quarta-feira, 11 de abril de 2018

Após ameaça de Trump, Putin responde apelando ao "bom senso"

MUNDO CONFLITO
Andrea Pinto       11-04-2018  - 17.19




















O presidente Vladimir Putin acaba de lançar um aviso ao Reino Unido e aos Estados Unidos referindo que o mundo está a tornar-se cada vez mais "caótico".

O presidente russo revelou as suas ""preocupações" relativamente às últimas 24 horas, período durante o qual Donald Trump ameaçou lançar um mísseis.

"O estado atual do mundo dá-nos apenas motivos para nos preocuparmos. 
A situação do mundo está a tornar-se caótico", disse Putin esta quarta-feira, noticia o Express.

O líder russo mostrou-se, contudo, esperançoso de que "o bom senso prevaleça e leve a um caminho construtivo" e que o mundo "se torne mais estável".

As declarações de Vladimir Putin surgem depois de homólogo norte-americano ter avisado, esta quarta-feira, a Rússia de que mísseis "vão começar a chegar".

"A Rússia prometeu destruir todos e quaisquer mísseis disparados contra a Síria. 
Prepara-te Rússia, porque eles vão começar a chegar, bons, novos e inteligentes!", escreveu Trump na rede social Twitter, depois de o embaixador russo no Líbano, Alexander Zasipkin, ter dito que quaisquer mísseis lançados por Washington contra a Síria serão abatidos pelas forças de Moscovo e que as plataformas de lançamento passarão a ser um alvo.

Ainda no Twitter, Trump disse hoje que as relações entre os Estados Unidos e a Rússia "estão piores do que nunca, incluindo durante a Guerra Fria".

“Não há um único euro de cativações no SNS”, diz ministro das Finanças

PARLAMENTO
Ana Maia
11 de Abril de 2018, 12:30 
Mário Centeno foi chamado pelo CDS e PSD, que apresentaram requerimentos para que o ministro das Finanças explique as restrições orçamentais na área da saúde.

O ministro das Finanças afirmou esta quinta-feira, numa comissão conjunta das finanças e da saúde, que “não há um único euro de cativações no SNS [Serviço Nacional de Saúde]”. 
Mário Centeno foi chamado pelo CDS e PSD, que apresentaram requerimentos para que o ministro das Finanças explicasse as restrições orçamentais na área da saúde.

A audição iniciou-se com as declarações da deputada do CDS Isabel Galriça Neto, que acusou o ministro de estar a fazer “cativações encapotadas” e a “impor um garrote” à saúde. 
“Quer reduzir o défice à custa do desinvestimento na saúde com consequências desastrosas. 
Há dívidas crescentes nos hospitais EPE [entidades de gestão empresarial], que comprometem o funcionamento do SNS e bem pode vir o ministério da Saúde anunciar injecções e a seguir o senhor congela as verbas, que mais não são do que cativações encapotadas”, afirmou a deputada

A situação da ala pediátrica do hospital de São João, denunciada esta quarta-feira por pais de crianças com cancro que contaram que os filhos recebiam tratamentos de quimioterapia em corredores, não foi esquecida.

“Não recebeu um país à beira da bancarrota, nem governa com a troika. 
A austeridade está bem patente e é o principal responsável por estas opções. 
Não pedimos que abandone as medidas de rigor orçamental, mas que faça bem as suas escolhas. 
Arrisca-se a ficar conhecido como o ministro que permitiu que crianças frágeis fossem tratadas de forma miserável”, rematou Galriça Neto.

Também o deputado do PSD Ricardo Baptista Leite focou a questão do hospital de São João e apontou o crescente das dívidas na saúde. 
“Chegamos a conclusão que Mário Centeno é o ministro da Saúde porque o ministro da Saúde remete tudo para as finanças. 
E para cortar tem uma boa mão e tem tido muita capacidade. Quando olhamos para o investimento na saúde face ao PIB nunca gastamos tão pouco nos últimos 20 anos”, disse.

Discursos que têm instigado a muita troca de palavras entre as bancadas dos vários partidos e que levaram Teresa Leal Coelho, que está a presidir a comissão, a ameaçar com a suspensão dos trabalhos.

Em resposta às muitas críticas, o ministro das finanças afirmou que “não há um único euro de cativações no SNS”. 
Mário Centeno acusou Ricardo Baptista Leite de desconhecer “totalmente a gestão financeira da saúde quando fala em cativações”. 
Disse que em três anos o Governo recuperou da “delapidação” provocada pelo anterior governo que levou a saúde a perder mil milhões de euros.

Afirmando que dívida é despesa, Mário Centeno afirmou que entre Março de 2015 e o mesmo período de 2018 entraram mais 8480 trabalhadores para o SNS e que foi feito um investimento de 900 milhões de euros, de um pacote de 1400 milhões, que permitiu pagar 98% dos pagamentos em atraso identificados para beneficiar desta medida. 
Os restantes 500 milhões que faltam serão aplicados durante o ano.

“Para cortar não são precisos grupos de trabalho”

Em relação à questão da ala pediátrica do hospital São João, Mário Centeno afirmou que o problema está identificado há uma década. 
“Em Março de 2015, o então primeiro-ministro foi lançar a primeira pedra do que hoje falta. 
Não havia planeamento financeiro, a pedra não levava dinheiro atrás”, disse.

Salientando que em Março de 2016, depois de uma visita do actual ministro da Saúde, foi criado um grupo de trabalho que permitiu replanear o projecto e que este faz parte de um conjunto de projectos já aprovados e que vão avançar.

De imediato as bancadas da oposição reagiram, dizendo “mais um grupo de trabalho”. 
A resposta de Mário Centeno foi imediata: “Para cortar não são precisos grupos de trabalho, basta dar uma ordem. 
Por isso, no final de 2015, o primeiro-ministro de então foi lá sem grupo de trabalho, sem projecto e sem dinheiro para a ala pediátrica do São João.”

amaia@público.pt

BE acusa Centeno de ir “orgulhosamente além das metas do défice”

PARLAMENTO
Ana Maria
11 de Abril de 2018, 13:00
Ministro das Finanças foi chamado por PSD e CDS, que apresentaram requerimentos para que explicasse as restrições orçamentais na área da saúde.

O BE acusou esta quinta-feira o ministro das Finanças de estar a ir “orgulhosamente além das metas do défice” e a prejudicar o Serviço Nacional da Saúde (SNS), numa comissão parlamentar conjunta das finanças e da saúde.  
Mário Centeno foi chamado por CDS e PSD, que apresentaram requerimentos para que o ministro das Finanças explique as restrições orçamentais na área da saúde.

“Na saúde está tudo longe de estar bem. 
Faltam profissionais, equipamentos, investimento. 
E o senhor ministro é um dos principais responsáveis, porque concentrou em si todas as decisões e tem no seu gabinete uma gaveta muito funda onde ficam estas pastas”, afirmou o bloquista Moisés Ferreira durante a audição.

O deputado do BE continuou dizendo que não basta comparar desempenhos de governo, que é preciso recuperar o SNS. 
“O ministro das Finanças vai também orgulhosamente além das metas do défice e está a trazer graves prejuízos ao SNS. 
Não vale a pena inventar problemas de gestão que não são estruturantes. 
O verdadeiro problema é a suborçamentação. 
Propusemos um plano plurianual para o SNS, proposta chumbada pelo PS e PSD.”

O deputado afirmou que o BE “quer que os 800 milhões de euros que estão disponíveis sejam investidos no SNS”. 
“Tem oportunidade de dizer de que de lado está: se de Bruxelas ou do SNS. 
Se está do lado do SNS irá investir o dinheiro no SNS”, disse Moisés Ferreira, que enumerou uma série de dificuldades pelas quais os hospitais estão a passar e que disse estarem na origem de aumentos de tempos de espera para consultas e cirurgias.

Mário Centeno disse que os casos referidos “não são matéria do Ministério das Finanças, são matéria de escolhas de prioridades e de alocação de um orçamento que não é infinito”. 
“Não é um problema deste ministério nem de Portugal. 
As escolhas têm de ser feitas. 
Gostava que olhassem para os números que já referi”, afirmou o ministro, referindo-se às contratações feitas pelo SNS e o dinheiro para pagar dívidas em atraso.

Já Carla Cruz, deputada do PCP, afirmou que “o país não pode aceitar que crianças com doenças oncológicas sejam tratadas em corredores e internadas em contentores, que as chamadas do INEM se agravem de ano para ano”.

Mário Centeno afirmou que “a redução do défice não foi feita à custa da despesa da saúde, que subiu 700 milhões de euros em três anos”. 
O ministro lembrou que o actual governo concluiu a negociação colectiva com farmacêuticos e técnicos de diagnóstico e terapêutica, “que estavam iniciados há décadas”, e que está a negociar com médicos e enfermeiros.

“Temos de acelerar o ciclo de investimento e foi o que fizemos em 2017. 
Temos compromissos assumidos no valor de 140 milhões de euros e estamos a concluir outro pacote de projectos que vai elevar o valor, este ano, para próximo de 150 milhões”, rematou o ministro.

amaia@público.pt

terça-feira, 10 de abril de 2018

Sete iranianos mortos em ataque atribuído a Israel na Síria

MÉDIO ORIENTE
Maria João Guimarães
9 de Abril de 2018, 20:39 
Israel não confirma nem desmente ataque. EUA terão sido informados.

O timing do ataque, poucas horas depois de um tweet do Presidente americano, Donald Trump, na sequência de mais um ataque com armas químicas na Síria, fez com que o dedo fosse apontado a Washington. 
Mas esta segunda-feira, Damasco e Moscovo culparam Israel pelo disparo de mísseis contra uma instalação militar síria, usada também por forças iranianas e russas, que fez 14 mortos de várias nacionalidades, sete deles iranianos.

Israel não confirmou nem desmentiu a autoria do ataque de segunda-feira à chamada base T-4, que já em Fevereiro tinha sido alvo da sua aviação. 
Mas o Estado hebraico tem repetido que não admitirá que o Irão, ou a milícia xiita libanesa Hezbollah apoiada pela República Islâmica, ganhe espaço suficiente na Síria para aumentar a sua capacidade para atacar Israel a partir do Líbano ou da Síria.

O presumível ataque israelita nasce de dois movimentos em rota de colisão: a determinação iraniana em se estabelecer firmemente na Síria e a determinação israelita em impedir que isso aconteça, reagiu Amos Yadlin, director executivo do Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Telavive, no Twitter. 
No diário Ha’aretz, Amos Harel não tem dúvidas: “Israel está agora a confrontar directamente o Irão”.

Segundo fontes americanas citadas sob anonimato, Israel informou previamente os Estados Unidos do ataque. 
Já Moscovo queixou-se de um “desenvolvimento muito perigoso”, nas palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, lembrando que poderia haver militares russos no local. 
“Espero que pelo menos o exército americano e aqueles a participar na coligação liderada pelos Estados Unidos percebam isso.”

Este foi o último incidente reportado desde que, em Fevereiro, Israel disse ter interceptado um drone iraniano que teria sido lançado precisamente da base T-4, perto de Homs, atacando a base e perdendo um avião na resposta das defesas anti-aéreas sírias.

Essa foi a primeira vez que Israel atingiu uma base militar: o seu exército tem atacado alvos na Síria – cerca de cem raides desde 2012, sobretudo colunas de veículos levando armas para o Hezbollah, com quem Israel esteve em guerra em 2006. 
Como disse o ministro israelita da Defesa, Avigdor Lieberman, numa entrevista ao diário Yediot Ahronot, “uma grande parte da actividade do Exército israelita não aparece nos jornais, e ainda bem – só não é correcto dizer que não agimos”.

Se este ataque israelita foi mais um aviso ou será o novo normal na guerra da Síria é a grande pergunta – as previsões são desde ataques mais frequentes a um momento em que algo contribua para um novo conflito em maior escala. 
“Não se pode excluir respostas sírias ou iranianas”, escreveu Yadlin no Twitter. 
Já há meses que há relatos de uma aproximação das forças da fronteira com os Montes Golã, território sírio ocupado por Israel.

“Temos linhas vermelhas”, reagiu o ministro da Habitação, Yoav Galant, sem confirmar a autoria do ataque. 
“Não deixaremos que a Síria se torne uma rampa de lançamento para armas que mudem a situação no Líbano, não permitiremos que haja um exército iraniano na Síria e não permitiremos a abertura de uma frente nos Montes Golã”.

A outra grande questão é o que fará a Rússia que, até agora, não tem interferido nas acções militares israelitas. 
Na sua reacção ao ataque, Moscovo pareceu avisar sobretudo os EUA – com Trump a prometer uma resposta ao ataque químico, depois de pouco antes ter anunciado uma diminuição do papel dos EUA e uma progressiva retirada das suas tropas da Síria. 

A acção israelita também acontece por uma profunda desconfiança em relação ao seu próximo aliado americano: embora as relações entre as lideranças estejam num ponto óptimo com Netanyahu e Trump, Israel teme o caos no Departamento de Estado e da Defesa.

Yossi Mekelberg, responsável do departamento de Relações Internacionais da Universidade Regent’s em Londres, comentou à televisão americana NBC que Israel preferiria não agir na Síria. 
“Mas os iranianos estão a aproximar-se muito.”  

maria.joao.guimaraes@público.pt

Rússia alerta para “graves consequências” em caso de ataques ocidentais

A GUERRA NA SÍRIA
Lusa
10 de Abril de 2018, 0:47 
Vassily Nebenzia, embaixador russo na ONU
“Pedimos aos ocidentais que desistam da retórica de guerra”, disse o embaixador russo na ONU.

A Rússia advertiu nesta segunda-feira para “graves consequências” em caso de ataques aéreos ocidentais na Síria, depois de um alegado ataque químico em Douma, que matou pelo menos 40 pessoas, cuja existência Moscovo nega.

“Pedimos aos ocidentais que desistam da retórica de guerra”, disse Vassily Nebenzia, embaixador russo, no início da reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas para abordar o ataque em Douma.

Vassily Nebenzia referiu que “não existiu ataque químico” em Douma no sábado, falando sobre “falta de provas”.

Segundo a organização não-governamental “Capacetes Brancos”, dedicada ao resgate de vítimas das zonas sob controlo dos rebeldes, o alegado ataque químico contra Douma, o último bastião rebelde em Ghouta oriental, nos arredores de Damasco, foi conduzido pelas forças do regime do Presidente Bashar al-Assad, que é um aliado próximo da Rússia.

O ataque matou pelo menos 40 pessoas, entre as quais várias crianças, e afectou outras centenas em Douma.

A Síria culpou, entretanto, Israel por um ataque com mísseis contra uma base aérea de Homs (centro), que matou 14 pessoas, incluindo três iranianos.

O ataque contra Douma ocorreu dias depois de Trump ter reiterado a sua disposição para deixar a Síria.

A Síria, que entrou no oitavo ano de guerra, vive um drama humanitário perante um conflito que já fez pelo menos 511 mil mortos, incluindo 350 mil civis, e milhões de deslocados e refugiados.

Desencadeado em Março de 2011 pela violenta repressão do regime de Bashar al-Assad de manifestações pacíficas, o conflito na Síria ganhou ao longo dos anos uma enorme complexidade, com o envolvimento de países estrangeiros e de grupos jihadistas, e várias frentes de combate.

sexta-feira, 23 de março de 2018

O que é o putinismo e para onde é que ele nos leva?

CONVERSAS À QUINTA
José Manuel Fernandes
22/3/2018, 20:22

Putin foi de novo eleito Presidente da Rússia, consolidando um regime centrado no culto do homem forte e que desdenha as regras das democracias liberais. 
Um regime com muitos inesperados admiradores.


Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto debatem as características do regime russo e procuram perceber o que significa este quarto mandato presidencial para Vladimir Putin para a Europa e para uns Estados Unidos liderados por Donald Trump.


quinta-feira, 22 de março de 2018

Ernestina e “os lutos inacabados do império”

GUERRA COLONIAL
Catarina Gomes
24 de Dezembro de 2017, 8:45

Durante os primeiros seis anos da guerra colonial, o Estado só pagava o regresso de militares vivos. 
Permanecem até hoje enterrados em África cerca de 1500 corpos. 
Muitas famílias já os esqueceram, algumas ainda não. 
A arqueóloga Conceição Vitoriano Maia foi à Guiné desenterrar o irmão. Otília Gonçalves só quer trazer “o mano” de Angola.

“Pedia a V.ª Ex.ª, pela sua saúde, já que não tive a sorte de trazerem o meu filho vivo, peço-lhe que mo mandem mesmo morto. 
Para eu o adorar e rezar ao pé daquele bom querido filho. 
Peço imensa desculpa a V.ª Ex.ª destas minhas tristes palavras, mas a dor é tão grande que não sei onde hei-de respirar. 
O nome do meu filho é Francisco da Luz Carloto.”

Sem querer, a carta de uma camponesa alentejana que não sabia escrever ajudou a mudar um pormenor da história.

Maria Florinda da Luz tinha sido informada por telegrama que o filho tinha morrido na guerra em Moçambique a 19 de Janeiro de 1967. 
Se o quisesse trazer, teria de pagar 12 mil escudos, o que equivaleria, aos preços de hoje (de acordo com o conversor da Pordata), a cerca de 4 mil euros. 
Era impossível, mas a mãe do soldado sentiu que, à sua maneira, tinha de fazer alguma coisa.

“A minha sogra era uma mulher sem estudos, mas bem resolvida”, lembra ao P2 a nora, Brígida Leitão. 
Partiu dela a ideia de ir ter com quem sabia, “o senhor presidente da junta”: “Ela a chorar disse-lhe tudo o que sentia, o que tinha no coração” e ele lá organizou e arrumou as frases à sua maneira, que assim seguiram, em tom submisso, para o ministro da Defesa, uma ousadia nos tempos que corriam.

Quem queria trazer os seus tinha de pagar e quanto mais longe morria o militar mais caro: trazer um corpo de Moçambique era o mais caro; da Guiné, por ser mais próximo, ficava um pouco mais barato, 7500 escudos (cerca de 2500 euros), lembra o livro de Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, Os Anos da Guerra Colonial 1961.1975 (QuidNovi), que cita a carta da mãe e explica as suas repercussões

“A transladação era incomportável para a maioria das famílias, era uma sociedade ruralizada, com hierarquias, com uma desigualdade mais nítida e aceite do que é hoje”, explica Carlos Matos Gomes. 
O que, na prática, acontecia é que eram as famílias dos oficiais quem mais meios tinha para pagar pelo regresso dos seus mortos. 
“A transladação era para uma elite social”, constata o autor e coronel na reserva.

A grande maioria dos mais de cerca 1500 militares portugueses (de acordo com o levantamento mais recente feito pela Liga dos Combatentes) que permanecem até hoje enterrados em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique “são soldados e cabos, há alguns sargentos e muito, muito poucos oficiais”, constata Carlos Matos Gomes.

A não vinda dos corpos era uma das formas que assumia a pouca visibilidade da morte na guerra. 
Carlos Matos Gomes lembra, por exemplo, que, se morriam vários homens numa operação, os jornais tinham instruções para diluírem as mortes por vários dias, em pequenas notícias a uma coluna, de um a dois mortos de cada vez, publicadas em páginas interiores. 
Além disso, nota, os mortos que chegavam vinham em navios de transporte dentro de vulgares caixotes de madeira e as urnas eram desembarcadas longe da vista e desencaixotadas no depósito de adidos da Ajuda. 
Mesmo os feridos chegavam durante a noite.

A política de transladações permaneceu inalterada e sem grande polémica até à tal carta vinda da aldeia alentejana do concelho de Nisa, Tolosa. 
Brígida Leitão sabia da carta, mas desconhecia que o Estado tinha passado a assegurar as transladações depois da iniciativa da sogra. 
O que sabem é que Francisco da Luz Carloto veio de Moçambique e está enterrado no cemitério de Tolosa.

Foi pouco depois da carta, em Março de 1967, que as Forças Armadas passaram a assegurar os custos da transladação dos corpos de África, mas a família tinha, à mesma, algumas despesas, por exemplo, pagar o caixão de chumbo e o transporte do hospital militar até ao cemitério da terra natal.

Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes constatam na sua obra que, das 2238 baixas ocorridas entre 1961 e 1966, na altura, só foram trazidos para Portugal 326 corpos, o que representava apenas cerca de 15% do total de mortos desse período. 
Era visível que os custos eram o grande obstáculo porque de Moçambique, onde a despesa era maior, só vieram 5,5% dos corpos, de Angola 12,9% e da Guiné, por ser um pouco menos oneroso, um pouco mais, 27,2%.

“Mãe, o pai voltou para casa”

Ernestina da Silva — que só este mês, 54 anos depois da morte do pai em Angola, em 1963, conseguiu transladá-lo para Portugal — não sabe se, na altura, foi sequer dada a possibilidade à mãe de pagar os 10 mil escudos que eram exigidos à família, o que equivaleria a cerca de 4000 euros aos preços de hoje. 
Teria sido indiferente. 
Era impossível angariar essa quantia. 
A mãe vivia da agricultura, plantava batatas, tomates, faziam azeite e vinho. 
Teve aliás de emigrar para a Alemanha, deixando a filha com oito anos a ser criada pelos avós. 
Os pais do soldado morto também pouco podiam fazer, eram agricultores, nove filhos. Nunca houve campa.

Ainda devolveram à família a aliança e o mostrador do relógio Sigma que o soldado António Lopes da Silva usava quando foi morto, “que veio cheio de sangue”, e que Ernestina conserva até hoje dentro de uma caixinha de veludo. 
Nunca ninguém da sua família se lembrou de reclamar, nem saberiam como o fazer. 
Era assim. 
Aceitava-se.

E não era só a impossibilidade de trazer o corpo. 
À família nada foi dito sobre como tinha ocorrido a morte. 
Ernestina Silva sabia o dia em que o pai tinha morrido, 3 de Outubro de 1963, que tinha morrido em combate. 
Mais nada.

E esse não saber era “um nó” dentro de Ernestina, mesmo com 56 anos. 
Emigrada nos Estados Unidos, tornou o Facebook a sua ferramenta de busca, fez-se amiga de todos os que a pudessem ajudar, sobretudo pára-quedistas, como o pai era, e todas as semanas, ritualmente, ia “bisbilhotar” às suas páginas. 
“Encontrei o meu pai”, disse à filha um dia, que não acreditou, “tu és doida”. 
Pediu logo o contacto ao sargento pára-quedista, Isidro Moreira Esteves, que tinha posto na sua página daquela rede social uma fotografia de homenagem ao soldado António Lopes da Silva e que aceitou atender o telefone àquela desconhecida já madrugada dentro. Estava tão feliz que nem deve ter pensado na diferença horária, lembra o sargento na reserva. 
“Chorou, chorou uns bons minutos” e Isidro deixou-a chorar.

Isidro Esteves não tinha só posto a fotografia do pai de Ernestina, como faz com muitos outros pára-quedistas, ele tinha-o visto morrer cinco metros à sua frente. 
Na aldeia de onde António Lopes da Silva era natural, Lobão da Beira (concelho de Tondela), circulou a certa altura o rumor de que o soldado não tinha morrido em combate, que tinha sido morto numa briga com um colega militar, conta Ernestina. 
Agora, aquele sargento na reserva vinha contar-lhe que o pai se voluntariou nesse dia, estava de folga, e que era o homem que seguia à frente da coluna com o seu cão de guerra, que não teve tempo para cheirar o inimigo que o matou com um tiro nas costas, à entrada de uma pequena clareira com capim. 
Tinha feito 22 anos dias antes. 
“Durante todo o tempo, o seu cão esteve sempre ao lado, sentado nas patas traseiras, recusando afastar-se do tratador, e sempre a uivar”, contou o major José Calheiros na cerimónia fúnebre de 6 de Dezembro. 
Durante todos estes anos, tinha estado enterrado num cemitério de Luanda, com o seu nome perfeitamente identificado.

Ter o pai num sítio onde pode Ernestina ir visitá-lo e saber como foi a sua morte, limpa de rumores, ajudaram a produzir dentro dela uma “paz incrível”, uma mistura “de alívio e alegria”. 
No funeral, “foi como se ele me estivesse a dizer ‘obrigado, estou aqui’”. 
Na lápide em granito, que ainda está por fazer, vai colocar as suas datas de nascimento, de morte e de “regresso a casa”.

“Mãe, o pai voltou para casa.” 
A filha disse-lhe a frase ao ouvido, como se sussurrada a essa proximidade a mensagem tivesse mais possibilidade de lhe chegar ao cérebro. 
Claro que a mãe não reagiu, só abre e fecha os olhos, está em coma há três anos, mas era a pessoa para quem aquela mensagem, aquele funeral fora de tempo, mais teria tido importância. 
Ficou viúva aos 22 anos, sozinha a criar uma menina de dois anos que era Ernestina. 
Foi, por isso, a primeira pessoa a quem foi contar, mesmo sabendo que “a mãe já não está cá”.


O esqueleto E

Mas o problema dos militares mortos que ficaram em África não teve só que ver com os custos. 
Muitos militares não foram transladados para Portugal porque permanecem até hoje em lugar incerto (200) ou continuam desaparecidos (267), informa o presidente da Liga dos Combatentes, o general Chito Rodrigues. 
Estes casos incluem, por exemplo, militares enterrados em situação de combate no local da morte, afogamentos, corpos enterrados em cemitérios improvisados das próprias unidades, que se encontram dispersos pelos territórios em lugares que hoje são mato e capim.

O irmão de Conceição Vitoriano Maia foi, até dada altura, um desses corpos sem paradeiro. Morto a 23 de Maio de 1973 (quando o Estado já custeava a transladação), a notícia que lhes chegou a casa já não veio por telegrama. 
“Não era normal ter a GNR à porta, eram dois, vinham a pé…” 
Tinha dez anos, não ouviu o que disseram à mãe. 
“Não precisei.” 
Quando saíram, a mãe chorava. 
O filho tinha “desaparecido em combate”. 
É pior do que “morto em combate”, afirma. 
Embora a mãe sentisse durante longos anos a necessidade de repetir, mesmo a desconhecidos, “eu tinha um filho, morreu na Guiné”, manteve durante muitos anos a esperança no regresso do filho: “Ele ia chegar um dia. 
Sempre que batiam à porta fora de horas…” 
Mas era um problema sem solução e os anos passaram.

Até que um sargento pára-quedista, Manuel Rebocho, descobriu em 2006 que tinha havido três soldados pára-quedistas que tinham ficado enterrados no mato em Guidaje (Guiné-Bissau) e que nunca ninguém tinha voltado para ir buscar, embora a divisa dos pára-quedistas fosse precisamente “Ninguém fica para trás”. 
Inconformado, começou a contactar entidades e famílias. 
Conceição Vitoriano Maia já estava pacificada em relação ao assunto do irmão, não havia corpo mas a sua morte era incontroversa. 
O sargento veio informá-la de que existia um mapa da altura desenhado pelos militares da unidade com a localização das sepulturas. 
E Conceição sentiu que, sabendo-se onde estava, não podia deixá-lo lá. 
Começou tudo em 2006, as cartas, os requerimentos, os pedidos de reuniões, à qual se juntou a Associação de Pára-Quedistas.

Conceição Vitoriano Maia diz que, no início, o que encontrou junto de entidades oficiais militares foi obstáculos. 
Respondiam-lhe que era um assunto encerrado, que era demasiado tarde. 
Face às resistências, decidiu então que, em vez de ser uma operação militar, organizaria ela própria uma missão civil para trazer o corpo do irmão e dos dois outros pára-quedistas que estavam no mesmo local. 
Ela era arqueóloga, mais habituada a escavações do período romano, é certo, mas estava disposta a fazer este trabalho.

O presidente da Liga dos Combatentes afirma que uma missão deste tipo estava a ser planeada há dois anos e que a liga acabou por aceitar incorporar na equipa da primeira missão a União de Pára-Quedistas.

Certo é que a ida à Guiné decorreu em Março de 2008 e acabou por ser o início da chamada Operação Conservação de Memórias, levada a cabo pela liga com o objectivo de “dignificar” os restos mortais de militares dispersos por vários locais e transferi-los para cemitérios centrais. 
O objectivo nunca foi assegurar a transladação para Portugal mas, localizados os militares, podiam ajudar as famílias que o quisessem fazer, explica Chito Rodrigues. 
A Liga dos Combatentes tem um protocolo com a TAP que assegura gratuitamente às famílias a viagem do cemitério da capital do país africano para Lisboa, mas as restantes despesas são a cargo da família, e ainda podem ser bastantes.

“Nós não percebemos porque é que essas pessoas não foram todas trazidas”, afirma o responsável, mas lembra que “a liga não substitui o Estado, actuamos onde o Estado não actua, como complemento, nos mortos e nos vivos”.

Conceição Vitoriano Maia lembra esses dias da missão na Guiné como de grande intensidade emocional. 
À noite, depois dos dias em escavações, conseguia dormir só com ajuda de calmantes. “Como é que alguém consegue ser duas: a arqueóloga e a irmã? 
Foi muito difícil de gerir.” 
Tinha como função destapar a área onde supostamente tinham sido enterrados vários militares, um deles o seu irmão, para depois deixar as colegas antropólogas trabalharem na identificação das ossadas. 
Como arqueóloga, está mais do que habituada a destapar esqueletos, são objectos arqueológicos como quaisquer outros, “como pedras”, mas aqui sabia que num daqueles rectângulos de terra mais clara jazia o irmão. 
Encontraram muitos objectos por aqueles dias, um cachimbo, garrafas de cerveja, pentes, pulseiras, anéis, objectos religiosos. 
E um pequenino coração de pedra cor-de-rosa para usar num fio. 
Pertencia ao esqueleto E, a letra correspondente à sua ordem de aparecimento.

O esqueleto E era António Vitoriano, morto aos 21 anos, o seu irmão. 
O pequeno pendente pertencia-lhe mas nem ela nem a mãe lhe conheciam o objecto. 
Não foi por causa dele que o identificaram. 
Cada ossada é uma história. 
A de António Vitoriano estava na clavícula. 
Quando o irmão tinha oito anos tinha caído de bicicleta e partido esse osso e lá estava ele, remendado. 
“Nem sei como é que fui capaz emocionalmente. 
Foi muito pesado.”

A Operação Conservação de Memórias haveria de ir mais quatro vezes à Guiné e sete a Moçambique. 
Em Angola, vários problemas burocráticos impediram, até agora, a realização de uma operação, refere Chito Rodrigues. 
Recuperaram 43 corpos na Guiné e outros 73 corpos em Moçambique, que estão em dois ossários, um em Bissau e outro em Nampula. 
Desde 2008, apenas 13 famílias decidiram pagar pela vinda dos corpos: nove da Guiné, dois de Moçambique e dois de Angola, constata o responsável da Liga dos Combatentes.

Chito Rodrigues diz que há várias razões para terem sido tão poucas famílias a pedir a transladação. 
Uma delas podem ser os custos envolvidos, depois, quase 99% dos militares não tinham filhos, os familiares que ficam são irmãos, sobrinhos ou familiares mais distantes e, claro, há o tempo, já passaram 40, 50 anos sobre estas mortes.

A seguir ao funeral do irmão, a mãe de Conceição Vitoriano Maia, que tinha parado de falar do filho, voltou a falar dele uns tempos e depois calou-se. 
“Ficou guardadinho lá na gaveta.” 
Finalmente arrumado.

Para Conceição Vitoriano, “há imensas famílias com isso por resolver, a prova é essa senhora”. 
Fala de Ernestina Silva, cujo caso conheceu pela televisão.
















“Obrigação moral do Estado”

O historiador Miguel Bandeira Jerónimo, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, diz que esta recente transladação de um pai “ajuda-nos a perceber o que foi o império colonial português a perceber o que foi a natureza do regime, escassez de informação, o desrespeito que o regime tinha pela vida humana”. 
“São legados que não terminaram de todo.” 
“Há um ser humano, há uma família, há uma filha que não conheceu o pai.”

“A transladação é uma questão do foro privado, mas o Estado devia assegurá-las, se as famílias o desejarem. 
Devia ter sido feito pelo regime que conduziu a esta situação, mas esta, entre as muitas coisas que a democracia portuguesa tem para fazer, é uma obrigação moral do Estado democrático em relação ao seu passado.” 
“O grande problema é enterrar esta questão” e deixar que seja enredada “em discursos nacionalistas”.

“Estes são retornos por fazer. 
Há uma família que tem o direito a este reencontro.” 
“Foi uma guerra de classes, por que é que deve continuar a assentar em desigualdade social?” 
A transladação do pai de Ernestina de Angola custou 7500 euros, a filha avançou com 2500, o restante foi angariado pelos pára-quedistas. 
O historiador chama a estes casos “os lutos inacabados do império”.

“Eu revi-me na pele da Tina. 
Tenho muito orgulho de ela ter conseguido.” 
Otília Gonçalves, 54 anos, conheceu pela Internet a filha que trouxe o pai de Angola, foi de propósito de Braga a Lobão da Beira para o funeral. 
Anda há cerca de dez anos a tentar trazer “o mano” de Angola. 
O irmão, o mais velho de 11 filhos, morreu no início da guerra, a 15 de Outubro de 1961, junto a uma fazenda chamada “Tentativa”. 
Embora nunca o tenha conhecido sem ser de foto, a presença da sua ausência marcou-lhe a infância na aldeia de Ponte de São Vicente, distrito de Braga. 
“Eu, pequenina, ia dar com a minha mãe a chorar sentada no chão, atrás do milho. 
‘Sai daqui’”, ordenava à filha. 
Não queria que a sua dor fosse vista. 
Foi assim durante anos. 
No Verão, na altura de arejarem as roupas, do fundo de uma arca de madeira saía também o livro da primária “do mano”. 
É a única dos irmãos que não desiste. 
“Os meus irmãos acham que já não há nada para trazer.” 
Para Otília, há algo inacabado. 
Só receberam um telegrama a dizer que tinha morrido de acidente, perto de Nambuangongo, “muito simples e frio, ponto final. 
Se quisessem o filho, tinham de pagar. 
Era impossível. 
Tinham de vender a casa e as terras, claro que não dava”. 
Chamava-se Aquilino da Silva Gonçalves, era segundo cabo do Exército, ia fazer 21 anos.

Escreveu cartas e emails ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, “a todos os órgãos”. 
“‘Acusamos a recepção, com os melhores cumprimentos.’ 
Mais nada. 
Tenho tudo arquivado.” 
“Quero trazer o meu irmão, quero que os meus pais descansem.” 
“Há muita gente que já não tem família mas há muita gente que ainda os quer trazer. 
Eu preciso.”

Este artigo encontra-se publicado no P2, caderno de domingo do PÚBLICO