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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Aceitando a Justiça, podemos rir-nos dela?

EDITORIAL
David Dinis
11 de Maio de 2018, 5:58
Acabou-se “o irritante” para Angola, sem dúvida. 
Para nós, portugueses, não.

O Tribunal da Relação de Lisboa decidiu agora reverter uma decisão anterior da Justiça portuguesa e dar por justa a entrega à Justiça angolana do processo de Manuel Vicente. 
À Justiça o que é da Justiça, não há como não aceitar a decisão. 
Mas porque vivemos no Estado de direito, temos o direito de nos rirmos dela.

É claro que Angola é um Estado soberano. 
É claro que tem uma Constituição que garante privilégios aos seus governantes e ex-governantes. 
É verdade também que existem leis, tratados e acordos permitindo (sublinho, permitindo) que sejam remetidos para Angola processos de cidadãos angolanos por crimes cometidos em Portugal. 
Admitimos mais: que existem na Constituição e legislação portuguesas princípios gerais como “a boa administração da Justiça” e “a garantia de melhores condições de reinserção social” para suspeitos e eventuais condenados.

O que não se percebe é como é que estes princípios gerais (volto a sublinhar, gerais) são aplicados sem ter em conta o caso em concreto. 
Ora, o que nos diz o Tribunal da Relação é que: 
não há nem pode haver garantia de Angola de que esta parte do processo, que estava pronta a ir para julgamento em Portugal, seja decidida lá (e que isso não faz mal); 
que não há garantia que não seja aplicada uma amnistia a Manuel Vicente em Luanda (e que isso não faz mal); 
que é mais fácil julgar Manuel Vicente em Luanda porque ele vive lá; 
que o arguido tem direito a “optar pelo sistema jurídico que considere mais favorável”; 
e ainda que Manuel Vicente terá “melhores condições de reinserção social em Angola do que em Portugal”. 
É possível, claro, dizer que tudo isto é normal, que tudo isto é aplicável a Manuel Vicente, como se falássemos de um cidadão normal num Estado normal, que tivesse praticado um crime em Portugal. 
O que não seria normal era que aceitássemos isto, tudo somado, sem o questionar, mesmo podendo ter sido Portugal o Estado lesado - e sem termos obrigação de aplicar a lei angolana.

A verdade é que se “acabou o irritante”, nas palavras do presidente Marcelo, que comentou sem ler, pouco tempo após saber, lembrando que até já estava marcada uma cimeira entre ministros da Defesa. 
Acabou-se seguramente “o irritante” para Angola. 
Para nós, portugueses, fica “o irritante” de deixarmos mais tranquilo um ex-vice de Angola suspeito de ter subornado um procurador português, pagando-lhe 760 mil euros para que a nossa Justiça arquivasse um inquérito sobre a sua compra de imóvel de luxo – pois claro, em Portugal. 
Venha o próximo. 

david.dinis@publico.pt

Fim de linha para o processo Manuel Vicente?

PERGUNTAS E RESPOSTAS
Ana Henriques
11 de Maio de 2018, 6:28 
O procurador Orlando Figueira, principal arguido da chamada Operação Fizz

Envio do processo para Angola não põe fim ao julgamento da Operação Fizz em Portugal.

Se Manuel Vicente acabar por ser julgado em Angola, quando é que tal poderá acontecer?
Só a partir de Setembro de 2022, ou seja, cinco anos depois de ter deixado o cargo de vice-presidente angolano. 
É o que prevê a lei daquele país. 
Mas antes disso pode vir a beneficiar de amnistia.

Quais as suspeitas que recaem sobre Manuel Vicente?
Em 2011 terá pago dinheiro e arranjado um emprego no sector privado ao procurador do Departamento Central de Investigação e Acção Penal Orlando Figueira para que este arquivasse um processo que tinha em mãos, no qual o então presidente da Sonangol e futuro vice-presidente de Angola era suspeito de ter usado dinheiro proveniente de crimes na compra de um apartamento de luxo no Estoril.

A transferência do processo de Manuel Vicente para Angola significa o fim do julgamento da Operação Fizz?
Não: o processo relativo aos restantes três arguidos que estão a ser julgados desde Janeiro em Lisboa mantém-se.

Por que é que Manuel Vicente não está também neste julgamento?
Porque as autoridades angolanas se recusaram a notificá-lo da acusação e da sua condição de arguido, uma vez que como ex-vice presidente angolano tem direito a imunidade durante cinco anos.

Por que é que o Ministério Público não vai recorrer da decisão da Relação?
Porque diz que entende que ela não é passível de recurso.

abhenriques@público.pt

























Transferência para Angola é "tremenda demissão" da justiça portuguesa

OPERAÇÃO FIZZ
Lusa
11 de Maio de 2018, 10:06 
























Eurodeputada Ana Gomes fala em “hipocrisia” e “derrota” na decisão de remeter o processo de Manuel Vicente a Angola.

A eurodeputada Ana Gomes considera que a transferência do processo do ex-vice-Presidente angolano Manuel Vicente para Angola é uma “tremenda demissão” da justiça portuguesa, baseia-se em argumentos hipócritas e não vai aliviar a relação entre os dois países.

“É de uma hipocrisia serem utilizados este tipo de argumentos para justificar uma decisão que é uma tremenda demissão da justiça portuguesa e uma tremenda derrota da Justiça”, afirmou Ana Gomes, em declarações à agência Lusa.

A eurodeputada socialista, que falava um dia depois de o Tribunal da Relação ter decidido transferir o processo de Manuel Vicente para Angola, disse ser “extraordinário que se possa arguir as condições para a melhor reinserção social e reabilitação da pessoa em causa como um dos argumentos para aceitar a transferência do processo para Angola”.

“Isto não vai aliviar as relações entre Portugal e Angola. 
A única coisa que pode aliviar as relações entre Portugal e Angola é que Portugal faça o que tem de fazer para não continuar a ser a lavandaria dos corruptos da cleptocracia em Angola”, sublinhou.

Em causa está a Operação Fizz, que envolve um processo em que o ex-vice-Presidente de Angola é suspeito de ter corrompido, em Portugal, Orlando Figueira, quando este era procurador do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), do Ministério Público, que investiga a criminalidade mais grave, organizada e sofisticada, designadamente de natureza económica.

O caso assenta na acusação de que Manuel Vicente, também ex-presidente do Conselho de Administração da Sonangol, corrompeu o ex-procurador Orlando Figueira com o pagamento de 760 mil euros, para que este arquivasse dois inquéritos, um dos quais envolvia a empresa Portmill, relacionado com a aquisição de um imóvel de luxo no Estoril, em 2008.

“Mesmo antes de ser vice-Presidente [Manuel Vicente] estava envolvido em esquemas de branqueamento em que o nosso país é a lavandaria”, afirmou Ana Gomes, sublinhando que o assunto “não vai ficar por aqui”.

A eurodeputada considerou ainda extraordinário o argumento de que a transferência do processo não prejudica a boa administração da justiça, frisando: “Toda a gente sabe que a Procuradoria-Geral da República [PGR] de Angola escreveu a Lisboa a dizer que não tinha condições para fazer o julgamento em Luanda”.

“E não é apenas por causa da aplicação da lei da amnistia, sabemos que a procuradoria de Angola, mesmo se tivesse vontade política, não teria capacidade para fazer o julgamento, pelo contrário”, acrescentou.

Ana Gomes sublinhou também que a actuação das autoridades policiais vai no sentido de “perseguir aqueles que se têm batido contra a corrupção, contra o roubo do povo angolano, contra as violações dos direitos humanos cometidas em Angola, como é o caso do jornalista Rafael Marques e de outros jornalistas que continuam a ser perseguidos”.

Manifestou-se ainda convencida de que o caso não vai ficar por aqui e que irá “desencadear muitas reacções ao nível da sociedade civil angolana e da sociedade civil portuguesa contra um caso de corrupção de tanta gravidade, como é aquela que envolve esta acusação, que diz respeito a um esquema organizado para corromper um magistrado português e com os crimes associados de branqueamento de capitais”.

Rui Rio diz que transferência é "boa notícia" para relações com Angola

OPERAÇÃO FIZZ
Lusa
11 de Maio de 2018, 13:14 
Rui Rio está em Beja, para o primeiro de dois dias de comemoração do 44º aniversário do PSD

Líder do PSD assume que, com o envio do processo de Manuel Vicente para Luanda, as relações entre os dois países podem normalizar-se.

O presidente do PSD, Rui Rio, considerou esta sexta-feira "muito positivo" e "uma boa notícia" para as relações entre Portugal e Angola a transferência para este país do processo judicial que envolve o ex-vice-presidente angolano Manuel Vicente.

"É, obviamente, uma boa notícia para as relações entre Portugal e Angola", mas "temos que ter consciência, ao longo de todo este processo, que há uma real separação de poderes em Portugal e, portanto, o poder político não podia fazer nada, nem devia fazer nada, relativamente a isto", afirmou o líder social-democrata.

Em declarações aos jornalistas, Rui Rio afirmou que, "a partir do momento" em que o caso "ficou sempre na esfera do poder judicial, e o poder judicial resolveu da forma como resolveu, do lado do poder político é muito positivo" este envio do processo para Angola porque as relações de Portugal com este país "são vitais para o desenvolvimento de ambos".

O presidente do PSD falava aos jornalistas, esta manhã, à margem das visitas que está a efectuar no primeiro de dois dias das comemorações nacionais do 44.º aniversário do partido, que decorrem na cidade alentejana, até sábado.

Em relação ao envio para Angola do processo de Manuel Vicente, o líder social-democrata disse ainda esperar que as relações entre Portugal e aquele país "se normalizem".

"Nem vejo agora razão nenhuma para não se normalizarem e é muito importante para Portugal ter, para lá da sua relação com a Europa, uma boa relação com o Atlântico" e com "os países de expressão portuguesa", no âmbito dos quais "Angola tem um papel absolutamente preponderante".

Segundo Rui Rio, "era muito mau, quer para Angola, quer para Portugal, arrastar-se a situação que se vinha vindo a arrastar", mas "é preciso compreender" que se trata de "uma matéria do foro judicial", na qual "o poder político não tem responsabilidade".

"E foi aí, nesse fórum", o judicial, "que foi resolvido e bem", acrescentou.

O Tribunal na Relação de Lisboa (TRL) considerou na quinta-feira que a aplicação da lei da amnistia aos factos imputados ao ex-vice-presidente angolano Manuel Vicente, no processo Operação Fizz, "não põe em causa a boa administração da justiça".

Esta manhã, o Presidente angolano anunciou "a vontade" de Angola e Portugal seguirem com a cooperação, como consequência da decisão do Tribunal da Relação de Lisboa, de enviar para Luanda o processo que envolve o ex-vice-Presidente Manuel Vicente.

A mensagem foi transmitida por João Lourenço através da sua conta oficial na rede social Twitter, que utiliza regularmente, dando conta que já falou com o homólogo português.

"Conversei na manhã de hoje com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa na sequência da decisão do Tribunal da Relação de Lisboa. 
Felicitámo-nos pelo feliz desfecho do caso e reiterámos a vontade de seguir em frente com a cooperação entre os nossos dois países", anunciou João Lourenço.

























Marcelo recusa ideia de que tenha havido interferência na esfera judicial

MANUEL VICENTE
Lusa e Público
11 de Maio de 2018, 18:45 actualizada às 19:17 






















Francisco Louçã, conselheiro de Estado, manifestou estranheza em relação aos comentários do Presidente e do primeiro-ministro no caso Manuel Vicente. 
"Ninguém se imiscui numa decisão tomada", defende Marcelo.

O Presidente da República rejeitou nesta sexta-feira que os seus comentários sobre a transferência para Angola do processo que envolve Manuel Vicente possam ser interpretados como intromissão na esfera da justiça, argumentando que "ninguém se imiscui numa decisão tomada".

Por outro lado, Marcelo Rebelo de Sousa salientou a importância das relações luso-angolanas, declarando: "Estão em causa centenas de milhares de pessoas, portugueses e angolanos. 
E, portanto, quando estão em causa centenas de milhares de pessoas, isso é tão forte, tão forte, tão forte, que é mais forte do que tudo."

O chefe de Estado falava durante uma iniciativa na Baixa de Lisboa, em resposta à comunicação social, que o confrontou com a estranheza manifestada pelo conselheiro de Estado e antigo deputado e dirigente do Bloco de Esquerda Francisco Louçã face aos seus comentários e do primeiro-ministro sobre este processo.

"Não é só o Presidente angolano, o primeiro-ministro português e o Presidente português ficaram muito satisfeitos. 
Até acho um pouco estranho que façam tantos comentários sobre uma decisão judicial. Não é muito comum", afirmou Francisco Louçã, hoje, à rádio TSF.

Questionado se os seus comentários não podem ser interpretados como uma forma de se imiscuir na justiça, Marcelo Rebelo de Sousa respondeu: "Que eu saiba, quando a decisão está tomada, ninguém se imiscui numa decisão tomada. 
A decisão está tomada, está tomada. Imiscuir é antes."

Interrogado, em seguida, se já tem data para uma visita a Angola, o chefe de Estado nada adiantou, considerando que "não vale a pena estar agora a especular sobre essa matéria".

Sobre a conversa que teve de manhã com o Presidente de Angola, Marcelo Rebelo de Sousa disse que foi João Lourenço a telefonar-lhe e que os dois expressaram a vontade de "continuação da colaboração entre povos e Estados", reiterando "os laços de amizade e de fraternidade existentes".

"Sempre tive a ideia de que estávamos vocacionados para estarmos juntos, sempre, independentemente dos pormenores", reafirmou.

Os dois juízes do Tribunal da Relação de Lisboa que decidiram nesta quinta-feira o envio do processo judicial do ex-vice-presidente angolano Manuel Vicente para Luanda alegam que Angola é, tal como sucede com Portugal, “um Estado baseado na dignidade da pessoa humana”. 
E criticam, ainda que de forma implícita, os juízes e procuradores que em fases anteriores do caso entenderam manter todo o caso sob a alçada das autoridades portuguesas, sob pretexto de que Angola se mostrava incapaz, do ponto de vista legal, de tratar o assunto da forma mais correcta.

A decisão proferida pelos desembargadores Cláudio Ximenes e Almeida Cabral não tem implicações directas no julgamento dos restantes três arguidos da chamada Operação Fizz, que decorre no Campus da Justiça, em Lisboa.

Para o Ministério Público, Manuel Vicente conseguiu o arquivamento de uma investigação em que era visado por branqueamento de capitais.