do Estado Islâmico está em andamento. As tentativas de construir as forças necessárias e preparar o caminho para o ataque levaram mais de um ano. Espera-se que a operação dure meses, se tudo correr de acordo com o planejado. O que estamos vendo agora é o avanço inicial para a própria cidade, que será seguido pela luta para realmente penetrar as defesas do Estado islâmico. Indiscutivelmente o aspecto mais importante da operação é o que acontece depois que a cidade caia. Mosul se encaixa em nossa cobertura global do campo de batalha do Iraque-Síria, mas por causa do tamanho e da natureza da operação combinada, vamos segui-lo de forma independente neste espaço.

Dec. 28: Operações ofensivas de Mosul ajustadas para retomar

Dezembro trouxe um período de relativa estagnação no empurrão para retomar Mosul como operações ofensivas pelas forças de segurança iraquianas e seus aliados passaram pelo que está sendo chamado de "reajuste operacional". Depois de parar o empurrão, repensar o plano de batalha e reposicionar as forças, os comandantes dos EUA agora dizem que o avanço deve ser retomado nos próximos dias. Novas unidades iraquianas foram transferidas para a linha de frente no leste de Mosul e autoridades disseram que as forças dos EUA vão mudar o seu papel, em parte por incorporação com essas unidades da linha de frente. Com essas tropas no lugar, a coligação espera forçar um avanço mais rápido pelas áreas urbanas em Mosul.



























Mas os combatentes do Estado Islâmico não estão esperando ociosamente, em vez disso, montando contra-ataques contra as forças de segurança iraquianas. 
As últimas tentativas ocorreram no início de 28 de dezembro, quando mais de 100 combatentes do Estado Islâmico lançaram um ataque em Bawizah, ao norte de Mosul. Durante o ataque, um carro-bomba suicida do Estado islâmico teria destruído um Humvee e um bulldozer pesado usado pelo exército iraquiano.

Os combatentes islâmicos também responderam à notícia de uma colaboração mais estreita entre as forças dos EUA e os militares iraquianos. 
Eles esperam que a crescente presença de tropas norte-americanas em Mossul lhes dê oportunidades para alvejar essas forças dentro do terreno urbano. 
Os comandantes dos EUA, no entanto, ainda descrevem a ameaça para suas tropas como "moderada" mesmo quando operam em Mosul propriamente dita.

Autoridades não divulgaram os detalhes precisos de como o papel das forças norte-americanas vão mudar, mas declarações sugerem que ele vai envolver a incorporação de pessoal nas unidades iraquianas mais perto da linha de frente. 
Seu papel ainda será de natureza consultiva e concentrar-se-á na sincronização da inteligência, no combate ao armamento e no movimento de forças. 
Localizando seu pessoal mais próximo da ação, os militares dos EUA esperam ter um impacto mais direto no curso da batalha e fornecer uma camada de comando e controle que os militares iraquianos podem não ser capazes de realizar tão eficazmente.

Do ar, as forças norte-americanas também têm continuado seus esforços para preparar o campo de batalha, e ter atingido a última ponte operacional em Mosul. 
Em 27 de dezembro fotografias mostraram que a "Ponte Velha" tinha sido atingido por um ataque aéreo, deixando os dois lados de Mosul completamente desligado por estrada. Inicialmente, a Ponte Velha não tinha sido alvo, enquanto as outras quatro tinham. 
O governo iraquiano opôs-se veementemente a golpear a Ponte Velha pelo seu valor histórico. 
A mudança é uma prova de quão sério Washington e Bagdá tornaram-se sobre os esforços renovados em Mosul.

16 de dezembro: Forças estaduais anti-islâmicas concentram-se no leste de Mosul

A ofensiva do governo iraquiano para retomar Mosul do Estado islâmico tem arrastado por dois meses, retardada pela resistência maciça suportada por militantes que mantêm fora nos bairros da cidade. 
O tempo não é do lado do Estado islâmico, mas a luta de Bagdá para controlar Mosul não será facilmente conquistada. 
Mesmo assim, a situação está desesperada para o Estado islâmico no Iraque. 
Os militantes estão agora completamente cercados e isolados de sua liderança central na Síria. 
O combate provavelmente se intensificará em Mosul, já que os combatentes islâmicos agora sabem que há pouca esperança de vitória ou fuga, e que eles provavelmente estão enfrentando a morte ou a captura.

Representante da polícia federal, o tenente-general iraquiano Raed Shakir Jawdat disse 12 de dezembro, que ele enviou três brigadas policiais para se juntar às três brigadas de combate ao terrorismo do Iraque, no leste da cidade. 
Estas unidades da polícia foram inicialmente destinadas a avançar do sudoeste para o aeroporto. 
Enviá-los para o leste da cidade ajudará a reforçar as tropas já estacionadas lá para evacuar civis e continuar a limpar a cidade do Estado Islâmico. 
Ao sul de Mosul, a polícia federal iraquiana está a cerca de 5 quilômetros (3 milhas) do aeroporto de Mosul. 
Parece que eles vão manter suas posições e voltar sua atenção para ajudar as forças iraquianas contra o terrorismo no leste.

Desde o início da operação, mais de 103.000 civis fugiram da zona de guerra para os campos de deslocados temporários (PDI). 
No entanto, a situação nesses campos está se deteriorando como o clima se torne mais frio e a escassez de assistência humanitária tem seu preço. 
Mesmo que a maioria civis em Mosul estão declaradamente se entrincheirando e ficar colocado na cidade, um número substancial ainda estão saindo. 
Esta é a primeira vez que o governo iraquiano lidou com tantos deslocados internos, tornando mais difícil para os funcionários formularem uma solução eficaz. 
Para piorar as coisas, as forças iraquianas têm trabalhado para expulsar mais civis da cidade em segurança, mas o Estado islâmico retardou seu progresso deliberadamente atacando civis e forças iraquianas com carros-bomba. 
Em um relatório não confirmado, o Estado Islâmico também ordenou a transferência de combatentes locais fora da linha de frente de Mossul e substituiu-os por combatentes estrangeiros, porque alguns moradores estavam permitindo que os civis fugissem.

Em Mosul, todas as pontes que ligam as margens leste e oeste da cidade foram destruídas há muito por ataques aéreos da coligação, cortando as linhas de abastecimento do Estado islâmico e reduzindo a capacidade do grupo militante de reforçar o lado oriental da cidade. As forças da coligação emitiram uma declaração no início da semana dizendo que, embora a coligação liderada pelos EUA tivesse realizado os ataques aéreos, o governo iraquiano os havia solicitado.

Do oeste, as forças de mobilização popular lideradas por xiitas ainda estão trabalhando para retomar aldeias na província de Nineveh. 
Há alguns dias eles capturaram o distrito de Tel Abth, onde vivem quase 50 mil pessoas e um dos principais distritos que o Estado Islâmico usa para transitar suprimentos e reforços da Síria.

Vários desenvolvimentos diplomáticos têm ocorrido no Iraque, bem como com relação à Turquia, uma potência-chave na região. 
No início desta semana, o primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, falou por telefone ao primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, sobre a cooperação bilateral e a presença militar turca no campo Bashiqa, perto de Mosul. 
Embora Yildirim tenha assegurado a al-Abadi que as forças turcas não têm nenhum interesse em permanecer no acampamento Bashiqa depois que a operação de Mosul acabar, isso poderia ser simplesmente uma retórica que muda uma vez que as circunstâncias no campo de batalha mudam.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

É o Irão que vai ganhar a guerra na Síria?

ANÁLISE
CLARA BARATA
15 de Dezembro de 2016, 8:44

Teerão investiu muito na manutenção do regime de Assad, mais do que a Rússia. 

Quer construir um “crescente xiita” de influência regional, face à sua grande rival, a Arábia Saudita.

O Presidente iraniano Hassan Rouhani deu os parabéns a Bashar al-Assad pela vitória “na Alepo libertada”, segundo a presidência síria, depois de Teerão, um aliado fundamental de Damasco na guerra que destrói a Síria há cinco anos, ter feito colapsar o acordo de cessar-fogo para evacuar os civis da cidade cercada negociado pela Rússia e pela Turquia na terça-feira à noite, sem que os Estados Unidos fossem incluídos.

Teerão está prestes a erguer um “crescente xiita” de influência regional que se estende da fronteira do Afeganistão até ao Mediterrâneo, disse à Reuters Hilal Khashan, professor de Estudos Políticos na Universidade Americana de Beirute (Líbano). 
“Os iranianos vão estabelecer a sua esfera de influência do Iraque até ao Líbano”, previu Khashan.

No momento em que Assad tem na mão a maior vitória desta guerra sangrenta que já vai quase em seis anos e que atinge níveis de barbarismo que se julgavam impossíveis, o Irão não está disposto a passar para segundo plano.

“A Rússia pode ter a primazia nos bombardeamentos aéreos, mas o Irão é o principal actor militar em terra. 
Começou a treinar as milícias sírias já em 2012, e depois avançou com as suas próprias forças e unidades lideradas por militares iranianos. 
Investiu muito mais do que a Rússia nesta guerra desde o início da revolta síria, em 2011. Gastou fortunas para preservar o regime [de Assad], perdeu mais de uma dezena de comandantes e centenas de tropas, sem mencionar um grande número de baixas entre os iraquianos e afegãos que envia para combater na Síria”, escreve no site The Conversation Scott Lucas, professor de Política Internacional da Universidade de Birmingham (Reino Unido).

Por causa do investimento tão pesado que fez nesta guerra, o Irão pode não estar disposto a tolerar nenhuma área de oposição na Síria. 
Por isso a conquista de Alepo terá sido tão feroz, e provavelmente a ofensiva continuará para Idlib, apesar dos pesados custos humanos, financeiros e militares, sublinha o investigador britânico.

Para Teerão, o que se passa na Síria faz parte de uma prolongada guerra de atrito que mantém com o seu grande rival regional, a Arábia Saudita. 
Em ambos, o poder secular e o religioso se entrelaçam de formas frequentemente conflituosas, embora um seja xiita e outro sunita. 
Fizeram do Médio Oriente o palco da sua disputa pela supremacia regional, apoiando guerras mortíferas, no Iémen e na Síria. 
Os sauditas e outros países do Golfo apoiam vários grupos rebeldes na Síria.

Os principais interesses da Rússia não os de afirmação regional, embora também os tenha. “A marginalidade dos Estados Unidos foi evidente no anúncio do cessar-fogo de 13 de Dezembro. 
John Kerry não estava em lado nenhum; foram os serviços secretos turcos e os militares russos que chegaram a acordo. 
O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, resumiu bem a coisa: ‘É mais fácil para Moscovo chegar a acordo com a Turquia sobre Alepo do que os EUA’”, comentou Scott Lucas.

O recuo de Washington em relação ao Médio Oriente, sentido por muitos países da região, melindrados por causa do acordo sobre o nuclear com o Irão – um importante feito diplomático, mas com muitos críticos – abriu espaço para a entrada da Rússia, que procura reafirmar o seu estatuto de potência mundial. 
Embora com fraquezas evidentes, como uma economia em crise.

“Vladimir Putin compreendeu bem a opção de Washington em não se envolver tanto e a falta de vontade dos europeus de intervir, ainda que critique sempre nos seus discursos o alegado intervencionismo ocidental”, disse ao Le Monde Thomas Gomart, director do Instituto Francês de Relações Internacionais. 
“O Presidente russo conseguiu fazer do seu país o interlocutor privilegiado sobre a crise síria, tal como nos tempos da Guerra Fria”, afirmou.

“A gestão da crise síria [pelos países ocidentais] é uma sequência de oportunidades perdidas. 
No último ano, os russos fizeram, para salvar o regime, tudo o que os ocidentais não fizeram pela oposição, disse em Setembro ao diário francês Camille Grande, que se tornou entretanto uma das secretárias gerais adjuntas da NATO.

Moscovo, Teerão e Ancara, “formato eficaz” para obter “um cessar-fogo” na Síria

SOFIA LORENA
20 de Dezembro de 2016, 17:28

O trio de Moscovo diz-se agora “pronto a contribuir para elaborar um projecto de acordo para as negociações entre o Governo sírio e a oposição”.

Os iranianos, principais aliados de Bashar al-Assad, só começaram o ano passado a integrar as tentativas de negociações com o regime da Síria e a oposição externa, promovidas sempre pelas Nações Unidas ou num esforço diplomático conjunto de Estados Unidos e Rússia. 
Esta terça-feira, os ministros dos Negócios Estrangeiros russo, iraniano e turco defenderam em Moscovo “a importância de alargar o regime de cessar-fogo de forma a garantir um acesso sem obstáculos à ajuda humanitária e à livre circulação das populações no território sírio”.

Questionado sobre o que ficou para trás de trabalho com o seu homólogo americano, John Kerry, Serguei Lavrov afirmou que “este formato é o mais eficaz, e isto não é uma tentativa de lançar uma sombra sobre os esforços de todos os parceiros para resolver a crise síria”, é apenas o ministro russo a “constatar um facto”.

O cessar-fogo actual envolve Alepo, a grande cidade do Norte da Síria onde a oposição armada mantém ainda alguns bairros que aceitou abandonar a semana passada em troca da evacuação dos civis, cercados há meses e bombardeados sem tréguas pela aviação síria e russa desde Novembro. 
Lavrov afirma que a retirada das populações das zonas Leste de Alepo estará terminada “dentro de um dia, dois no máximo”.

Pelo menos 25 mil pessoas, incluindo uns 4000 combatentes, saíram desde quinta-feira, diz o Comité Internacional da Cruz Vermelha, que está a coordenar o processo assim que os habitantes passam os controlos de segurança do regime. 
O Exército de Assad precisou dos altifalantes dos rebeldes e usou-os para pedir a opositores e civis que abandonem o último enclave da oposição. 
“O Exército quer limpar a zona depois da saída dos homens armados”, explicou um responsável militar sírio à AFP.

A Cruz Vermelha diz que ainda falta retirar “milhares” de pessoas; a ONU estimava 20 a 30 mil na segunda-feira ao final do dia. 
No primeiro dia da semana, reiniciada a retirada que fora interrompida sábado e domingo, houve 75 autocarros a sair do Leste de Alepo. 
Terça-feira de manhã foram apenas dez a dirigirem-se para os bairros sob controlo do Governo antes de partirem para zonas rurais da província mantidas pela oposição ou para Idlib, umas dezenas de quilómetros a Sudoeste. 
Segundo as descrições dos correspondentes da AFP, a maioria eram “velhos, mulheres e crianças”. 
“O seu estado é lamentável, todos tinham frio”, disse um responsável dos serviços médicos, Bashar Babbour.

Russos e turcos negociaram este cessar-fogo e esta evacuação – por causa do seu relativo sucesso, o enviado da ONU para o conflito, o diplomata Staffan de Mistura, já apelara a um regresso à mesa das negociações a 8 de Fevereiro na cidade de Genebra, onde decorreram ao longo dos últimos anos diversas tentativas infrutíferas de pôr regime e oposição a falar.

O trio de Moscovo diz-se agora “pronto a contribuir para elaborar um projecto de acordo para as negociações entre o Governo sírio e a oposição”, afirmou Lavrov, quando leu uma declaração tendo a seu lado o ministro turco, Mevlüt Çavusoglu, e iraniano, Mohammad Javad Zarif, assim como os ministros da Defesa dos três países.

Na conferência de imprensa que se seguiu, Çavusoglu defendeu a necessidade de pôr fim a todos os apoios a grupos que vão combater na Síria, dizendo que “é errado apontar apenas o dedo a um dos lados”.

A Turquia apoia diferentes grupos de sírios árabes e tem o seu próprio Exército na Síria – para travar os avanços dos curdos e dos jihadistas do Daesh na direcção do seu território. Já a Rússia e o Irão têm as suas próprias forças ao lado do regime e Teerão promove ainda a mobilização do Hezbollah libanês, que não nega há mais de dois anos estar na Síria, e de outras milícias xiitas, como algumas iraquianas.

Erdogan acusa EUA de apoiarem terroristas na Síria. "Ridículo", respondem os americanos

PÚBLICO
27 de Dezembro de 2016, 22:17

O Presidente turco propõe ainda que a Arábia Saudita e o Qatar se sentem à mesa das negociações sobre o processo de paz na Síria.

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou nesta terça-feira que possui provas de que a coligação liderada pelos EUA no conflito na Síria apoiou grupos terroristas tais como o Daesh ou as milícias curdas das Unidades de Protecção do Povo (YPG) e do Partido da União Democrática (PYD).

“Eles acusaram-nos de apoiar o Daesh”, afirmou Erdogan, segundo a Reuters, numa conferência de imprensa em Ancara. 
“Agora dão apoio a grupos terroristas incluindo ao Daesh, às YPG, ao PYD. 
É muito claro. 
Nós temos provas confirmadas, com imagens, fotografias e vídeos”, garantiu o Presidente da Turquia.

Horas depois, o Departamento de Estado norte-americano reagiu, através do seu porta-voz, Mark Toner, qualificando as acusações de Erdogan como “ridículas”.

Esta terça-feira, e ainda sobre a Síria, o Presidente turco defendeu também que a Arábia Saudita e o Qatar devem juntar-se à Turquia e ao Irão na mesa de discussão sobre os esforços de paz em relação ao conflito na Síria.

Moscovo, Ancara e Teerão concordaram em reunir-se no Cazaquistão no próximo mês para discutir a situação síria. 
Agora, Erdogan afirmou que na reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros deveriam estar presentes os representantes dos dois países do Golfo Pérsico, referindo que mostraram “boa vontade e deram apoio” ao país liderado por Bashar al-Assad, cita a Associated Press.

A Arábia Saudita e o Qatar são dois dos principais apoiantes dos rebeldes que lutam para derrubar o regime de Assad que, por sua vez, tem como maiores aliados Moscovo e Teerão.

Apesar disso, Erdogan garantiu que a Turquia não marcará presença no encontro caso qualquer “organização terrorista” seja convidada, referindo-se às milícias curdas sírias acusadas de serem uma extensão dos grupos também curdos na Turquia.

Turquia e Rússia perto de acordo para cessar-fogo na Síria, diz Ancara

PÚBLICO
28 de Dezembro de 2016, 9:02 actualizado a 28 de Dezembro às 16:20~


Acordo ainda não foi confirmado oficialmente por nenhum dos Governos.

A Turquia e a Rússia estão perto de chegar a acordo para um cessar-fogo na Síria, disse esta quarta-feira o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Cavusoglu.

O ministro comentava uma notícia da agência estatal turca Anadolu de que os dois governos tinham chegado a um acordo. "Há dois textos preparados para uma solução na Síria. 
Um é sobre uma resolução política e outra é sobre um cessar-fogo, podem ser implementados a qualquer momento", disse Cavusoglu, à margem de uma cerimónia no palácio presidencial, em Ancara.

Segundo a agência, os dois países pretendem alargar a todo o território sírio o cessar-fogo decretado em Alepo e vão apresentar a proposta a todos os intervenientes no conflito, excluindo, no entanto, os "grupos terroristas".

Em caso de sucesso, este acordo será a base das negociações políticas entre o regime sírio e a oposição, que Moscovo e Ancara querem organizar em Astana, no Cazaquistão. 
O Governo russo sublinha, porém, que as conversações de Astana estão em fase de "elaboração" e não pretendem substituir o processo de paz que tem decorrido em Genebra.

Líderes dos principais grupos rebeldes confirmaram ter estado reunidos com a Turquia para estudar a proposta de cessar-fogo, mas não querem a exclusão dos territórios que ocupam em Ghuta Oriental, nos arredores de Damasco, das tréguas.

O cessar-fogo deverá entrar em vigor à meia-noite (menos duas horas em Portugal continental) de quarta-feira em todo o território da Síria. 
A agência turca não revela detalhes sobre quando e como o acordo foi concluído, mas sabe-se que nas últimas semanas decorreram em Ancara conversações entre a Rússia, a Turquia e a oposição síria. 
Não houve ainda um anúncio oficial sobre o acordo por parte dos Governos envolvidos.

Permanecem, no entanto, muitas dúvidas quanto às hipóteses de sucesso desta iniciativa. Cavusoglu reiterou a exigência turca de que o Presidente sírio, Bashar al-Assad, deverá abandonar o poder. 
"O mundo inteiro sabe que não é possível haver uma transição política com Assad, e também sabemos que é impossível para estas pessoas se unirem em torno de Assad", disse o ministro, citado pela Reuters.

Enquanto Ancara apoia os rebeldes na Síria, Moscovo, tal como o Irão, é próximo do regime de Damasco. 
No entanto, recorda a AFP, houve nos últimos meses uma aproximação entre os dois países com vista a um entendimento na Síria. 
Um dos sinais de boa vontade foi dado pela Turquia quando, na semana passada, o regime de Assad conseguiu, com a ajuda dos russos, recuperar o controlo da cidade de Alepo, da qual foram retiradas cerca de 34 mil pessoas.

Em Outubro passado, um cessar-fogo que tinha sido negociado pelos Estados Unidos e a Rússia falhou quando o Governo sírio continuou a bombardear as posições controladas pelas forças rebeldes.

Governo sírio e rebeldes aceitam cessar-fogo e início de negociações

ANA FONSECA PEREIRA
29 de Dezembro de 2016, 12:01 actualizada às 13:21

Trégua entrará em vigor à meia-noite desta quinta-feira "em todo o território sírio". 

Rússia e Turquia mediaram acordo e serão os seus garantes.


O regime de Bashar al-Assad e grupos da oposição chegaram a acordo para a entrada em vigor, a partir da meia-noite desta quinta-feira, de um cessar-fogo “em todo o território sírio”, anunciaram a Rússia e a Turquia, os dois países por trás da mais recente tentativa para pôr cobro à guerra no país.

Segundo o Presidente russo, Vladimir Putin, Damasco e representantes da oposição assinaram três documentos – além da trégua e de uma lista de mecanismos para a sua monitorização, as duas partes comprometeram-se a iniciar negociações com vista à resolução do conflito, que dura já desde 2011 e fez mais de 300 mil mortos. 
Putin revelou ainda que Moscovo aceitou reduzir a sua presença militar no país, onde actua desde Setembro de 2015 ao lado de Assad, mas continuará “a lutar contra o terrorismo internacional e a apoiar o governo sírio”.

A Coligação Nacional Síria, que agrega grande parte dos grupos da oposição (armada e política), representando-a nas negociações internacionais, anunciou que apoia este entendimento e apelou “todas as partes a aceitá-lo”. 
Um porta-voz da Coligação afirmou, no entanto, que os rebeldes “irão retaliar se forem atacados”.

Segundo o ministro da defesa russo, Serguei Choigu, o acordo envolve "as principais forças da oposição armada" síria, num total estimado de 62 mil combatentes.

O Exército sírio assegura que a trégua, que tem como garantes a Rússia e a Turquia, não se aplicará aos jihadistas do Daesh nem à Frente Fatah al-Sham (antiga Frente al-Nusra, considerada o braço armado da Al-Qaeda no país) e os seus aliados. 
Contudo, Osama Abu Zeid, conselheiro do Exército Livre da Síria e um dos envolvidos nas negociações, disse à Reuters que apenas os extremistas islâmicos e as áreas que eles controlam estão excluídos deste acordo. 
Uma das dúvidas prende-se com a região de Ghutta Oriental, um dos derradeiros bastiões da oposição nos arredores de Damasco, já que nos últimos dias o regime sírio insistia que as suas operações nesta área não podiam cessar.

Esta não é a primeira vez que regime e rebeldes aceitam um cessar-fogo, mas as anteriores tentativas, negociadas sob a égide das Nações Unidas, colapsaram ao fim de vários dias. 
Este entendimento acontece, no entanto, num momento diferente do conflito, depois de a rebelião síria ter sido forçada a abandonar Alepo, após meses de cerco e uma derradeira ofensiva que confinou a oposição a uma pequena fracção do território que controlou durante quatro anos na metade Leste da cidade.

Citado pelas agências de notícias russas, Putin reconheceu que este cessar-fogo “é frágil e vai requerer muita atenção”, mas elogiou o esforço dos seus ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, bem como os parceiros de Moscovo na região, por esta esperança de paz. 
Serguei Lavrov, o chefe da diplomacia russa, revelou que está já a preparar, com os homólogos da Turquia e do Irão, o início das negociações de paz, prevista para Astana, no Cazaquistão.