quarta-feira, 13 de junho de 2018

O mais alto, o mais baixo, o golo mais rápido e os gafanhotos. 42 factos, histórias e curiosidades do Mundial /premium

SPORTING
Mariana Fernandes   e  Marta Leite Ferreira
13 Junho 2018




















Os insetos podem ser um problema, o troféu do campeão é falso e há recordes que podem ser batidos este ano. 
O que há a saber sobre o Mundial na Rússia, desde os caloiros aos veteranos.

Foi mais ou menos como olhar ao microscópio para tantas pessoas quantas as da população do Vaticano. 
A quatro dias no início oficial do Campeonato Mundial de Futebol a Rússia de Vladimir Putin — que é tão grande que a distância entre a cidade mais a este (Kaliningrado) e a cidade mais a oeste (Ecaterimburgo) a receber jogos é a mesma que separa Moscovo de Londres (2.424 quilómetros) — recebeu 736 jogadores com as camisolas das 32 seleções apuaradas.

Todos vão tentar a partir de quinta-feira uma só missão: levar para o país que representam o título de campeão mundial. 
Se os portugueses só regressam a território nacional a 16 de julho, igualando uma promessa que Fernando Santos fez (e cumpriu) em 2016,  ainda estamos longe de saber. Mas consegui-lo seria um feito histórico: Portugal tornar-se-ia na quarta seleção da história a vencer o Campeonato da Europa e o Campeonato do Mundo de forma consecutiva. Antes de nós, só a Alemanha, a França e a Espanha é que conquistaram a dobradinha: os alemães conquistaram o Euro 72 e o Mundial 74, os franceses fizeram-no no Mundial 98 e no Euro 2000 e os espanhóis ganharam o Euro 2008, o Mundial 2010 e ainda o Euro 2012.

O Mundial 2018 em solo russo traz grandes expetativas para os portugueses, mas há outros países igualmente entusiasmados com o evento desportivo que consegue pôr 46% de toda a população mundial de olhos postos na bola que foi inspirada na que rolou no Mundial de 1970 no México.

Mas há mais números para conhecer: dos 32 países em competição, há duas seleções estreantes: o Panamá e a Islândia. 
Os panamenhos ficaram tão contentes com o apuramento que o presidente da República declarou o dia 11 de outubro — o dia em que a seleção se qualificou pela primeira vez para um Mundial — feriado nacional já a partir deste ano. 
Além do Panamá, a Islândia também tem toda a fé do mundo na equipa que escolheu: embora este seja o país com menos habitantes que alguma vez competiu num Mundial (há apenas 334 mil islandeses), 20% da população da Islândia tem bilhete para assistir a pelo menos um jogo da seleção no Mundial da Rússia, ou seja 66 mil adeptos vão novamente torcer daquela forma única que já fizeram no Euro 2016 pela sua seleção. 
Mas a matemática não ajuda à festa, visto que a última seleção estreante a ir além da fase de grupos foi a Eslováquia em 2010, no Mundial da África do Sul.

Apesar de tudo, Portugal tem alguns dados estatísticos do seu lado: em primeiro lugar, todos os campeonatos do mundo foram conquistados por seleções cujos treinadores eram da mesma nacionalidade da equipa; e em segundo lugar porque a Espanha, que é o principal adversário de Portugal no seu grupo (as outras equipas são o Irão e Marrocos), tem alguns azares futebolísticos no currículo: nos dois últimos Campeonatos do Mundo, as seleções campeãs em título foram eliminadas logo na fase de grupos: a Itália em 2010 e a Espanha em 2014.

Até a própria biologia pode ajudar à festa portuguesa: lembra-se da praga de traças que assolou o estádio na final do Euro 2016 em França, de onde Portugal saiu campeão da Europa frente aos anfitriões? 
Ora, o Ministério da Agricultura russo alertou para uma possível praga de gafanhotos em algumas regiões do país durante o período em que o Mundial decorre.

Com o título de campeões do mundo na mão ou não, a Federação Portuguesa de Futebol já está a ganhar só pelo facto de a nossa seleção pisar o relvado do Estádio Fisht na próxima sexta-feira às 19 horas: cada participante no Mundial ganha oito milhões de euros. Este valor, assim como os prémios dados aos vencedores, serão superiores aos entregues no Mundial do Brasil: este ano, serão 35 milhões de euros para o vencedor e 25 milhões de euros para o segundo classificado. 
Mesmo assim, a maior relíquia de todas não é dada aos campeões: é que o país vencedor do campeonato do mundo fica apenas com uma réplica do troféu. 
A FIFA fica com o verdadeiro e só os chefes de Estado e os jogadores vencedores estão autorizados a tocar na taça real. 
Aliás, em 2038, este troféu real deixará de ter espaço para gravar o nome das seleções vencedoras e um segundo terá de ser fabricado.

Mas nem só de vencedores se fazem as curiosidades deste Mundial: os perdedores também fazem histórias, a começar logo pela seleção do país anfitrião. 
O jogo de abertura do Mundial 2018 é entre as duas seleções com pior classificação no ranking da FIFA: a Arábia Saudita está na 67.ª posição e a Rússia na 70.ª. 
A partida não promete futebol espetáculo, mas até entre as seleções mais apreciadas a derrota é mal vista: em 1958, quando a Alemanha e a Suécia se defrontaram, os suecos venceram por 3-1. 
No dia seguinte, a grande maioria dos pneus de carros suecos em Hamburgo foram cortados e um prato tradicional sueco, muito popular na Alemanha, foi eliminado dos menus de grande parte dos restaurantes alemães. 
Sessenta anos depois, as coisas tornam-se tensas mais uma vez entre os dois clubes: a Alemanha e a Suécia estão no mesmo grupo neste Mundial.

Também há curiosidades a reter entre os jogadores: Essam Kamal Tawfik El-Hadary, o guarda-redes do Egito, que atua no Al-Taawoun da Arábia Saudita, é o futebolista mais velho de todos: nasceu a 15 de janeiro de 1973, por isso tem 45 anos e cinco meses. 
A diferença entre ele e o segundo mais velho ainda é grande: Rafa Márquez, que é também o jogador com mais presenças em fases finais (já lá esteve cinco vezes), tem 39 anos e quatro meses. 
Além do título de veterano, El-Hadary acumula ainda o rótulo de jogador com mais internacializações: já lá vão 158.

Em questões de idade, o selecionador uruguaio também se demarca dos restantes: Óscar Washington Tabárez Silva é o selecionador uruguaio há mais de uma década, tem 71 anos completados a 3 de março e é também o treinador que mais jogos comandou à frente duma seleção nacional: 173.

Do outro lado da tabela etária dos futebolista está Daniel Arzani, o australiano que joga no Melbourne City e que nasceu a 4 de janeiro de 1999 no Irão. 
Tem 19 anos e cinco meses, o que faz dele o atleta mais jovem entre os 736 convocados para a Rússia. 
A diferença entre ele e os restantes atletas no pódio não é muito grande: Kylian Mbappé, que joga pela França, tem 19 anos e seis meses e Francis Uzoho, da Nigéria, tem 19 anos e oito meses.

Entre os selecionadores, o “caçula” do grupo é Aliou Cissé, treinador senegalês que já vestiu as camisolas do Birmingham City, Crystal Palace e Portsmouth. 
É o mais novo de todos os treinadores: tem 42 anos completados a 24 de março.

Com as idades arrumadas, vamos falar de tamanhos: Lovre Kalinić, o guarda-redes croata que defende o KAA Gent, além de ser um dos mais pesados — esse título pertence ao panamenho Román Torres Morcillo e aos seus quase 100 kg — , é o mais alto de todos: tem dois metros e um centímetro de altura. 
Mas é só um pouquinho mais alto que Jannik Vestergaard da Dinamarca, que tem dois metros certinhos. 
São valores contrastantes com os que estão no fundo desta régua: Alberto Abdiel Quintero Medina do Panamá, Xherdan Shaqiri da Suíça e Yahya Sulaiman Ali Al-Shehri da Arábia Saudita têm apenas 1, 65 metros. 
Este último também é um dos mais leves, porque pesa 60 kg, mas o peso pluma do Mundial é Takashi Inui, o futebolista japonês do Betis, que tem 1,69 metros e apenas 59 kg.

De resto, há valores a decorar porque podem ser batidos já este ano. 
Thomas Müller é o futebolista que mais alegrias deu à seleção que representa: já marcou 10 golos com a camisola da Alemanha em mundiais e curiosamente também é aquele que mais assistências fez: há seis golos alemães em campeonatos do Mundo que se concretizaram com uma ajudinha de Muller. 
Menos eficaz é o avançado mexicano Javier Ignacio Aquino Carmona, porque foi o que mais oportunidades teve para marcar sem nunca o fazer: não há um único golo dele nos 53 jogos em que esteve em campo.

Na história dos mundiais há ainda um outro recorde por bater: o golo que Hakan Sukur marcou aos 10 segundos e 89 centésimos do jogo entre a Turquia e a Coreia do Sul no campeonato de 2002. 
É o golo mais rápido do mundo, em contraste com o que saiu dos pés do italiano Alessandro del Piero: o golo mais tardio chegou aos 121 minutos da partida entre Itália e Alemanha do Mundial 2006, e onde os italianos saíram vencedores por 2-0 e chegaram à final, onde bateram a França nos penáltis. 
Extraordinário, sim, mas modesto se comparado com o memorável jogo entre a Áustria e a Suíça, país anfitrião do Mundial de 1954. 
A Áustria marcou sete golos e a Suíça marcou cinco. 
Foi este o jogo que mais fez mexer o contador.

E por falar em valores, falemos agora de cifrões. 
E esqueça Cristiano Ronaldo, Neymar ou Messi: o jogador mais valioso de todos é o inglês Harry Kane, que está avaliado em 201,2 milhões de euros. 
Aliás, Inglaterra tem muitos lugares cativos neste Mundial: tem a equipa mais ‘caseira’ porque todos os jogadores atuam em clubes da liga do país (a Arábia Saudita chega lá perto, mas tem três emprestados a clubes espanhóis). 
Também é inglesa a liga mais representada no campeonato graças aos 124 jogadores convocados para o Mundial que atuam em clubes da Premier League — 16 dos quais vêm do Manchester City.

Ainda assim, enquanto seleção, a Inglaterra é ultrapassada pela França em muitos cifrões: a seleção de Pogba, Mbappé e Griezmann vale 1.410 milhões de euros se somarmos os valores estimados para cada um dos jogadores da  equipa.

As contas estão feitas, as histórias estão contadas e as curiosidades estão enumeradas. 
O Mundial de 2018 está prestes a arrancar e a contagem decrescente já começou: agora é confiar nas estatísticas históricas e torcer o nariz às probabilidades que nos dão poucas hipóteses de vitória frente à Espanha.

O GPS, o Google Translate, a segurança e a cara conhecida: um retrato de Kratovo, a sede de Portugal /premium

SPORTING   Bruno Roseiro    13 Junho 2018


















Qualquer viagem é feita com GPS, qualquer conversa é escrita no Google Translate, qualquer telefone junto da sede é revistado pela segurança: assim é Kratovo, a pacata localidade onde está Portugal.

Há um ditado russo que diz que “É mais fácil trabalhar quando ninguém está no caminho”
Faz sentido. 
Mas também há alguns obstáculos, tão grandes ou maiores do que aqueles que poderiam ser os mais esperados, e que não facilitam em nada o trabalho português na Rússia. 
No caso concreto, um em específico: a língua. 
E por aqui entronca a realidade de Kratovo, local que servirá de quartel general de Portugal durante este Campeonato do Mundo numa Rússia onde os choques sociais são enormes, mas existe o ponto comum da “aversão” ao inglês. 
Tão comum que quase consegue fazer com que o truculento dilema do trânsito sem fim se torne secundário.

A chegada ao Aeroporto Internacional Domodedovo engana. 
Mas engana mesmo. 
Porque aquelas filas enormes para passar pela zona dos passaportes acabam por resumir-se a dez ou 15 minutos normais como em qualquer cidade da Europa. 
Porque aquilo que vemos à nossa frente é um cenário monocromático com o azul do Mundial exposto em qualquer parede ou cartaz. 
Porque a bagagem, além de intacta, já estava até na passadeira quando a barreira burocrática é ultrapassada. 
Tudo normal, tão normal como os habituais clientes que fazem de qualquer carro com duas ou três mossas o táxi mais importante do mundo. 
Também aqui, quem arranha inglês é rei. 
Não no negócio em si, porque uma viagem que começou nos 21 mil rublos passou para quase quatro vezes menos, pela capacidade de arrebatar estrangeiros. 
Depois de uma viagem de cinco horas, parece tudo bem.




















Portugal aterrou sábado no aeroporto de Zhukovski, muito perto do quartel general

Quase mais duas horas de viagem até Kratovo, onde se encontra a Seleção, fazem pensar um pouco em tudo. 
No final o tudo resume-se a nada. 
Nem para dizer o nome o condutor consegue perceber uma linguagem que já mistura inglês, mímica e demais gestos desesperados. 
Não é motivo de orgulho e o próprio motorista, que quer receber da melhor forma alguém que está no seu país, coloca as mãos na cabeça antes de juntá-las num pedido de desculpas que não tinha de dar. 
Assim, lá vamos nós (ou cada um na sua), tendo o GPS como ponto comum e o trânsito como caos a evitar. 
Em alguns momentos consegue-se, noutros não. 
E começa o para arranca que destrói o restinho de costas que sobrou após uma longa viagem de avião. 
Sempre a ouvir a Rádio Monte Carlo. 
Que tem Beyoncé. 
Que tem Whitney Houston. 
Que tem Prince. 
Que tem Dire Straits. 
Que tem Cyndi Lauper. 
É o único inglês até Kratovo. 
Umas horas depois, percebemos que é mesmo o único inglês que vamos ouvir enquanto estivermos em Kratovo. 
E nem o nome de Yuriy Borzakovskiy, antigo campeão olímpico dos 800 metros nascido na localidade, consegue mudar o cenário.

Quando nos aproximamos do local de chegada, a imagem dos prédios grandes que alojam centenas de famílias de um lado e lojas grandes do outro transforma-se em zonas de cultivo e pequenos cemitérios apenas percetíveis pelas coroas de flores por cima das lápides em locais escondidos à beira da estrada. 
Kratovo é isto: uma espécie de grande bosque onde as ruas se vão cruzando. 
Nomes, indicações e moradas, quase zero. 
Para os locais, parece ser tudo intuitivo. 
Até porque, em caso de dúvida, há sempre o cirílico e o GPS para safar a situação. 
Para quem chega, o GPS é outro. 
Tem de ser outro. 
Chama-se Google Translate. 
Mas com o cuidado de funcionar com frases curtas que consigam depois ser misturadas com gestos. 
É assim que se “fala”.

Comparando com os últimos Mundiais, falta o inglês que havia na África do Sul e falta o constante “desenrascado” que havia no Brasil. 
Com isso, faltam as histórias que surgiam debaixo de cada pedra como em Marcoussis, no último Europeu. 
Ou melhor, houve uma na nossa primeira noite em solo russo, que meteu quebras de luz (e Internet) a meio da noite e cães à solta para quem tentasse ir apanhar ar e fumar um cigarro, mas esta versão de Blair Witch Project fica para outro dia. 
De resto, quando tentamos perceber, por exemplo, se o preço da gasolina sempre foi tão baixo como agora (60 cêntimos por litro, mais barato se calhar do que a água) ou como reagiu esta localidade ao fatídico dia, mais ou menos há um ano, em que um homem, antigo combatente na guerra da Tchetchénia que sofria de perturbações mentais, começou a disparar uma arma à janela fazendo quatro mortos e ferindo alguns polícias durante uma mega e longa operação de captura que demorou algumas horas, nem com a ajuda do fiel amigo Translate. 
Ainda assim, e fazendo algumas buscas, essa é a única alusão que encontramos a Kratovo antes da chegada da comitiva nacional à localidade, como foi descrito pela RT.




















"O passado é glória, o presente é história", destaca o autocarro oficial da equipa na Rússia 

Sveta, a responsável pela casa de campo a cerca de 15 minutos do centro de treinos de Portugal, está orgulhosa por receber alguém de fora, quer que tudo corra da melhor forma, mas chega a ficar impaciente consigo própria por não conseguir exprimir-se noutra língua que não seja o russo. 
Igor, o taxista que nos safa o dia de manhã até à base da Seleção, idem. 
Mais uma vez, Google Translate, uns gestos e muita paciência acabam por chegar para cumprir os mínimos básicos numa zona onde o Campeonato do Mundo parece passar ao lado, onde são raríssimos (contam-se pelos dedos das mãos) os adeptos portugueses que tentam assistir a um bocado do treino. 
Se o objetivo passava por ter uma tranquilidade absoluta, o mesmo foi cumprido na íntegra
E não foi por acaso que, pouco depois da vitória no Europeu, os responsáveis federativos já tinham na mira este centro de treinos do FC Saturn, a cerca de 50 quilómetros a sudeste de Moscovo, com uma espécie de pré-reserva confirmada também pelo rápido acesso ao aeroporto de Zhukovski, que permite em dez minutos e sem trânsito viajar para Sochi ou Saransk, por exemplo.




















Portugal foi recebido no sábado com danças e o típico korovai, um pão tradicional da região

Como a Federação mostrou através do seu canal, os jogadores portugueses tentaram aprender algumas palavras em russo. 
E o próprio João Mário, na conferência desta terça-feira, não deixou de criar um certo espírito de proximidade ao dizer que sabia tratar-se de um dia especial no país (feriado pelo Dia Nacional da Rússia), dando os parabéns e agradecendo toda o carinho e atenção que lhes têm sido dispensados desde a chegada. 
No entanto, percebemos que esse “esforço” dos comitiva nacional fez com que soubessem tantas palavras em russo como as que os naturais de Kratovo “arranham” em inglês.


Em paralelo, consegue confirmar-se aqui (se dúvidas ainda existissem) a garantia dos organizadores em termos de segurança. 
Algumas pessoas conhecedoras da realidade russa, como José Milhazes, falavam de forma aberta na grande aposta em acabar com qualquer possibilidade de atentados durante o Campeonato do Mundo. 
Aqui, onde o Mundial até passa ao lado, as medidas superam em tudo qualquer grande competição, dos Mundiais aos Jogos Olímpicos. 
Exemplos práticos: a certa altura, só podem mesmo aceder à rua da entrada do espaço onde está Portugal determinados carros (Igor, quando viu o primeiro sinal de um polícia, deu logo meia volta, estacionou e mandou-nos simpaticamente fazer o resto do caminho a pé); à entrada, além da acreditação, todos os carros são revistados com espelhos por baixo da carroçaria e cães que despistam qualquer explosivo. 
Os jornalistas têm de passar por um detetor de metais, abrir as mochilas e mostrar o computador e os telemóveis ligados. 
Em resumo, é mais apertado entrar no centro de estágios da Seleção Nacional do que nas barreiras de controlo do aeroporto. 
E por aqui, está tudo dito.

No dia do primeiro treino de Portugal na Rússia, estiveram em Kratovo Paulo Vizeu Pinheiro, o embaixador português no país; familiares e outros membros da embaixada; e Luís Amaro, um investidor financeiro de 26 anos natural da Guarda que passou a viver na Rússia após acabar a faculdade; esta terça-feira, Miguel Silva e André Pestana, dois madeirenses emigrados em Inglaterra (Portsmouth) surgiram no centro de estágio já com o seu Fan ID e os responsáveis federativos, como que reconhecendo o gesto, deixaram que vissem os 15 minutos abertos do treino. 
E um gesto que é muito mais do que isso: fizeram todo o trajeto até aqui de bicicleta, num total de 2.400 quilómetros com passagens por França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Polónia, Lituânia e Letónia. 
Mas a proporção é mais ou menos a mesma: cada adepto que não falasse português em França, no Europeu, corresponde agora aos do que falam português na Rússia, neste Mundial. 
De resto, entre todo o staff, polícias e seguranças que tem acompanhado a Seleção, há uma senhora que arranha o espanhol e um elemento russo ligado à organização que fala português. 
Ah, e Inés Sainz.


A jornalista não-portuguesa-mais-portuguesa-e-quase-portuguesa que existe voltou a aparecer no centro de treinos de Portugal, uma prática que já vem desde 2006, quando a Seleção estagiou em Évora antes de seguir para a Alemanha, onde terminou o Mundial no quarto lugar. 
Claro está, como em todas as outras ocasiões, que não passou ao lado, mas o “efeito surpresa” que tinha noutra altura aguenta agora menos tempo. 
Afinal, é quase como se fosse uma repórter da casa. 
E acaba por tornar-se notícia também porque não há muito mais para dizer neste ambiente onde a equipa de Fernando Santos está integrada.




















De resto, nada a falta ninguém
Nem aos jornalistas, que têm uma espécie de mini pavilhão improvisado junto ao campo de treinos onde são feitas as conferências de imprensa onde estão também televisões com os canais nacionais, nem aos jogadores, que têm os quartos personalizados com imagens da adolescência e atuais, espaços de lazer, ginásio, salas de refeições e conferências ou piscina interior, entre outras necessidades normais como em qualquer estágio mais longo como este.

Mas, olhando apenas para este centro de estágio, numa localidade onde tão depressa está sol e algum calor como começa a chover (como aconteceu esta terça-feira), Portugal está sozinho contra o mundo. 
Mas, como tem escrito no autocarro oficial, “o passado é glória, o presente é história”. 
E no futebol, com a bola nos pés, não é preciso saber inglês nem se tem de recorrer a GPS e Google Translate. 
Ainda para mais quando se tem Ronaldo, o foco que traz a Kratovo a imprensa internacional.

Futebol? Se todas as preocupações dos russos fossem as sete derrotas seguidas… /premium

Ana Kotowicz  13 Junho 2018


















Aumento da idade da reforma e dos preços dos combustíveis são o que mais preocupa os russos na altura do Mundial. 
Para o Presidente Putin, o Mundial pode ser usado para uma maratona diplomática.

Pavel Kudyukin vive em Kratovo, uma localidade a 50 quilómetros de Moscovo, e que era, até há pouco tempo, um nome que nada dizia aos portugueses. 
Em Kratovo fica a sede do FC Saturn, o clube russo que em 2010 abandonou a primeira divisão por falta de fundos, mas nem esta entrada, ao estilo Wikipedia, seria suficiente para a maioria das pessoas conseguir apontar a localidade no mapa. 
Acontece que por estes dias Kratovo se tornou a base de treinos de Cristiano Ronaldo e da seleção portuguesa de futebol e, por cá, o som do seu nome passou a ser familiar. 
Kratovo não vai receber eventos do Mundial 2018, é apenas a base da seleção portuguesa, mas isso basta para ter uma grande concentração de forças de segurança. 
E, ali, o aumento de policiamento nas ruas está para alguns russos como o excesso de turistas está para muitos lisboetas.

“O aumento das medidas de segurança acontecem essencialmente nas estações de comboio e de metro. 
Em alguns casos são inúteis em termos de segurança, mas trazem sério desconforto aos cidadãos. 
Nas ruas, o aumento do policiamento é à volta dos lugares onde o Mundial vai acontecer”, conta Pavel Kudyukin, co-presidente do sindicato Solidariedade Universitária, estrutura que defende os direitos dos funcionários do Ensino Superior.

“Eu vivo numa vila não muito longe de Moscovo, sede do Saturn, e a seleção portuguesa já cá está. 
Por isso, encontramos polícia a cada 50 metros. 
Para além disso, o trânsito nas ruas vizinhas está condicionado e os moradores só conseguem passar com permissões especiais escritas nos seus documentos”, conta Kudyukin.

Dmitry Sudakov, editor da versão inglesa do jornal Pravda, diz que o aumento do policiamento também se sente em Moscovo, uma das 11 cidades que vai receber jogos do campeonato. 
“As medidas de segurança estão mais apertadas. 
Há polícia em todo o lado. 
A Rússia tem estado a melhorar os seus níveis de segurança depois de todos os ataques terroristas que o país já viu. 
Hoje, não é possível entrar num comboio de alta velocidade de Moscovo para São Petersburgo sem que as malas sejam inspecionadas por um raio-X, por exemplo.”

O aumento da segurança é necessário, na opinião de Dmitry Sudakov, porque na sua história recente a Rússia viu diversos ataques terroristas e a população teme-os. 
E embora diga que ninguém pode garantir que não irá acontecer um atentado, acredita que as forças de segurança estão a “fazer tudo o que podem para evitar qualquer tipo de atividades subversivas”.

Kirill Martynov fala com o Observador também a partir da capital russa, a única metrópole que tem dois estádios disponíveis para o Mundial. 
É editor de política do Novaya Gazeta, um jornal russo conhecido pela cobertura crítica a Vladimir Putin e pelos trabalhos de investigação jornalística. 
“Para mim, pessoalmente, estas medidas de segurança são bastante desagradáveis. 
Há mais polícia na rua, e os passageiros com mochilas são sempre revistados. 
Os meus colegas já escreveram sobre trabalhadores migrantes, das antigas repúblicas soviéticas, que foram torturados pela polícia. 
As autoridades disseram que havia suspeitas de serem terroristas, mas sem terem qualquer prova contra eles, mas, claro, estamos a tentar estar seguros antes do Mundial.”

Para o jornalista de política, as medidas de segurança são duras, mas devem-se à “falta de profissionalismo” das autoridades. 
“A segurança é mais imitada do que realmente oferecida. 
As pessoas estão habituadas a isto na Rússia, ninguém se arma em rebelde se uma rua central estiver bloqueada pela polícia. 
E penso que a polícia recebeu ordens para tratar os fãs estrangeiros de forma correta. 
Os jornais moscovitas até escreveram que houve uma ordem oficiosa da polícia a pedir aos carteiristas que não roubem nada durante o campeonato.”

Nas redes sociais, nas contas de quem escreve com o alfabeto cirílico, há uma pergunta que surge como um pop-up, uma e outra vez: as medidas de policiamento vieram para ficar? 
Pavel Kudyukin diz que é difícil fazer uma previsão dessas, mas acredita ser “muito provável”.

José Milhazes, o jornalista português que durante anos foi correspondente em Moscovo, cidade para onde se mudou em 1977 para estudar História da Rússia, acredita que essa é uma visão que apenas os mais cépticos terão. 
Lembra que a Rússia é um país enorme e a maioria não notará o aumento do policiamento, já que os jogos só vão acontecer nos estádios de menos de uma dúzia de cidades.

A Rússia atravessa 11 fusos horários diferentes, faz fronteira com 16 países e nos seus 17 milhões de quilómetros quadrados Portugal caberia 185 vezes. 
É por isso que quando Pavel Kudyukin diz que a sua vila fica mesmo ao lado de Moscovo, apesar de o caminho entre as duas ser feito em quase uma hora de automóvel, ele fala verdade. 
Cinquenta quilómetros para os russos não são o mesmo que 50 quilómetros para os portugueses. 
E é a esta grandiosidade de território, que faz da Rússia o maior país do mundo, a que Milhazes se refere quando diz que apenas uma minoria sentirá o aumento das medidas de segurança.

“Já no sentido de continuidade do aparelho repressivo, em relação à oposição política, ele sempre existiu na época de Putin. 
Claro que a experiência do Mundial pode contribuir para que as autoridades tomem novas medidas, mas penso que para o Presidente russo é muito mais importante que tudo corra bem e que nada, nada, nada de mal aconteça a ninguém. 
Até acho que a segurança vai ser reduzida depois do Mundial porque manter um aparelho deste tipo é uma fortuna. 
A Rússia não tem dinheiro para manter 700 mil polícias na rua”, sustenta Milhazes.

Apesar disso, José Milhazes reconhece que há algum desconforto com o policiamento. 
“Há extraordinárias medidas de segurança que estão a ser tomadas em todas as cidades onde se vão realizar jogos. 
Os habitantes queixam-se de que a polícia passa a vida a pedir e a verificar documentos e isso cria incómodos. 
Em Ekaterimburgo há pessoas que vivem dentro do perímetro de segurança e que só podem entrar quando mostram o carimbo que têm no passaporte, já que só assim podem provar que residem naquele lugar.”

Mas está a polícia a exceder-se nas medidas de segurança ou não? 
As opiniões variam entre quem acha que com mais segurança está mais seguro, como diz Milhazes, e os que acham que ela está a ser de mais. 
Uma das situações que mais indignação causou nas redes sociais envolvia a detenção de estudantes da Universidade de Moscovo que picharam uma futura zona de adeptos estrangeiros, no perímetro adjacente ao campus com a inscrição “Não à Zona de Fãs”.

“O caso dos estudantes não tem nada a ver com segurança, tem a ver com o facto de estarem a ser despejados do seu campus e a serem forçados a fazer exames mais cedo do que o suposto para que aquela zona perto da Universidade de Moscovo seja usada para os adeptos”, conta o editor de política do Novaya Gazeta. 
“Isto é terrível, e em qualquer país a Universidade iria proteger os seus estudantes numa situação destas. 
Temos uma investigação criminal sobre um filólogo de 18 anos por protestar contra a zona de fãs. 
E os seus professores continuam em silêncio”, explica Kirill Martynov.

“A inscrição já foi lavada e não há nenhum dano real”, acrescenta Pavel Kudyukin, que estudou História na mesma universidade estatal que José Milhazes, a Lomonossov, e na mesma década de 70. 
A mesma universidade que está agora envolvida na polémica.

“Um dos estudantes, Dmitry Petelin, tinha estatuto de suspeito num processo criminal por vandalismo. 
E esta sexta-feira o nosso piquete de solidariedade para com os estudantes foi proibido pelas autoridades da cidade. 
Entretanto, nesse mesmo dia, 8 de junho, ocorreram dois eventos. 
Primeiro, a procuradoria decidiu parar o processo criminal contra Petelin. 
Segundo, no nosso piquete composto por uma só pessoa, o co-presidente do nosso sindicato Solidariedade Universitária, o Andronik Arutyunov — é professor assistente de matemática no Instituto de Física e Tecnologia de Moscovo — foi detido pela polícia. 
Na manhã seguinte, o tribunal impôs-lhe uma multa de 20 mil rublos (270 euros) por ‘violação das regras de acções em massa’. 
Em massa! 
Onde há contacto com a polícia, há risco de haver problemas.”

O problema do lixo e das lixeiras tem levado a muitos protestos dos cidadãos russos

1 - Lixo, idade da reforma e o preço da gasolina

Enquanto na imprensa ocidental as notícias sobre a Rússia estão ligadas às sanções económicas impostas ao país, ao caso Skripal e ainda à alegada influência nas eleições norte-americanas que deram vitória a Donald Trump, os problemas que afetam o dia a dia dos russos são outros. 
O aumento da idade da reforma, a subida do preço dos combustíveis e o lixo que se amontoa à volta de Moscovo são os assuntos mais discutidos nos cafés. 
Muito mais do que histórias de jornalistas que morrem e renascem como o ucraniano Arkady Babchenko ou greves de fomes como a de Oleg Sentsov, mas já lá chegaremos.

“De uma forma geral, as pessoas têm grande orgulho no país e no seu Presidente. 
Por isso, o Mundial é uma grande oportunidade para a Rússia mostrar uma versão verdadeira dos eventos, nomeadamente que não é de forma alguma uma ditadura — um disparate, porque tem processos democráticos — e que não é culpada de qualquer das acusações que lhe são feitas”, diz o britânico Timothy Bancroft-Hinchey, fundador e diretor da versão portuguesa do jornal Pravda desde 2002.

“A maioria dos russos está, em primeiro lugar, preocupada com os preços da gasolina. 
Ultimamente, os preços têm subido muito e neste país, se a gasolina se torna mais cara, tudo o resto se torna mais caro também”, conta Dmitry Sudakov, também do Pravda.

Pavel Kudyukin concorda. 
Mas lembra que os aumentos foram travados, para já, por uma medida administrativa que terá efeitos temporários. 
O aumento de outros bens de consumo, principalmente nos custos de transporte, conta, poderá, ainda assim, trazer problemas à agricultura durante o período de colheita.

José Milhazes faz uma análise semelhante e ressalva que, apesar dos preços dos combustíveis na Rússia serem muito mais baratos do que em Portugal, também os seus salários são menores do que os dos portugueses: “Claro que a questão do preço do gasóleo é um problema tremendo porque bate nos bolsos dos russos — apesar de o preço ser muito mais barato do que em Portugal, está acima dos 50 cêntimos por litro, mas o salário médio também não chega aos 600 euros, quase igual ao nosso mínimo. 
Isto bate muito forte nos russos, principalmente nos condutores de camiões que já têm feito bloqueios. 
São problemas muito maiores do que o futebol.”

E são estas preocupações, muito mais do que as de política externa, envolvam elas a proteção de Putin a Bashar al-Assad na Síria ou o acordo nuclear com o Irão, que estão diariamente na cabeça dos russos, como explica o co-presidente do Solidariedade Universitária.

“Na verdade, as pessoas comuns na Rússia não se preocupam muito com assuntos externos, há algum medo ‘arquetípico’ de guerra e há desconfiança para com o mundo exterior. 
Pode até ser algum tipo de mania de perseguição nacional, do estilo: ‘A Rússia é um país rico em recursos naturais, e todos gostavam de nos conquistar’. 
Mas, naturalmente, as principais preocupações são sobre os problemas do dia-a-dia — empregos instáveis, inflação, salários baixos, se há a possibilidade de dar boa educação às crianças, como não adoecer e assim por diante”, diz-nos Kudyukin.

Na Rússia, o salário mínimo é de 9.489 rublos (128 euros) e o ordenado médio ronda os 38 mil rublos (514 euros). 
Em janeiro de 2018, Vladimir Putin prometeu subir o valor do salário mínimo nacional de forma a igualá-lo ao índice mínimo de subsistência — a quantia mínima necessária para um cidadão cobrir todas as suas necessidades vitais e que se encontra nos 11.163 rublos (151 euros). 

Entre o comum dos cidadãos, não é este mas um outro anúncio do Presidente russo que causa mal-estar: uma eventual mexida na idade da reforma.

Pavel Kudyukin não nega que o aumento da idade da aposentação está no topo das preocupações, mas diz que não é a única em termos laborais. 
“O Governo quer aumentar a idade da reforma — 63 anos para as mulheres, 65 para os homens — e isso é uma preocupação central em termos de políticas sociais. 
Mas também há sérios problemas com as condições laborais que têm estado a piorar para quem trabalha na educação e no setor da saúde e isso tem consequências negativas para a qualidade do ensino e dos cuidados de saúde. 
Para além disto, tem havido estagnação nas receitas da maioria da população.”

Na Rússia, 13% da população vive abaixo da linha da pobreza. 
Este número traduz-se em 20 milhões de pessoas, o dobro da população portuguesa, número já considerado “alarmante” por Putin. 
Outros dados oficiais mostram que as dívidas põem quase 8 milhões de russos na falência. A desvalorização do rublo, as sanções económicas e a inflação, que afeta o preço de bens essenciais, têm tornado a vida mais difícil na Rússia. 
Saber que poderão passar mais anos a trabalhar é só mais uma acha na fogueira.

Kirill Martynov fala mesmo na falência do sistema de pensões, um problema que diz ainda não ter sido interiorizado pela maioria dos seus conterrâneos. 
“A idade da reforma é um problema sério. 
A reforma do sistema de pensões, que foi levado a cabo depois do colapso da União Soviética, tem falhado nos últimos anos e o Estado não tem dinheiro para pagar a um número crescente de reformados. 
A conclusão honesta é que não haverá pensões estatais na Rússia, mas poucas pessoas se aperceberam disto.”

Outro problema importante, apontado por Pavel Kudyukin e Kirill Martynov, é ambiental. 
“Na região de Moscovo, os depósitos de lixo têm levado a tumultos. 
E os impostos também estão a subir. 
Em geral, diria que a população está preocupada com o crescimento da pobreza. 
Há menos russos que podem, hoje em dia, viajar até à Europa ou enviar os seus filhos para terem alguma educação. 
E isto é um problema para a classe média, as pessoas pobres tentam apenas sobreviver”, sublinha o editor de política do Novaya Gazeta.





















Durante o Festival Europeu de Cinema em Berlim, o irlandês Mike Downey lembrou a situação de Oleg Sentsov

2 - A fome de Sentsov, o renascimento de Babchenko e a campanha anti-Rússia

Uma semana antes do início do Mundial, a Novaya Gazeta fazia manchete com a greve de fome de Oleg Sentsov. 
Desde 14 de maio, há 31 dias, que o cineasta ucraniano está em greve de fome numa cadeia russa pedindo não só a sua, mas a libertação de todos os presos políticos do seu país. 
E ao fazer uma greve de fome total, há um risco real de Sentsov morrer durante o Mundial. 
Com toda a atenção e solidariedade que o seu caso despertou na imprensa internacional, com manifestações de apoio ao cineasta até durante o Festival de Cannes, a sua morte seria uma mancha na imagem que a Rússia está apostada em passar para o exterior.

“Está tudo feito para que durante o campeonato não haja manifestações racistas, anti-Ocidente, ou o que for. 
Putin quer que tudo corra numa base de amizade e cooperação, como se dizia na velha União Soviética”, defende Milhazes. 
“Os olhos estão todos na Rússia. 
Os fãs de diferentes países vão estar sob controlo, por exemplo. 
Se alguns grupos extremistas russos se puserem em complicações com fãs de outros países, é porque o regime permite. 
Mas claro que pode haver imprevistos. 
Pode acontecer alguma coisa fora da Rússia, mas ligada à Rússia. 
Neste momento é como dizia o João Pinto, prognósticos só no fim do jogo.”

Entre os imprevistos está, claro, a morte de Oleg Sentsov, argumenta o jornalista português. 
“São as tais circunstâncias imprevisíveis. 
O cineasta está numa greve de fome total, pode morrer durante o Mundial, mas isso não vai fazer com que a seleção portuguesa volte para casa. 
Pode haver um ou outro jogador que se solidarize, mas… 
Os médicos já prometeram que o vão alimentar à força se chegar a hora H. 
Se ele morrer depois do campeonato, se calhar já ninguém se vai interessar.”

Embora no Facebook ou no Instagram as fotografias de Sentsov nunca tenham deixado de aparecer desde o início da greve de fome, Kirill Martynov diz que este caso é mais um fenómeno das redes sociais e que apenas um pequeno grupo de pessoas que se importa com a sua vida.

Pavel Kudyukin assente: “Infelizmente, esses eventos não são muito interessantes para a maioria dos meus concidadãos. 
A greve de fome de Oleg Sentsov é mencionada apenas por uma minoria de pessoas politicamente ativas. 
Nem todo mundo percebe que há o problema de as autoridades russas se recusarem a reconhecer Sentsov, e outros presos políticos da Crimeia, como cidadãos da Ucrânia. 
Após a anexação da península, a cidadania da Rússia foi imposta a todos os seus habitantes e, do ponto de vista da administração da Rússia, significa que eles perderam a cidadania ucraniana. 
É um absurdo, porque o Estado pode dar sua cidadania a uma pessoa, mas não pode privá-la da cidadania de outro Estado.”

Já Dmitry Sudakov acredita que poucos são os russos que saberão o nome do cineasta ucraniano: “Tenho certeza que muitos nem sabem quem é Sentsov, especialmente no verão, quando a maioria está é preocupada com as suas dachas [casas de verão], com os seus jardins e as férias.”

“Os media ocidentais cometem um erro enorme ao rotular como ‘líder’ da oposição qualquer pessoa que aparece à margem da sociedade russa. 
O líder da oposição é o líder do partido com segundo maior percentagem de votos, neste caso o Partido Comunista. 
Manifestações de marginais que não pagam o que devem ao fisco na Rússia não atraem ninguém. 
Parece que no Ocidente estes tipos de pessoas são considerados heróis”, acrescenta o colega de Sudakov no Pravda, Timothy Bancroft-Hinchey.

Para além de Sentsov, também a a morte e renascimento de Arcady Babchenko deu que falar nos media de todo o mundo. 
Neste caso, há muitos russos que acreditam que a postura da Ucrânia em todo este processo fez mais bem do que mal à imagem de Putin, contrariamente ao que os serviços secretos ucranianos teriam desejado.

No seu jornal, Kirill Martynov escreveu um artigo de opinião bastante crítico questionando onde estava a ética do jornalista russo que participou numa operação dos serviços secretos ucranianos, forjando a sua morte. 
O intuito era capturar os autores de ameaças de morte ao jornalista russo, tido como incómodo para Vladimir Putin. 
Mais uma vez, nas redes sociais, as discussões eram fortes e dividiam-se entre dois pólos: os que estavam felizes por o jornalista estar afinal vivo e os que consideravam que o melhor era ele ter continuado morto, já que o seu renascimento põe em causa todos os ditos assassinatos políticos que já terão acontecido até hoje.

José Milhazes acha que o tiro saiu pela culatra à Ucrânia: “A morte e o renascimento do Babchenko é a prova do idiotismo acabado dos dirigentes ucranianos, aquilo é uma cambada de bandidos que estão no poder do país, e que têm estas ideias peregrinas de fazer operações completamente impensadas, que são boas para os russos. 
Para a próxima vez, ninguém acredita, é como a história do Pedro e do lobo.”

Aliás, o português diz que “a propaganda russa” já está a aproveitar a oportunidade, dizendo que a Ucrânia poderá invadir as regiões separatistas do Leste, para recuperar esses territórios, durante o campeonato do mundo. 
Esta segunda-feira, relata o jornalista, já se dizia que os ucranianos iriam mandar abaixo um helicóptero com uma delegação da União Europeia que ia visitar o leste da Ucrânia para depois acusar os separatistas russos de serem os autores do atentado.

A Ucrânia, acredita Milhazes, não é a única a fazer favores inesperados à Rússia e o Mundial pode ser um momento muito importante para o Presidente russo. 
“Putin tem agora oportunidade de ouro em todos os sentidos. 
O Ocidente, sem que o presidente se mexa, faz-lhe favores absolutamente únicos. 
É o caso do que aconteceu no G7, quando Trump veio dizer que devem receber a Rússia de volta. 
Para Putin é ouro sobre azul. 
Ele anda a dizer que o seu objetivo não é voltar — claro que é mentira — mas imagine que ele regressa imposto pelo Trump. 
É uma vitória enorme.”

O G7, que esteve reunido no fim-de-semana de 9 e 10 de junho e de onde saiu uma foto viral que ilustra bem o mal-estar entre os participantes, é composto pelo Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos. 
Anteriormente chamado de G8 contava também com a presença da Rússia, mas a sua participação no grupo foi suspensa em 2014 no auge da crise da Crimeia.

E estas campanhas anti-Rússia ou anti-Ocidente, que variam consoante o ponto cardeal de onde olhamos para elas, preocupam os russos? 
Milhazes acha que não: “Os cidadãos vão continuar a acreditar que há uma campanha anti-Rússia, porque a propaganda vai continuar na mesma, a não ser que haja uma viragem muito grande no campo internacional. 
A campanha anti-Ocidente vai acalmar um bocadinho durante o Mundial e não vai haver hostilidade aberta em relação aos estrangeiros para não estragar a imagem do país.”

Este cenário, recorda Milhazes, já aconteceu na União Soviética nos Jogos Olímpicos de 1980, altura em que também foi montada uma enorme operação de charme. 
“A única coisa que estragou aquilo foi a invasão do Afeganistão que levou ao boicote de parte dos países. 
A essência, naquela altura, era mostrar que a União Soviética era uma grande potência, que era superior ao mundo capitalista nos desportos e Putin está a repetir essa política. 
Está a tentar mostrar um país mais forte, militarmente e no sentido de organização. 
Claro que o futebol russo não é capaz de mostrar resultados como mostravam os outros atletas soviéticos, mas a ideia de o país receber bem, ser hospitaleiro, não haver hostilidades é muito importante para o regime. 
E tudo vai ser feito com muito cuidado, porque se acontecer alguma coisa é uma escandaleira que pode manchar o campeonato.”

De Moscovo, as palavras de Dmitry Sudakov vão exatamente no sentido de haver essa campanha contra a sua terra-mãe. 
“A Rússia foi muito demonizada nos media ocidentais. 
Mas quando as pessoas comuns chegarem aqui para o Mundial vão ver que tudo é muito diferente do que é escrito pela imprensa. 
E esperamos que a maioria dos estrangeiros adore estar aqui. 
Por isso, acho que o Mundial vai ser muito positivo para a Rússia no meio de todos os escândalos que, ultimamente, o Ocidente tem zelosamente arranjado para o nosso país.”

Timothy Bancroft-Hinchey concorda com esta análise e insiste que tem havido muita difamação na imprensa internacional contra a Rússia e o seu Presidente, um homem que, segundo o jornalista britânico, é respeitado pela grande maioria dos russos: é visto como um patriota que zela pelos interesses do povo. 
“O Mundial vai ser visto por muitos como a maneira de mostrar a Rússia como ela é: um país ‘normal’ como qualquer outro, não uma ditadura, não um país homofóbico — esta questão gira à volta da questão de proibir a mostra de imagens pornográficas e homossexuais a menores, mais nada —, mas sim um país acolhedor, cheio de cultura, de oportunidades, amizade e boa vontade. 
Muitos russos sentem-se magoados por esta onda de mentiras na imprensa mundial.”

Tal como noutras questões, também aqui encontramos duas escolas de pensamento. 
A posição de Kirill Martynov e Pavel Kudyukin é diametralmente oposta à dos jornalistas do Pravda.

“Nos últimos anos, muitos políticos têm falado na questão de isolamento da Rússia. 
Para os apoiantes de Putin, o Mundial é a prova de que não há isolamento algum. 
Para os seus opositores, e para mim pessoalmente, a celebração do desporto na Rússia é um paradoxo político. 
Estamos em guerra com os nossos vizinhos, temos centenas de presos políticos encarcerados, mas o mundo inteiro está contente por vir jogar futebol connosco. 
Para a nossa política interna, há duas interpretações possíveis. 
A primeira sugere que o Mundial está a proteger o regime de Putin de ações muito duras, levando a uma liberalização temporária. 
A segunda é que as medidas de segurança não serão levantadas depois do Mundial e um regime policial será implementado no país depois de o último jogador de futebol ter voltado para casa”, refere o editor de política do Novaya Gazeta.

Já o co-presidente do Solidariedade Universitária, defende que muitos russos acreditam na propaganda de Putin sobre uma campanha anti-Rússia, “se é que sequer pensam nisso”. Na sua opinião, a melhor maneira de melhorar a imagem do país no exterior seria mudar a política externa e doméstica e não com um campeonato de futebol.






















3 - Está na hora de tentar o xeque-mate diplomático

Se há países que já assumiram um boicote ao Mundial russo, outros há que parecem disponíveis para se sentar nas tribunas. 
É certo que não haverá quaisquer membros da família real ou políticos britânicos na Rússia a assistir ao Mundial. 
O anúncio, feito por Theresa May, chefe do governo britânico, levou a uma onda de solidariedade entre outros países. 
Polónia, Islândia, Dinamarca, Suécia, Austrália e Japão também não terão altos dirigentes presentes, todos pelo mesmo motivo: acreditam que foi o Kremlin quem orquestrou o envenenamento do agente duplo russo, Sergei Skripal, com um agente nervoso em território britânico.

Já Angela Merkel, chanceler alemã, não descarta a possibilidade de viajar até Moscovo, assim como Emmanuel Macron. 
O presidente francês pondera assistir ao jogo se a seleção do seu país chegar às semifinais. 
E sobre a viagem e os diferendos com Putin, Merkel afirmou: “Se não falarmos um com o outro, dificilmente encontraremos alguma solução.”

É por isso que José Milhazes acredita que enquanto nos relvados se jogar futebol, nas bancadas, os altos dirigentes políticos vão mover-se no tabuleiro de xadrez político.

“Este campeonato pode ser interessante nesse sentido, por ser de uma diplomacia intensa, por poder ser aproveitado como uma maratona diplomática. 
Alguns dirigentes de países importantes para a Rússia vão lá estar. 
Macron e Merkel poderão lá estar e isso significa que está presente a União Europeia. Por isso, muitos analistas dizem que este momento pode servir para uma certa aproximação entre a Europa e Rússia, num momento, depois do G7, que estão todos chateados com o Trump", defende Milhazes.

Os contactos informais podem ser valiosos, já que permitem a Putin aproximar-se de outros políticos que, noutras circunstâncias, não estariam tão à mão de semear, diz o jornalista. “Parece que há uma possibilidade de Portugal jogar com a Rússia e não excluo a possibilidade de o nosso Presidente se encontrar com Putin, nem que seja durante 5 minutos na tribuna. 
E estar de uma forma diferente, informal, pode criar um ambiente que desanuvie a tensão. Vai lá estar a seleção do Irão. 
E se lá for o aiatolá Ali Khamenei ver o jogo? 
E se se sentar ao lado da Merkel? 
Até podem falar do acordo nuclear que o Trump decidiu anular. 
Podemos ter ali uma espécie de cimeiras que poderão servir como elo de ligação para discutir questões internacionais”, explica José Milhazes.

No caso de Portugal, nos três jogos de apuramento da seleção, a presença política está garantida: Ferro Rodrigues assistirá à primeira partida, Marcelo Rebelo de Sousa à segunda e António Costa à terceira.

Mas lembra Milhazes: se, em termos de golos, é difícil saber quais serão os golos, também na diplomacia é difícil saber quem será campeão. 
“Na diplomacia, não há só vencedores e vencidos, há empates. 
E a taça não vai só para casa de um.”






















4 - E o futebol, senhores? Ninguém quer saber do futebol?

Há sete jogos que a seleção russa não ganha uma partida de futebol. 
E quando entrar em campo para disputar a Arábia Saudita, no jogo inaugural desta quinta-feira, há um recorde que já está batido: há 84 anos que não acontecia o anfitrião do Mundial de Futebol estar há seis meses sem vencer um jogo.

Por isso, há uma distinção a ser feita. 
Na opinião de Dmitry Sudakov, os russos estão satisfeitos por receber o Mundial, mas a seleção nacional é mais alvo de críticas do que de aplausos. 
“O futebol é um dos jogos mais populares, se não o mais popular na Rússia. 
No entanto, não diria que os russos estão orgulhosos do futebol, porque a seleção não tem jogado muito bem. 
Há muitas críticas aos jogadores e há quem diga que o futebol russo é uma desgraça. Mas se a Rússia vencer algo, o triunfo nacional será esmagador.”

Embora nem todos sejam adeptos de futebol, Sudakov diz, por exemplo, que o hóquei no gelo é maior motivo de orgulho para os russos, e que o Mundial é uma oportunidade de mostrar o orgulho no país mais do que na seleção. 
E por ali, acredita, não haverá protestos como aconteceu com o Brasil, no Mundial de 2014, porque todos “amam o futebol”.

“A nossa situação é muito diferente da brasileira. 
A maioria das pessoas não vê problemas no Mundial, estão orgulhosas dele. 
Consideram que o campeonato é mais uma confirmação da grandeza da Rússia, que começou com os Jogos Olímpicos de Sochi, há quatro anos e meio”, acrescenta Kirill Martynov.

A confirmação chega com sotaque britânico: “Diria que, globalmente, os russos abraçam o Mundial como uma maneira de mostrar que a Rússia é fixe, que os russos são bacanos, que gostam de se divertir, adoram brincar, adoram o ar livre, adoram festas e churrascos e no verão passam a maior parte do tempo nas florestas, ou nas dachas, a cultivar pepinos e tomates para fazer pickles e compotas. 
Muita gente está mais virada para isso do que para os estádios de futebol. 
Mas eu, que faço os relatórios de desporto no Pravda. 
Eu, prevejo uma final Portugal vs. Brasil, 2-1 vence Portugal”, afirma Timothy Bancroft-Hinchey.

E os golos, serão de quem? 
“Quaresma e CR7, de quem mais haveria de ser?”