Mostrar mensagens com a etiqueta Tudo sobre a Síria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tudo sobre a Síria. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 10 de abril de 2018

Sete iranianos mortos em ataque atribuído a Israel na Síria

MÉDIO ORIENTE
Maria João Guimarães
9 de Abril de 2018, 20:39 
Israel não confirma nem desmente ataque. EUA terão sido informados.

O timing do ataque, poucas horas depois de um tweet do Presidente americano, Donald Trump, na sequência de mais um ataque com armas químicas na Síria, fez com que o dedo fosse apontado a Washington. 
Mas esta segunda-feira, Damasco e Moscovo culparam Israel pelo disparo de mísseis contra uma instalação militar síria, usada também por forças iranianas e russas, que fez 14 mortos de várias nacionalidades, sete deles iranianos.

Israel não confirmou nem desmentiu a autoria do ataque de segunda-feira à chamada base T-4, que já em Fevereiro tinha sido alvo da sua aviação. 
Mas o Estado hebraico tem repetido que não admitirá que o Irão, ou a milícia xiita libanesa Hezbollah apoiada pela República Islâmica, ganhe espaço suficiente na Síria para aumentar a sua capacidade para atacar Israel a partir do Líbano ou da Síria.

O presumível ataque israelita nasce de dois movimentos em rota de colisão: a determinação iraniana em se estabelecer firmemente na Síria e a determinação israelita em impedir que isso aconteça, reagiu Amos Yadlin, director executivo do Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Telavive, no Twitter. 
No diário Ha’aretz, Amos Harel não tem dúvidas: “Israel está agora a confrontar directamente o Irão”.

Segundo fontes americanas citadas sob anonimato, Israel informou previamente os Estados Unidos do ataque. 
Já Moscovo queixou-se de um “desenvolvimento muito perigoso”, nas palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, lembrando que poderia haver militares russos no local. 
“Espero que pelo menos o exército americano e aqueles a participar na coligação liderada pelos Estados Unidos percebam isso.”

Este foi o último incidente reportado desde que, em Fevereiro, Israel disse ter interceptado um drone iraniano que teria sido lançado precisamente da base T-4, perto de Homs, atacando a base e perdendo um avião na resposta das defesas anti-aéreas sírias.

Essa foi a primeira vez que Israel atingiu uma base militar: o seu exército tem atacado alvos na Síria – cerca de cem raides desde 2012, sobretudo colunas de veículos levando armas para o Hezbollah, com quem Israel esteve em guerra em 2006. 
Como disse o ministro israelita da Defesa, Avigdor Lieberman, numa entrevista ao diário Yediot Ahronot, “uma grande parte da actividade do Exército israelita não aparece nos jornais, e ainda bem – só não é correcto dizer que não agimos”.

Se este ataque israelita foi mais um aviso ou será o novo normal na guerra da Síria é a grande pergunta – as previsões são desde ataques mais frequentes a um momento em que algo contribua para um novo conflito em maior escala. 
“Não se pode excluir respostas sírias ou iranianas”, escreveu Yadlin no Twitter. 
Já há meses que há relatos de uma aproximação das forças da fronteira com os Montes Golã, território sírio ocupado por Israel.

“Temos linhas vermelhas”, reagiu o ministro da Habitação, Yoav Galant, sem confirmar a autoria do ataque. 
“Não deixaremos que a Síria se torne uma rampa de lançamento para armas que mudem a situação no Líbano, não permitiremos que haja um exército iraniano na Síria e não permitiremos a abertura de uma frente nos Montes Golã”.

A outra grande questão é o que fará a Rússia que, até agora, não tem interferido nas acções militares israelitas. 
Na sua reacção ao ataque, Moscovo pareceu avisar sobretudo os EUA – com Trump a prometer uma resposta ao ataque químico, depois de pouco antes ter anunciado uma diminuição do papel dos EUA e uma progressiva retirada das suas tropas da Síria. 

A acção israelita também acontece por uma profunda desconfiança em relação ao seu próximo aliado americano: embora as relações entre as lideranças estejam num ponto óptimo com Netanyahu e Trump, Israel teme o caos no Departamento de Estado e da Defesa.

Yossi Mekelberg, responsável do departamento de Relações Internacionais da Universidade Regent’s em Londres, comentou à televisão americana NBC que Israel preferiria não agir na Síria. 
“Mas os iranianos estão a aproximar-se muito.”  

maria.joao.guimaraes@público.pt

Rússia alerta para “graves consequências” em caso de ataques ocidentais

A GUERRA NA SÍRIA
Lusa
10 de Abril de 2018, 0:47 
Vassily Nebenzia, embaixador russo na ONU
“Pedimos aos ocidentais que desistam da retórica de guerra”, disse o embaixador russo na ONU.

A Rússia advertiu nesta segunda-feira para “graves consequências” em caso de ataques aéreos ocidentais na Síria, depois de um alegado ataque químico em Douma, que matou pelo menos 40 pessoas, cuja existência Moscovo nega.

“Pedimos aos ocidentais que desistam da retórica de guerra”, disse Vassily Nebenzia, embaixador russo, no início da reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas para abordar o ataque em Douma.

Vassily Nebenzia referiu que “não existiu ataque químico” em Douma no sábado, falando sobre “falta de provas”.

Segundo a organização não-governamental “Capacetes Brancos”, dedicada ao resgate de vítimas das zonas sob controlo dos rebeldes, o alegado ataque químico contra Douma, o último bastião rebelde em Ghouta oriental, nos arredores de Damasco, foi conduzido pelas forças do regime do Presidente Bashar al-Assad, que é um aliado próximo da Rússia.

O ataque matou pelo menos 40 pessoas, entre as quais várias crianças, e afectou outras centenas em Douma.

A Síria culpou, entretanto, Israel por um ataque com mísseis contra uma base aérea de Homs (centro), que matou 14 pessoas, incluindo três iranianos.

O ataque contra Douma ocorreu dias depois de Trump ter reiterado a sua disposição para deixar a Síria.

A Síria, que entrou no oitavo ano de guerra, vive um drama humanitário perante um conflito que já fez pelo menos 511 mil mortos, incluindo 350 mil civis, e milhões de deslocados e refugiados.

Desencadeado em Março de 2011 pela violenta repressão do regime de Bashar al-Assad de manifestações pacíficas, o conflito na Síria ganhou ao longo dos anos uma enorme complexidade, com o envolvimento de países estrangeiros e de grupos jihadistas, e várias frentes de combate.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Palavras, expressões e algumas irritações: massacre


CRÓNICA
Rita Pimenta
25 de Fevereiro de 2018, 7:13

Rita Pimenta
“Mortandade”, “carnificina”, “matança” e “chacina” são sinónimos de “massacre”. 
Qualquer destas palavras causa arrepios e traduz o que se está a passar em Ghouta, na Síria

Gostaríamos de não ter de voltar a esta palavra, mas a vaga de ataques em Ghouta, um enclave nos arredores de Damasco (Síria), obriga-nos.

Notícia de terça-feira: “Desde domingo, quando se intensificaram os ataques do regime, apoiado pelo Irão e pela Rússia, morreram 210 pessoas e pelo menos 850 — entre os quais muitas crianças — ficaram feridas, avança o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, uma organização com sede no Reino Unido mas com observadores no terreno.”

Na quinta-feira, actualizaram-se os números: “Pelo menos 368 pessoas foram mortas, entre elas, 150 crianças.” 
Que outra palavra senão “massacre”?

Já a trouxéramos aqui, em 2015, quando islamistas da Nigéria mataram 2000 pessoas na tomada de Baga.

Foi pouco depois dos atentados em Paris e de toda a atenção que lhes foi dada, fazendo com que o arcebispo nigeriano Ignatius Kaigama pedisse: “É necessário que essa atitude exista não apenas quando se trata da Europa, mas também quando se trata da Nigéria, do Níger, dos Camarões e de outros países pobres.”

O apelo continua válido.

“Mortandade”, “carnificina”, “matança” e “chacina” são sinónimos de “massacre”. 
Qualquer destas palavras causa arrepios e traduz o que um médico que está em Ghouta oriental disse ao Guardian: “É o massacre deste século, do que vivemos até agora.”

Declarações proferidas depois de cinco hospitais terem sido bombardeados pelas forças do regime de Bashar al-Assad e seus aliados (como a Rússia), já que o enclave continua a opor-se ao Presidente sírio.

A Cruz Vermelha, o Programa Alimentar Mundial e o secretário-geral das Nações Unidas apelaram na quarta-feira a um cessar-fogo urgente. 
António Guterres descreveu a situação como a de um “inferno na Terra”.

O dicionário regista esta frase: “Não foi um combate, foi um massacre de pessoas inocentes.” 
Lamentavelmente, repetimo-la aqui.

A rubrica Palavras, expressões e algumas irritações encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO

rita.pimenta@publico.pt

Damasco retoma bombardeamentos em Ghouta Oriental

SÍRIA
Público e Lusa
25 de Fevereiro de 2018, 9:45


























O Observatório Sírio dos Direitos Humanos dá conta que forças leais a Bashar al-Assad bombardearam este domingo de manhã a zona de Ghouta Oriental.

As forças do governo sírio retomaram os bombardeamentos e ataques de artilharia contra a região de Ghouta Oriental, um reduto da oposição nos arredores de Damasco, horas depois de a ONU ter exigido um cessar-fogo. 
Contudo, ainda não é possível falar em desrespeito da resolução uma vez que a decisão da ONU não é clara sobre quando entra em vigor.

Este domingo de manhã, houve dois bombardeamentos na localidade de Al-Shifunia, enquanto forças leais ao Presidente sírio, Bashar al-Assad, lançaram mísseis sobre Harasta, Kafr Badna e Yisrín, informou o Observatório Sírio dos Direitos Humanos. 
Já no sábado, pouco depois da decisão das Nações Unidas houve notícias de um raide aéreo em Shifouniyeh, também na zona de Ghouta.

Apesar dos confrontos entre as forças governamentais e o grupo islâmico Exército do Islão, o Observatório indicou que a noite de sábado foi a mais tranquila desde o início da escalada militar em Ghouta Oriental, há uma semana, já que não foram registados mortos.

Os combates que ocorreram em Al-Shifunia, com armas pesadas e metralhadoras, são os primeiros a ter lugar na zona desde o início da campanha de bombardeamentos, no dia 18.

No início deste domingo, seis mísseis caíram em Harasta, mais quatro mísseis em Kafr Badna e Yisrín e outros quatro em Hamuriya, enquanto Al-Shifunia foi alvo de dois bombardeamentos, de acordo com o Observatório.

O Conselho de Segurança da ONUs aprovou na noite de sábado uma resolução em que todas as partes em conflito devem cessar as hostilidades durante 30 dias em todo o país, incluindo em Ghouta Oriental.

No entanto, a resolução exclui do cessar-fogo os grupos Daesh e a Organização de Libertação do Levante, uma aliança criada em torno da Frente de Al-Nusra, o nome da antiga filial síria da Al-Qaida que, de acordo com o governo sírio, está em Ghouta Oriental.

Os principais grupos rebeldes que controlam a região comprometeram-se a respeitar o cessar-fogo humanitário exigido pela resolução do Conselho de Segurança.

Entretanto, este domingo, já foram várias as vozes a pedir para que seja respeitado o cessar-fogo. 

A Rússia pediu aos países que apoiam a oposição síria que exerçam a sua influência para garantir o cumprimento da resolução. 
“Confiamos que os apoiantes estrangeiros dos grupos armados (da oposição) façam por fim o seu dever e garantam o cessar das actividades militares dos seus apoiados, para que o trânsito de comboios humanitários se faça o mais rápido e seguro possível”, assinalou um comunicado difundido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros russo.

Também o Papa Francisco já se manifestou sobre o que se passa naquele país fazendo "um apelo para que cesse imediatamente a violência” e pedindo para que sejam retirados os feridos e doentes dos territórios afectados pelo conflito. 
"Eu envio um apelo urgente para a cessação imediata da violência, para que seja dado o acesso à ajuda humanitária - alimentos e remédios - e se retirem os feridos e os doentes", disse Francisco, logo após a oração do Angelus, na praça de São Pedro.

Numa semana de intensos ataques aéreos, artilharia e mísseis, a região registou a morte de pelo menos 510 pessoas, incluindo 127 menores, de acordo com os últimos números divulgados pelo Observatório.

Wagner — os mercenários russos na guerra síria

MÉDIO ORIENTE
Adam Taylor
25 de Fevereiro de 2018, 7:00

























No dia 7 de Fevereiro, os EUA foram atacados em Deir Ezzor. 
Num contra-ataque devastador, mataram cem pessoas, com o Kremlin a reconhecer a queda de dezenas de cidadãos russos.

Um dos mais complexos episódios da retorcida guerra na Síria aconteceu na noite de 7 de Fevereiro. 
Nesse incidente, tropas dos Estados Unidos e os seus aliados sírios foram atacados perto da cidade de Deir Eizzor por centenas de combatentes fiéis ao regime sírio. 
Os responderam com um contra-ataque devastador que segundo os EUA matou cem pessoas. 

A situação complicou-se rapidamente com a notícia de que mercenários russos tinham participado no ataque e que estavam entre os mortos — tornando-o o mais mortífero confronto entre os EUA e a Rússia desde o fim da Guerra Fria. 
A empresa de mercenários chama-se Wagner, e foi relacionada com Ievgeni Prigozhin, um oligarca russo que foi recentemente acusado pelo procurador especial norte-americano Robert Mueller pelo seu papel na “guerra da informação” antes das eleições presidenciais de 2016.

Pior, relatórios dos serviços secretos americanos sugerem que Prigozhin contactou o Kremlin e fontes militares sírias pouco antes do ataque, segundo o The Washington Post. 
A situação levanta questões sobre o papel que a empresa de mercenários russos — ou da “pseudo-empresa” de mercenários, segundo o especialista russo em assuntos militares Mark Galeotti — está a ter na guerra na Síria.

Quando nasceu a Wagner?

A Wagner ganhou notoriedade pelas suas operações em 2014 na Ucrânia, onde mercenários seus — a maior parte deles veteranos e ultranacionalistas — estavam a combater ao lado dos separatistas pró-Rússia no Leste do país. 
Acreditava-se que o grupo era dirigido por Dmitri Utkin, que até 2013 pertenceu aos serviços secretos militares russos (GRU).

Depois de deixar o serviço militar, Utkin terá trabalhado no sector privado em empresa como a Segurança Moran e o Corpo Eslavo, um grupo de mercenários russos enviados para a Síria em 2013 com consequências desastrosas. 
Segundo a agência de investigação russa Fontanka, o fundador da Wagner é um simpatizante nazi. 
Os media russos  dizem que Utkin baptizou o grupo homenageando Richard Wagner, o compositor alemão cujos trabalhos eram admirados por Hitler. 
Foi depois alvo de sanções do Departamento do Tesouro dos EUA pelo seu envolvimento na Ucrânia.

Em 2015, depois do início da intervenção russa a favor do Presidente sírio Bashar al-Assad, a Wagner começou a enviar tropas para a Síria: em Outubro de 2015, apenas um mês depois de a Rússia ter começado a fazer raides aéreos, surgiram notícias dando conta da morte de cidadãos russos junto das forças pró-Damasco. 
Relatórios posteriores indicaram que mercenários da Wagner poderiam ter sido enviados para o Sudão e para a República Centro Africana.

Qual a relação de Prigozhin com a Wagner?

Prigozhin é um oligarca russo que se tornou famoso na área da restauração — a sua alcunha era “chefe de Putin”. 
Tem uma vida notável, um percurso que o levou da prisão, tendo estado preso nove anos por roubo e prostituição, a empresário ligado ao Kremlin.

Tem a reputação de não se importar de fazer o trabalho sujo do Presidente russo, Vladimir Putin. 
Na semana passada, foi incluído pela investigação Mueller na lista de pessoas ligadas à Internet Research Agency, uma empresa de São Petersburgo suspeita de usar as redes sociais para interferir na política americana, incluindo nas eleições presidenciais de 2016. 
A acusação diz que Prigozhin e a sua empresa de catering, a Concord, gastou “fundos significativos” nessa operação e que Prigozhin participou em muitas reuniões sobre o assunto. 

Fontes dos serviços secretos americanos dizem que “quase de certeza” Prigozhin controla os mercenários Wagner que combatem na Síria. 
A empresa de comunicação russa RBC disse no ano passado que Utkin estaria “fichado” como director geral de uma das empresas de catering de Prigozhin.

Qual é o papel da Wagner na Síria?

À primeira vista, os mercenários pareciam estar sobretudo envolvidos na segurança das bases russas e de outras instalações militares na Síria. 
Porém, à medida que a guerra se foi prolongando, começaram a ter um papel mais activo e a participar nos combates para reconquistar a cidade histórica de Palmira, em 2016 e 2017.

Pelo menos parte do envolvimento do grupo pode ter objectivos puramente comerciais — segundo noticiou a agência Associated Press no ano passado a petrolífera estatal síria ofereceu ao batalhão da Wagner na frente de guerra uma parte dos lucros das refinarias recuperadas ao grupo islamista Daesh.

O número de mercenários da Wagner na Síria deve ser superior a três mil, segundo a Fontanka, que também diz que 73 morreram — uma estimativa que os grupos de monitorização dizem ser conservadora. 
O Governo russo reconheceu que “várias dezenas” de russos foram mortos ou feridos no contra-ataque americano de 7 e 8 de Fevereiro. 

São um grupo privado ou parte do exército russo?

A ligação ambígua da Wagner ao Governo torna-a única, diz Galeotti. 
“A Rússia sempre usou mercenários, dos cossacos do czar aos rebeldes da Tchétchénia, mas trabalhavam directamente para o Estado, não para uma empresa”, explica este especialista por email.

De facto, e apesar de Putin ter dado o seu apoio à ideia de existirem empresas privadas de defesa, esse tipo de operações é ilegal à luz da lei russa. 
Quando o Corpo Eslavo, que estava na Síria, regressou à Rússia em 2013, alguns dos seus membros foram presos.

Mas as empresas militares privadas podem ter um papel chave nos objectivos da Rússia. 
O Kremlin quer evitar baixas na Síria, como aquelas que ocorreram em guerras sangrentas e impopulares, com a da Tchétchénia e a invasão soviética do Afeganistão. 
E como Moscovo viu no conflito na Ucrânia, os militares contratados podem permitir que se nege de forma plausível que está a participar quando o conflito se torna controverso internacionalmente. 

De quando em quando, o Governo russo acarinha os seus aliados mercenários —  Utkin foi fotografado a receber um prémio das mãos de Putin em 2016. 
De acordo com informação interceptada pelos serviços secretos americanos, Prigozhin disse a altos funcionários militares sírios que tinha “garantida a autorização” de um ministério russo não especificado para o ataque de 7 de Fevereiro.

Porém, não está claro até onde Moscovo dirige a acção da Wagner ou se a tolera em todas as situações. 
Iuri Barmin, especialista em política russa para o Médio Oriente, sugeriu no Twitter que a ausência de apoio dos militares russos à Wagner durante o contra-ataque americano pode significar uma ruptura entre o Ministério russo da Defesa e o grupo mercenário.

Alexei Khlebnikov, um consultor de risco e especialista em Médio Oriente no Russian International Affairs Council, disse que a Wagner representa uma “moeda de duas faces” para Moscovo: tem claramente importância tácita, mas implica riscos para a Rússia. 

Um dos principais problemas é que apesar das tentativas para manter as actividades da Wagner na Síria discretas, os pormenores revelados criam embaraço. 
No ano passado, por exemplo, o Daesh divulgou um vídeo que disse ser da captura de cidadãos russos que foram depois relacionados com a Wagner.

A morte de mercenários russos às mãos dos Estados Unidos foi motivo de tristeza mas também de irritação por o Governo russo não reconhecer o seu sacrifício.

“Eles existem”, disse à AP Farkhanur Gavrilova, a mãe de um dos mercenários mortos. 
“O Governo manda ir as tropas — é responsável pelas suas acções. 
Mando ir as tropas, mandam vir as tropas, mas ainda lá estão [russos], é tudo secreto”.

Esta reacção pode minar o apoio à intervenção russa na Síria. 
Uma sondagem realizada no ano passado mostra que metade dos russos acredita que o seu país deve pôr fim às operações na Síria — e 32% dos inquiridos estão convencidos de que o conflito pode tornar-se um “novo Afeganistão” para a Rússia.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Se os curdos fizeram um acordo com Assad como fica a Síria?

CONFLITOS
Clara Barata
20 de fevereiro de 2018, 7:56
























Turquia ameaça uma ofensiva sem limites contra Afrin se Presidente sírio socorrer governo autónomo do Curdistão.

As milícias curdas que controlam Afrin, no Norte da Síria, fizeram um acordo com o regime de Bashar Al-Assad para repelir a ofensiva da Turquia, que há cerca de um mês ataca esta cidade. 
A entrada do exército de Bashar Al-Assad, em auxílio das milícias curdas YPG, pode estar “por horas”, anunciou a agência noticiosa síria. 
“Se vierem defender as YPG, nada travará os soldados turcos”, ameaçou o ministro dos Negócios Estrangeiros de Ancara, Mevlut Cavusoglu.

Este é um novo momento de alta tensão na guerra da Síria, que está longe ainda de ter terminado. 
A apoiar o regime de Assad estão a Rússia e o Irão. 
Por isso, um eventual confronto de tropas turcas com o exército de Assad transformar-se-ia numa “guerra por procuração” com estas potências. 
Por isso, o Presidente turco, Recep Erdogan, falou ao telefone esta segunda-feira com o russo Vladimir Putin e o iraniano Hassan Rohani.


Segundo Erdogan, entrada das tropas turcas na Síria destinava-se a combater “o terror curdo”  – embora o que isto traduzisse era a intenção de impedir que as três regiões curdas do Norte da Síria estabeleçam continuidade territorial desde a fronteira turca até às zonas curdas da Síria e do Iraque. 
As outras duas regiões curdas são Jazira e Eufrates, que se declararam autónomas do resto da Síria em 2014 (integram a Federação Democrática do Norte da Síria, a que os curdos chamam Rojava). 
O objectivo de Ancara era conquistar território suficiente para criar uma “zona-tampão” onde o Governo turco pretende colocar os 3,5 milhões de sírios que fugiram de Assad e se refugiaram na Turquia.

Com esta ofensiva, a Turquia colocou-se potencialmente na posição de poder vir a entrar em conflito com os Estados Unidos  – que têm apoiado as YPG (unidades de Protecção Popular), milícias do Partido da União Democrática, que desde 2012 controla Afrin.

























A incursão territorial da Turquia no Norte da Síria rumo a Afrin caracterizou-se ainda pelo uso de brigadas do Exército Livre da Síria – os media turcos mostraram imagens de 20 autocarros com guerrilheiros deste grupo mobilizados para combater em Afrin, relata o site Al-Monitor. 
Não é a primeira vez que este grupo, ou o que resta desta formação que teve um papel importante no início da guerra na Síria, faz as funções de extensão da força militar turca no país vizinho.

"Ainda pode falhar"

Mas há notícias a circular nas redes sociais de que com este Exército Livre da Síria combatem também curdos da região que não apoiam o Partido da União Democrática, que controla Afrin. 
Dizem lutar contra confiscações de terras e habitações, prisões de opositores e mobilizações forçadas de adolescentes e pessoas mais velhas. 
E, ao mesmo tempo, juram lealdade à revolução contra Bashar Al-Assad.

O que é realmente novo neste conflito é o acordo que está a ser anunciado entre Damasco e os curdos de Afrin – com o objectivo declarado de defender as forças curdas da ofensiva turca. 
Responsáveis curdos disseram à Reuters que o acordo, de que já se fala desde o fim-de-semana, devia ter sido oficializado durante o dia de segunda-feira. 
Só não foi ainda devido “a pressões externas.”

“O acordo pode ainda falhar”, disse à Reuters Badran Jia Kurd, conselheiro da administração de Rojava. 
Foram negociados apenas aspectos militares, de defesa do território face à ofensiva turca. Quais outros assuntos, políticos ou administrativos, teriam de esperar por outras negociações entre Damasco e o governo autónomo curdo.

Se houver de facto um acordo entre os curdos do Norte da Síria e o Governo de Damasco, as duas forças do conflito que detêm mais território no país massacrado por quase sete anos de guerra – e que se têm poupado a entrar em conflito directo – abrem-se de facto novas possibilidades. 
“Se as forças do Governo sírio entrarem na região de Afrin, isso significará que dão luz verde para a divisão da Síria”, afirmou o vice-primeiro-ministro turco, Bekir Bozdag.

clara.barata@publico.pt

Ataque de “violência histérica” de Assad contra Ghouta mata centenas de civis

A GUERRA NA SÍRIA
Clara Barata
20 de fevereiro de 2018, 13:13


Região nos arredores de Damasco é controlada por forças que resistem ainda ao regime sírio. 
É das ofensivas mais sangrentas dos últimos anos. 
“Estamos a assistir ao massacre do século XXI”, disse um médico.

Mais de 66 pessoas morreram nesta terça-feira em novos bombardeamentos de forças do regime de Bashar al-Assad e seus aliados contra Ghouta, um enclave nos arredores de Damasco controlado por forças de oposição ao regime do Presidente sírio. 
Nos ataques de segunda-feira tinham morrido pelo menos 127 outras pessoas.

Esta vaga de ataques — que faz parte de uma escalada em várias frentes com Assad a tentar pôr fim a uma guerra que está prestes a completar sete anos — está a ser descrita como uma das mais mortíferas na zona desde 2013, quando Ghouta Oriental ficou completamente cercada por forças do regime. 
Foi nesta zona que o Governo de Damasco usou armas químicas, em 2013, num ataque que chocou o mundo, mas não chegou para que o então Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, avançasse para uma intervenção na guerra síria.

França descreveu os bombardeamentos do Governo de Assad como uma grave violação da lei humanitária internacional. 



Nesta ofensiva estão a ser realizados raides aéreos e bombardeamentos com rockets e outros projectéis, que incluem as famosas bombas de barril — literalmente, barricas cheias de explosivos, pregos e tudo o mais que possa causar danos graves no local em que rebentam.

Desde domingo, quando se intensificaram os ataques do regime, apoiado pelo Irão e pela Rússia, morreram 210 pessoas e pelo menos 850 — entre os quais muitas crianças — ficaram feridas, avança o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, uma organização com sede no Reino Unido mas com observadores no terreno.

“O massacre” do século XXI

Cinco hospitais foram bombardeados. 
“O bombardeamento foi de uma violência histérica”, disse Ahmed al-Dbis, um elemento de segurança da União das Organizações Médicas e de Socorro (Union of Medical and Relief Organisations) que gere dezenas de hospitais em áreas controladas pela oposição na Síria. “É uma catástrofe humanitária em todos os sentidos da palavra”, disse, citado pelo Guardian.

























“Estamos a assistir a um massacre no século XXI”, disse a este jornal britânico um médico que está em Ghouta Oriental. 
“Se o massacre dos anos de 1990 foi em Srebrenica [Bósnia], e os massacres da década de 1980 foram em Halabja [cidade no Curdistão iraquiano] e Sabra e Shatila [Líbano], então Ghouta Oriental é o massacre deste século, do que vivemos até agora”, acrescentou.

Logo na segunda-feira as Nações Unidas apelaram a um cessar-fogo imediato nesta zona, afirmando que a situação estava a entrar numa “espiral sem controlo, após uma escalada extrema” — o apelo ficou sem resposta. 
Os Capacetes Brancos — a defesa civil síria — relata que os bombardeamentos continuam.

A Unicef emitiu uma declaração “em branco” esta terça-feira, para expressar a sua indignação com o elevado número de crianças que estão a ser mortas e feridas nesta ofensiva — pelo menos 54 foram mortas desde domingo. 
“Não há palavras que possam fazer justiça às crianças que foram mortas, às suas mães, aos seus pais e entes queridos”, diz o comunicado do director regional da Unicef Geert Cappalaere, a que se seguem dez linhas em branco, com aspas que indicam o texto em falta, e uma nota de explicação em rodapé, descreve a Reuters.

“Já não temos palavras para descrever o sofrimento das crianças e a nossa indignação. Aqueles que estão a infligir tanto sofrimento ainda têm palavras para justificar os seus actos de barbárie?”, pergunta-se na nota. 

400 mil pessoas

Cerca de 400 mil pessoas vivem em Ghouta Ocidental, onde os raides aéreos constantes criam um “estado permanente de terror” entre os residentes, dizem os trabalhadores humanitários. 
“Os aviões de guerra estão sempre no céu”, disse à Reuters Siraj Mahmoud, um porta-voz da Defesa Civil de Ghouta, enquanto se ouvia em ruído de fundo o som de explosões.

Os residentes vivem em grandes dificuldades, com restrições alimentares, devido ao bloqueio das forças de Damasco. 
Em Dezembro, várias organizações humanitárias internacionais tinham alertado que as condições de vida nas zonas nas mãos da oposição tinham antigido “um ponto crítico”, devido à falta de combustível, alimentos e medicamentos.

O último pacote de ajuda humanitária chegou a menos de 3% da população de Ghouta, disseram as Nações Unidas na sexta-feira da semana passada. 
As tropas governamentais impediram os trabalhadores humanitários de descarregarem os camiões que transportavam água potável e cobertores para o Inverno. 
Porém, Damasco nega que tenha limitado a ajuda e fez grande publicidade sobre a ajuda que permitiu entrar.

Os moradores das povoações de Ghouta Ocidental não têm grandes possibilidades de se proteger dos bombardeamentos. 
“Só se podem abrigar em caves e bunkers subterrâneos com os seus filhos”, disse um dos coordenadores regionais para os Assuntos Humanitários da ONU, Panos Moumtizs, citado pela BBC. 

Para a Rússia, que fornece o poder de fogo de que Assad precisa para manter a pressão sobre Ghouta (tal como aconteceu no violento cerco final a Alepo), as preocupações da ONU e de outros actores internacionais são exageros. 
“Na ONU, o tema dos problemas humanitários em Ghouta Ocidental e Idlib [o outro enclave de resistência ao regime que ainda perdura, no Noroeste da Síria] está a ser alvo de uma propaganda muito activa”, escreveram alguns media russos citando o ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov.

clara.barata@publico.pt