terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Terminou a batalha de Aleppo, uma ofensiva agonizante

ANA FONSECA PEREIRA e MARIA JOÃO GUIMARÃES
13 de Dezembro de 2016, 17:23 actualizada às 17:53


Rebeldes aceitam retirar da cidade. 

Retirada deverá incluir também os civis e poderá começar "nas próximas horas".

Numa área cada vez mais reduzida, com bombardeamentos a matar cada vez mais, e depois de execuções sumárias nas ruas, os rebeldes que lutavam ainda na parte Leste da cidade síria de Alepo aceitaram um acordo com o regime de Bashar al-Assad, dando ao regime a maior vitória numa guerra que desde 2011 deixou mais de 300 mil mortos e metade da população do país deslocada.

O acordo prevê a retirada das cerca de 50 mil pessoas, civis e combatentes, que continuam em Alepo – que incluem grupos rebeldes apoiados pelos EUA, Turquia e monarquias do Golfo e alguns jihadistas que estes não apoiam – para outras zonas da Síria que não são controladas pelo regime, apoiado pela Rússia e pelo Irão.

Há vários dias que a Rússia e os EUA discutiam condições para a retirada dos rebeldes da cidade, mas entre a confusão dos combates, a troca de acusações e a falta de confiança mútua todas as tentativas tinham saído goradas.

Mas apesar das garantias de que nada aconteceria aos rendidos, as preocupações mantinham-se. 
Primeiro, pelo que lhes poderia ainda acontecer às mãos dos vencedores. 
Todos os que de algum modo poderiam ser associados à oposição tinham tido medo de sair: eram as famílias dos combatentes, os activistas, os médicos, os jornalistas, mas também os homens em idade de combater – centenas foram recrutados pelo Exército. 
“Não posso partir porque como trabalho na área da saúde sou, aos olhos do regime, uma terrorista”, disse ao jornal Guardian uma enfermeira que viu morrer nos bombardeamentos dos últimos dias o pai e um irmão. 
“Mas também não posso perdoar. 
É melhor que Deus me mate do que ter de viver na humilhação de viver sob aqueles que mataram a maior parte da minha família e dos meus vizinhos.”

Um receio a que as Nações Unidas dão crédito, dizendo ter recebido informações de execuções de dezenas de civis nos bairros conquistados à oposição. 
“As pessoas estão a ser mortas na rua quando tentam fugir e a ser mortas nas suas casas”, denunciou Rupert Colville, porta-voz do Alto Comissariado para os Direitos Humanos, explicando que foram recolhidos indícios concretos da morte de pelo menos 82 civis nos últimos dois dias, entre eles 11 mulheres e 13 crianças. 
Esses são aqueles sobre quem há informação. 
“Podem ser muitos mais.” 
Entre os responsáveis, Colville apontou o grupo Harakat al-Nujuba, uma milícia xiita iraquiana que combate ao lado do Exército de Assad.

Já antes, Jan Egeland, conselheiro humanitário da ONU, tinha acusado os aliados do regime de “massacrar civis desarmados, homens, mulheres, crianças, trabalhadores humanitários”, avisando Damasco e Moscovo que “serão responsáveis” pelas atrocidades cometidas nos territórios que controlam. 
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, acusou Egeland de não saber o que se passa realmente no terreno. 
“Se soubesse, olharia para as atrocidades que estão a ser cometidas pelos grupos terroristas.”

Mas os receios não têm apenas a ver com a vingança dos vencedores. 
Têm também a ver com a alternativa que foi dada aos combatentes e civis: a Rússia diz que a escolha do local para onde ir será das próprias pessoas, mas o mais provável, diz o diário britânico Guardian, é que estas sejam encaminhadas para a província de Idlib, território dos islamistas da antiga Frente al-Nusra, o grupo com ligações à rede terrorista Al-Qaeda. 
Os deslocados de Alepo vão assim não só viver sob um grupo islamista, como continuar a ser alvo de bombardeamentos da aviação russa.

O final do apertar do cerco

O dia de terça-feira foi o final de uma tensão agonizante em que a zona controlada pelos rebeldes se foi estreitando, de tal modo que os bombardeamentos eram cada vez mais eficazes por atingirem zonas com maior concentração de pessoas.

Daqueles três quilómetros quadrados de miséria que restaram chegavam relatos desesperados, frases de gente que, entre o terror da morte e o medo da captura, se despedia do mundo – o mundo que, cansado por cinco anos de guerra, esboça apenas reacções indignadas. 
Impotentes, as Nações Unidas, a Cruz Vermelha, a UNICEF pediam ainda que se salvasse a vida dos milhares que estavam encurralados pelos combates, que tiveram medo de fugir ou simplesmente não tiveram como o fazer. 
Jens Laerke, porta-voz do gabinete de coordenação humanitária da ONU foi categórico: as horas finais do cerco aos rebeldes no Leste de Alepo assemelharam-se “ao colapso total da humanidade”.

Eram apenas alguns bairros e umas quantas ruas que separavam nesta terça-feira o regime de Bashar al-Assad de um triunfo estratégico e simbólico que começou a tornar-se inevitável quando, em Julho, o Exército cercou toda a metade Leste da cidade, desde 2012 em poder da oposição.

A vitória podia ser declarada “a qualquer momento”, disse um porta-voz militar sírio à Reuters numa ronda pelos bairros capturados na véspera, quando as defesas dos rebeldes ruíram e perderam em poucas horas o território que ainda detinham.

Uma inevitabilidade que também se tinha anunciado do outro lado da linha de combates. 
“Estamos aterrorizados. 
Já só sobram cinco bairros e o regime está a pensar invadir o que resta e prender-nos a todos”, disse ao Guardian um jornalista de Alepo que passou os últimos anos a documentar a morte de civis na cidade e que, por isso, teme agora fugir para as zonas controladas pelo Exército.

Enquanto isso, no Oeste de Alepo, grupos de pessoas saíram à rua na noite anterior para festejar a anunciada vitória de Assad (os rockets dos rebeldes mataram 130 pessoas naquela parte da cidade no último mês).

Mas a vitória de Alepo está longe de ser o final da guerra. 
“O esmagar de Alepo, o efeito aterrorizador, o derramamento de sangue de homens, mulheres e crianças, toda a destruição – e não estamos nem perto de resolver este conflito”, disse o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos Zeid Ra’ad al-Hussein.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Porque é Alepo tão importante para Assad?

OPINIÃO
VÍTOR RAMON FERNANDES
7 de Dezembro de 2016, 11:07

É uma cidade absolutamente estratégica para que o regime sírio se mantenha como um elemento incontornável para uma futura estabilização da região.

O conflito iniciou-se em julho de 2012, há mais de quatro anos, e se algo tem acontecido desde o seu início é uma intensificação das hostilidades. 
Alepo tornou-se o epicentro do conflito na Síria. 
O conflito envolve, de um lado, a oposição síria ao regime do presidente Bashar al-Assad e, do outro, o próprio regime sírio. 
Do lado da oposição estão milícias rebeldes, designadamente, o Exército Livre Sírio, mas também outros grupos jihadistas, tais como a Fatah al-Sham (anteriormente Jabhat al-Nosra), que tem estado ligada, pelo menos até recentemente, à Al-Qaeda. 
Do lado do regime sírio estão também forças de apoio russas e alguns militantes xiitas do Hezbollah, que têm o apoio do Irão.

Se houve ocasiões em que se tentou negociar e inclusive estabelecer um cessar-fogo, como foi o caso recentemente em Genebra, presentemente tudo aponta apenas para violência e destruição até à conquista final da cidade pelo regime sírio. 
Estima-se que em Alepo, a maior cidade na Síria, com uma população originalmente de cerca de dois milhões e meio de habitantes, estejam pouco mais de dez mil combatentes rebeldes enquanto à volta estão um pouco mais de quarenta mil combatentes do regime sírio. 
É difícil imaginar como o conflito dura há tanto tempo tendo em consideração a desproporção das forças envolvidas. 
Mas a guerra urbana é sempre muito difícil para as tropas convencionais, o que explica também a razão porque as forças de Assad têm optado crescentemente por bombardeamentos massivos, com apoio russo e originando inúmeras perdas, particularmente civis inocentes. 
Muito recentemente, a Rússia propôs a abertura de quatro corredores humanitários para permitir a evacuação de população civil e o regime sírio decidiu enviar centenas de tropas especiais para a zona este de Alepo, o que pode sinalizar também uma, ainda maior, intensificação dos bombardeamentos e da ofensiva. 
E no início desta semana, a Rússia e a China vetaram uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que determinava um cessar fogo de sete dias em Alepo.

A probabilidade de Assad ceder Alepo é praticamente inexistente. 
Alepo é uma cidade absolutamente estratégica para o presidente sírio, caso ele pretenda, como é manifestamente o caso, manter-se no poder e continuar a ser um elemento incontornável em negociações que venham a ocorrer. 
Alepo está no centro de uma região no noroeste da Síria que ainda é controlada pelo regime sírio. 
No entanto, essa zona está rodeada do lado este pelo auto-proclamado Estado Islâmico e, do lado oeste, por uma região controlada pelas forças rebeldes. 
A batalha ocorre na cidade propriamente dita, particularmente na parte este. 
Se Assad cedesse Alepo acabaria por perder a curto prazo uma zona muito maior do que a cidade e uma parte importante da Síria, enfraquecendo significativamente a sua posição.

A seu tempo, quando ocorrerem negociações para a estabilização da Síria, que serão indispensáveis e onde estarão envolvidos todos os Estados vizinhos da região, sem excluir a Rússia e os EUA, Bashar al-Assad quererá demonstrar que, no meio de todas as forças envolvidas na Síria, é ele que pela sua natureza, poder e legitimidade merece mais confiança e tem verdadeiramente a capacidade para atingir a pacificação e a estabilização da Síria com vista a obter uma paz duradoura na região. 
Alepo é determinante para esse efeito.

Professor universitário

sábado, 10 de dezembro de 2016

Mais de uma centena de feridos retirados de zona de combates em Alepo

PÚBLICO
8 de Dezembro de 2016, 10:06

Forças governamentais prosseguem ofensiva para tomar o que resta dos bairros em poder dos rebeldes.
Os doentes foram retirados de um hospital situado junto
à linha da frente na Cidade Velha de Alepo
Cerca de 150 civis, a maioria deles incapacitados ou a necessitar de tratamento médico, foram retirados na última noite de um hospital na Cidade Velha de Alepo, um dos sectores tomados pelas forças pró-governamentais sírias na ofensiva em curso contra a rebelião na cidade.

“Estes doentes e os restantes civis estavam há vários dias encurralados na área por causa dos intensos combates à medida que a linha da frente se ia aproximando” do hospital de Dar al-Safaa, explicou à Reuters Marianne Gasser, porta-voz da delegação na Síria do Comité Internacional da Cruz Vermelha, que coordenou a retirada.

Foram retirados depois de o Exército sírio ter tomado a área do hospital e as 118 pessoas que necessitavam de cuidados médicos foram transferidas para três unidades na metade Oeste de Alepo, controlada desde sempre pelo regime sírio. 
Os restantes civis foram levados para abrigos criados para deslocados na mesma zona.

A operação de retirada acontece numa altura em que o Exército sírio, apoiado por milícias xiitas iranianas e iraquianas, continua a avançar sobre as zonas ainda em poder dos rebeldes, a quem não restará mais do que um quarto do território que controlaram durante quatro anos no Leste da cidade. 
Quase três semanas após o início desta última ofensiva, milhares de residentes fugiram da área – umas para as áreas controladas pelo Governo, outras para o enclave curdo no Norte da cidade –, mas as Nações Unidas calculam que mais de cem mil civis continuam na zona dos combates.

Quarta-feira, a estrutura que agrega todos os grupos rebeldes pediu um “cessar-fogo humanitário de cinco dias” para a retirada dos civis da área, mas em entrevista ao jornal sírio Al-Watan, o Presidente Bashar al-Assad excluiu qualquer trégua, insistindo que a conquistada da totalidade de Alepo será uma “etapa enorme” para pôr fim à guerra no país.

Nesta quinta-feira, há notícias de violentos combates em vários dos bairros que ainda restam aos rebeldes, incluindo os de Sahadeddin e Bustan al-Qasr, e também de rockets disparados pelas forças da oposição contra o Oeste de Alepo.

Entretanto, os chefes da diplomacia da Rússia e dos Estados Unidos vão voltar a reunir-se em Hamburgo, na Alemanha, para tentar uma vez mais encontrar forma de pôr fim aos combates naquela que era, antes do início da guerra, a maior e mais pujante cidade da Síria. 
Moscovo insiste que tal só acontecerá mediante a rendição dos rebeldes e a sua partida para a província vizinha de Idlib, algo que a maioria dos grupos armados, alguns dos quais apoiados por Washington, recusa fazer.
Forças governamentais prosseguem ofensiva para tomar o que resta dos bairros em poder dos rebeldes.

Em Alepo, “os vivos contam os dias até à morte”

SOFIA LORENA
7 de Dezembro de 2016, 22:04

Civis chegam a uma zona controlada pelo regime
Obama tem pouco mais de um mês para fazer alguma coisa pelos sírios. Ban Ki-moon tem ainda menos tempo. 

EUA e Rússia negoceiam um cessar-fogo. 
Cinco capitais condenam Damasco e Moscovo.


A Síria está a morrer há anos e ninguém consegue ou quer fazer nada. 
O conflito que começou com uma revolta pró-democracia esmagada brutalmente por um ditador passou por fases sempre mais complexas e não pára de piorar. 
Estados Unidos e Rússia discutiram esta noite uma proposta de cessação de combates e evacuação dos civis feridos encurralados em Alepo e não chegaram a lado nenhum.

A maior das cidades sírias e a sua capital comercial até 2011 estava desde Agosto de 2012 partida em dois – de um lado, oposição; do outro o regime. 
Nas últimas semanas, os ataques das forças de Bashar al-Assad, apoiadas pela Rússia, tornaram-se tão intensos que os rebeldes já quase perderam todo o território que controlavam. 
Esta quarta-feira pediram um cessar-fogo de cinco dias e a retirada de pelo menos 500 feridos a necessitar de tratamento urgente. 
Fizeram o que lhes restava, cederam para tentar salvar algumas vidas.

Os líderes de cinco países – Estados Unidos, França, Reino Unido, Canadá e Itália – lançaram em seguida um apelo ao fim imediato dos bombardeamentos na cidade do Norte da Síria perante a “catástrofe humanitária”, dizendo ao mesmo tempo à Rússia e ao Irão (os principais aliados de Damasco) para “usarem a sua influência” sobre o regime para o obrigar a isso.

“Condenamos as acções do regime sírio e dos seus partidários estrangeiros, em particular a Rússia, pela obstrução à ajuda humanitária, e condenamos firmemente os ataques do regime que devastaram as instalações civis e médicas, assim como a utilização de barris explosivos [bombas-barril] e de armas químicas”, lê-se no texto assinado por Barack Obama, François Hollande, Theresa May, Justin Trudeau e Matteo Renzi. 
A declaração comum sublinha “a urgência absoluta de um cessar-fogo imediato para permitir às Nações Unidas distribuir ajuda às populações do Leste [onde se concentrava a oposição e todos os que recusam passar para zonas controladas pelo Governo] e de levar socorro aos que fogem”.

Palavras duras e contundentes? 
Pouco e tarde? 
Depende do ponto de vista. 
Alepo era uma tragédia a acontecer diante de todos. 
Médicos e socorristas, opositores e sírios comuns, ONG sírias e estrangeiras avisaram para o que estava a passar-se, disseram quanta comida sobrava, que medicamentos e material médico faltavam para ajudar os feridos que crescem a cada dia que passa.

Há umas semanas, havia 250 a 300 mil pessoas sob cerco de Assad. Entretanto, centenas morreram (a juntar aos mais de 400 mil mortos desde 2011) e milhares fugiram.

O fim da guerra

Sábado, o enviado internacional para a Síria, Staffan de Mistura, dizia que havia ainda mais de 100 mil pessoas nas zonas controladas pela oposição e sob fogo constante. 
O Observatório Sírio para os Direitos Humanos, ONG ligada à oposição e cujos dados se confirmam na maioria das situações, diz que podiam ser 200 mil. 
Muitos caminhavam esta quarta-feira entre os destroços da Cidade Velha, uma das zonas há mais tempo habitadas do mundo e considerada património universal pela UNESCO. Agora, quase toda esta área, densamente habitada, caiu para o regime.

Uma vitória em Alepo representará uma “etapa enorme” no caminho para o fim da guerra, afirmava entretanto Assad, numa entrevista ao jornal sírio Al-Watan que será publicada na quinta-feira. 
Sim, é verdade. 
Os sírios que ousaram sair à rua há quase seis anos para pedir o fim da impunidade da elite no poder, mais justiça social e maiores liberdades, estão quase de joelhos. 
Sobra pouco para continuar a resistir. 
Sobra Idlib, cidade do Nordeste onde a revolta pegou pela primeira vez em armas, para onde alguns dos que fugiram de zonas perdidas pela oposição se dirigiram, é agora “demasiado perigosa”, devido às bombas que ali caem com frequência.

Uma das últimas ONG que operava em Alepo, a Syria Relief, descreveu o desespero de quem permanece no Leste da cidade. 
“As pessoas temem que Grozni [capital da Tchetchénia arrasada pelos russos nas guerras dos anos 1990] esteja a acontecer outra vez”, diz o presidente da ONG, o médico Mounir Hakimi. 
“As pessoas perderam a confiança em toda a gente – nos líderes mundiais, nas organizações internacionais que as vêem ser mortas. 
Perderam a fé nas Nações Unidas. 
E limitam-se a contar os dias até à sua morte”.

Desculpas e vergonha

Há quase um ano, o agora de saída secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, descreveu a Síria como “um símbolo vergonhoso” das divisões e dos fracassos das lideranças dos países que a sua organização reúne. 
Antes de Mistura, Ban convidou Kofi Annan e Lakhdar Brahimi para este lugar; ambos abandonaram o cargo sem nada para mostrar. 
O diplomata argelino saiu em 2014 pedindo desculpas aos sírios por não conseguir fazer mais por eles. 
Mais recentemente, foi o chefe da organização para a ajuda humanitária, Stephen O’Brien, a falar de Alepo como “a vergonha da nossa geração”.

Em Hamburgo, o secretário de Estado americano, John Kerry, e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, estivem juntos já à noite a discutir o plano de Mistura (que a oposição aceita) para pôr fim aos confrontos em Alepo e ajudar quem precisa. “Trocámos algumas ideias. 
Temos a intenção de retomar o contacto [quinta-feira] de manhã para ver onde estamos”, afirmou Kerry aos jornalistas na Alemanha, onde se encontra para a reunião anual da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa).

Na véspera, em Bruxelas, o chefe da diplomacia de Obama disse que Moscovo fez saber que Assad está “disposto a sentar-se à mesa das negociações”, uma proposta “irrecusável” quando não se tem outra ideia ou solução. 
Faz sentido. 
Assad está sempre pronto a negociar quando está a vencer. 
Só que quando os seus enviados se sentam à mesa gozam com as regras que disseram aceitar antes de ali chegarem, recusando, por exemplo, discutir um executivo de transição.

Obama tem pouco mais de um mês para fazer alguma coisa pelos sírios. 
Ban Ki-moon tem ainda menos tempo, será em breve substituído por António Guterres. 
Os sírios – cinco milhões já fugiram do país; sete milhões estão deslocados dentro da Síria – vão continuar a morrer todos os dias.

Escolher entre a prisão e as bombas em Alepo

ANGUS MCDOWALL e ELLEN FRANCIS
7 de Dezembro de 2016, 23:05

O regime tem autocarros à espera de quem decide
ir para as áreas que controla
O avanço das tropas governamentais deixa as populações civis perante um dilema de vida ou de morte.



À medida que as forças governamentais avançavam para o bairro rebelde de Sakhour, em Alepo, Hasan al-Ali enfrentava a escolha entre continuar onde estava e ser capturado pelo exército, ou fugir para um enclave rebelde cada vez mais pequeno sob constantes bombardeamentos.

Este pai de três crianças optou pela segunda hipótese – embora a comida, combustível, água e medicamentos estejam a esgotar-se nas áreas rebeldes – tão grande é o seu medo do Governo de Bashar al-Assad que os insurrectos tentam remover do poder há quase seis anos.

“Não trouxe nada comigo. 
Trouxe as crianças, corri para o meu carro e fui… 
Tomámos a decisão no último minuto, porque o exército poderia atacar a qualquer momento”, conta o homem de 33 anos, a partir do Leste de Alepo. 
Para Ali e milhares de outros habitantes das áreas que caíram para o exército nos últimos dias, o perigo e as privações do Leste parecem uma aposta mais segura do que a possível prisão ou o recrutamento no exército, caso se mudem para as áreas governamentais.

Mas enquanto alguns fugiram para o interior dos últimos bairros rebeldes, outros decidiram arriscar o perigoso cruzamento da linha da frente até às partes da cidade controladas pelo Governo, encarando esta opção como mais segura do que permanecer com quem está em desvantagem.

“Espero que a Síria regresse ao que era e que as pessoas possam ter a segurança e a paz que havia antes”, diz Abed al-Salam Ahmad, que viajou para o sector governamental com a sua mulher e as seis filhas depois de a sua casa ter sido atingida por uma bomba. 
O ex-operário de construção descreve as condições da casa como tão más que nem os animais iriam conseguir suportá-las e diz que os habitantes eram maltratados pelos rebeldes – algo que estes negam. 
A sua família fugiu ao amanhecer, escapando à troca de tiros quando atravessava a linha da frente. 
Ahmad falou com a Reuters TV numa fábrica de algodão abandonada na área de Jibreen, uma das duas instalações industriais abertas pelo Governo para receber os desalojados.

Os caminhos divergentes escolhidos por Ali e Ahmad ilustram as escolhas aterradoras que os civis enfrentam ao fugir de uma das batalhas mais ferozes da guerra síria. 
Tanto os rebeldes como o Governo se têm acusado mutuamente de manipular os receios dos habitantes de Alepo em seu favor. 
Os militares dizem que os rebeldes têm divulgado notícias falsas sobre abusos cometidos pelo Governo para impedir as pessoas de deixarem as zonas rebeldes. 
Pelo seu lado, os rebeldes dizem que as pessoas que falam em maus-tratos no seu território o fazem por medo do regime de Assad.

Desde que o exército avançou através da zona norte do enclave rebelde, há uma semana, capturando vários bairros grandes muito habitados, pelo menos 30 mil pessoas fugiram através da linha da frente a partir das áreas rebeldes, disse o gabinete que coordena as operações humanitárias da ONU. 
Milhares de outros – os números são mais difíceis de determinar porque as organizações internacionais não se encontram no Leste – recuaram para o sector dos rebeldes, incluindo para os bairros densamente habitados da Cidade Velha.

Muita fome

“Há muita fome. 
Eles estavam a dar-nos todos os dias ou a cada dois um saco de pão, ou seja, cinco pedaços de pão pita”, disse uma mulher que deu o nome de Um Ali, ou “mãe de Ali”, que fugiu para o sector governamental da sua casa no bairro de Jeb al-Qubba. 
Depois de o exército terminar a verificação dos seus documentos de identidade e dos da sua família, ela espera que possam mudar-se para casa do irmão num bairro na zona ocidental, que está nas mãos do Governo.

Muitos dos que escolheram permanecer nas áreas rebeldes acreditam que a verificação dos documentos de identidade é a antecâmara para detenções em massa, tortura e execuções extrajudiciais, e citam notícias de acções semelhantes – todas descritas por Damasco como fabricadas.

Na quarta-feira, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos [ONG ligada à oposição, com sede em Londres e uma rede de activistas no terreno, cuja informação é frequentemente correcta] disse que o Governo deteve centenas de pessoas. 
Uma fonte militar síria negou e disse que enquanto as identidades estão a ser confirmadas, ninguém estava a ser detido, mas é a habitual a ONU denunciar detenções deste tipo em cidades onde o exército chega ou entre populações em fuga para zonas controladas por Assad.

Kalil Halabi, 35 anos, um farmacêutico do bairro de Shaar, perto da nova linha da frente, mudou-se com a sua mulher e filhos para a Cidade Velha rebelde, depois do que descreveu como onze dias de bombardeamentos cada vez mais intensos. 
“A destruição é indescritível, membros, membros de corpos queimados. 
Edifícios caíram e foram incendiados, mesquitas foram totalmente destruídas”, afirmou. “Perdemos muitas pessoas… por causa das bombas-barril e dos rockets. 
Alguns morreram, outros ficaram com lesões permanentes.” 
Outros do mesmo bairro fugiram na direcção contrária, procurando abrigo em áreas governamentais.

40 anos numa casa

Para as pessoas com quem a Reuters falou, a decisão de abandonar a casa, mesmo perante tão grande privação e depois de uma guerra que começou em 2011 e chegou à sua cidade em 2012, surge como ponto de viragem. 
Mahmoud Zakaria Rannan, costureiro do bairro de Sheikh Najjar que tem seis filhos e era proprietário de uma pequena loja, diz que a sua família decidiu finalmente sair depois de ele ter sido ferido e quando a sua casa foi bombardeada. 
“Estive na minha casa 40 anos, iria eu deixá-la algum dia?”

A família foi para o bairro de Sheikh Khudr e depois para a Cidade Velha. 
Mas à medida que os combates continuavam, decidiram por fim juntar-se ao irmão de Rannan no bairro governamental de Adamiya. 
“Temos crianças e eu estou ferido… tivemos de andar muito devagar”, explicou. 
A viagem incluiu uma caminhada de duas horas através da cidade, que começou às 4h da manhã. 
“Havia um grande grupo connosco. 
Eles atacaram-nos até na auto-estrada do aeroporto.”

Alguns dos que permanecem cercados no sector rebelde podem ainda esperar escapar por via de um acordo, semelhante ao que permitiu que milhares abandonassem Daraya, nos arredores de Damasco, e fossem para Idlib, controlada pelos rebeldes, após anos de cerco. “Irei para outra área, vou levar a minha família e procurar refúgio noutro sítio, numa zona libertada, onde não esteja o regime”, diz Hasan al-Ali. 
Não confio nada no regime para ficar nas áreas que controla”.

Rebeldes sírios pedem cessar-fogo e retirada de civis de Alepo

PÚBLICO
7 de Dezembro de 2016, 11:55

Mais de cem mil pessoas continuam nas zonas cercadas
pelos combates
Apelo feito num comunicado na mesma altura em que grupos armados deixam as últimas áreas que controlavam na Cidade Velha.

A perder terreno a cada dia que passa, os rebeldes sírios cercados em Alepo emitiram um comunicado em que pedem um cessar-fogo temporário e a retirada da cidade de centenas de feridos, bem como de todos os civis que queiram deixar as zonas controladas pela oposição.

A tomada de posição surge na mesma altura em que se sabe que os rebeldes deixaram as últimas áreas que controlavam há quatro anos na Cidade Velha de Alepo – declarada património da humanidade – após um dia de intensos combates. 
É o último de uma série de recuos e derrotas iniciadas a 26 de Novembro, quando o Exército sírio, apoiado por milícias xiitas vindas do Irão e Iraque, entrou na metade oriental da cidade, que a oposição controlava desde o Verão de 2012. 
Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, a rebelião perdeu já 75% da área que controlava antes do início da ofensiva.

No comunicado divulgado esta quarta-feira, o Conselho da Liderança de Alepo, que reúne todos os grupos armados presentes em Alepo, propõe um "cessar-fogo humanitário de cinco dias", a entrar em vigor de imediato, e a retirada da cidade de cerca de 500 doentes e feridos, sob protecção das Nações Unidas.

A “iniciativa humanitária” defende ainda que todos os civis que queiram deixar as zonas cercadas sejam autorizados a partir para outras localidades na província de Alepo – milhares de pessoas deixaram a área nos últimos dias, mas calcula-se que entre 100 a 200 mil civis continuem nas zonas cercadas. 
Até agora, os rebeldes e civis retirados de zonas que se renderam foram levados para a vizinha província de Idlib, em poder de uma aliança de islamistas e jihadistas, mas os combatentes de Alepo insistem que a zona, fortemente bombardeada nas últimas semanas, deixou de ser segura.

Um responsável da oposição, que falou à Reuters a partir da Turquia, adianta que a proposta foi enviada a todas as partes internacionais envolvidas no conflito, mas até ao momento não foi recebida qualquer resposta. 
Na segunda-feira, a China e a Rússia vetaram uma proposta de resolução que propunha um cessar-fogo na região para permitir o envio de ajuda humanitária, alegando que a iniciativa era “hipócrita” e visava apenas permitir que a rebelião se reorganizasse.

O passado esplendoroso: Alepo antes da guerra

SOFIA LORENA

09/12/2016 - 20:52


Um minarete do século XI, uma cidadela imponente, um mercado medieval, um centro comercial do século XXI. 
Antes da guerra, que lá chegou em 2012, Alepo era uma cidade vibrante. 
Agora está em ruínas. 

Um passado que acabou, como diz a crónica de Sofia Lorena.