domingo, 15 de julho de 2018

Hells Angels: um dos detidos já esteve preso pela morte de Alcindo Monteiro

Hells Angels
Valentina Marcelino  13 Julho 2018  07:00



















A PJ reconheceu que há membros dos Hells Angels que são skinheads, como é o caso de, pelo menos, dois dos detidos.

Nuno Monteiro, um dos 59 detidos da megaoperação da PJ contra a organização Hells Angels (HA), cumpriu uma pena de 18 anos pelo homicídio qualificado de Alcindo Monteiro, o cabo-verdiano morto à pancada a 10 de junho de 1995, no Bairro Alto. 
O grupo de cabeças-rapadas, que integrava Nuno Monteiro, agrediu violentamente outros seis indivíduos de raça negra, tendo deixado dois deles inconscientes no chão e Alcindo morto. 
Foi também condenado por seis crimes de ofensas à integridade física qualificadas.

Outro dos detidos, Eduardo Nuno da Silva de Lima Pereira, que era líder dos HA na Margem Sul, mais conhecido como Rambo, é outro skinhead e foi arguido em alguns processos de discriminação racial, investigados pela PJ. 
Tal como Nuno Monteiro, pertencia ao grupo de Mário Machado - que também cumpriu pena por agressões no Bairro Alto, na noite da morte de Alcindo - e partilhou com ele outros inquéritos da Judiciária contra a extrema-direita. 
Em causa crimes de discriminação racial e um de sequestro, segundo apurou o DN junto a fonte judicial.

Embora tenha afirmado que os crimes em causa na operação contra os HA não tiveram "motivação político-ideológica", a coordenadora da Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ, Manuela Santos, confirmou que que há alguma ligação entre os Hells Angels e a extrema-direita, pelo facto de "muitos dos seus elementos também pertencerem a grupos de skinheads".

Maioria dos crimes cometidos no Prior Velho

Nesta investigação da PJ, os 59 detidos (até ao momento, pois ainda há mandados de detenção europeus por cumprir) estão indiciados em vários crimes graves e violentos, como tentativa de homicídio, ofensas graves à integridade física, posse ilegal de armas, roubo, danos e associação criminosa. 
A maioria estão relacionados com os atos violentos de março passado num restaurante do Prior Velho.

Estavam ali reunidos membros dos Bandidos, outra organização de motards que pertence aos fora-da-lei Bikers 1% e são rivais dos Hells Angels, a preparar a criação de um núcleo em Portugal. 
À cabeça estava Mário Machado, que tem um historial de conflitos com os Hells Angels, do tempo em que liderava a fação mais violenta dos cabeças-rapadas no nosso país, os Portuguese Hammerskins.

Cerca de 40 hells angels atacaram os elementos do grupo com paus, barras de ferro e facas, tendo ferido seis deles. 
"Esta associação criminosa já existe em Portugal desde 2002 e é um fenómeno que tem vindo a crescer em número de pessoas e em manifestações mais violentas. 
No Prior Velho foi a primeira vez que houve uma manifestação tão poderosa e em força como uma associação criminosa", afirmou a coordenadora da UNCT, acrescentando que foi a primeira vez que estes elementos atuaram em grupo "com o objetivo comum de eliminar a concorrência".

Os detidos estão a ser ouvidos no Tribunal de Instrução Criminal. 
Um deles foi detido na Alemanha.

Hells Angels. "Foi uma machadada na organização do grupo", diz PJ

Hells Angels
Valentina Marcelino  11 Julho 2018  18:49



















PJ diz que os crimes alegadamente cometidos pelos 56 membros detidos "não tiveram motivação político-ideológica", mas confirma que o grupo motard tem muitos skinheads

Foi uma machadada na organização do grupo", sorriu Manuela Santos, a coordenadora da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária (PJ), que esteve ao comando da megaoperação esta quarta-feira contra os motards Hells Angels, no âmbito da qual já foram detidos 56 pessoas.

Em conferência de imprensa esta tarde na sede da PJ, esta responsável, que tinha ao seu lado o novo Diretor Nacional da PJ, Luís Neves, revelou que os detidos estão indiciados por vários crimes graves e violentos, como tentativa de homicídio, ofensas graves à integridade física, posse ilegal de armas, roubo, danos e associação criminosa. 
A investigação, afirmou Luís Neves, teve o apoio dos Serviços de Informações de Segurança (SIS) , que já tinham identificado esta "ameaça à segurança", da GNR e da PSP.

Questionada sobre as ligações dos Hells Angels à extrema-direita, Manuela Santos assinalou que os crimes visados nesta operação específica "não tiveram motivação político-ideológica". 
No entanto, confirmou que há alguma ligação entre os Hells Angels e extrema-direita, pelo facto de "muitos dos seus elementos também pertencerem a grupos de skinheads".

Os detidos têm idades entre os 30 e os 50 anos e entre eles estão cinco estrangeiros, nomeadamente alemães e um finlandês. 
As autoridades também emitiram vários mandados de captura europeus e são esperadas mais detenções de elementos visados nos mandados de detenção, mas que não se encontram de momento em Portugal.

Entre os detidos, disse a coordenadora, há pessoas que pertencem a empresas de segurança privada, mas nenhum elemento de forças de segurança.

"É uma questão de liberdade"

"É uma questão de liberdade", assinalou Luís Neves logo na abertura da conferência de imprensa: "A Polícia Judiciária nunca o permitirá que a liberdade não seja um acento tónico em qualquer ponto do território nacional". 
No final do encontro com os jornalistas, Luís Neves salientou que os Hells Angels estavam a adquirir, pela violência, supremacia entre os grupos motards e, "coagindo-os" a criar "um clima de terror e medo". 
Nesse sentido, "foi restituída a liberdade a todos os grupos que se estavam a sentir condicionados para que possam continuar a participar livremente e sem medos os seus convívios".
O Diretor da PJ, Luís Neves, e a coordenadora da Unidade Nacional de Contraterrorismo, Manuela Santos, responsáveis pela detenção de 56 Hells Angels

A PJ admitiu que a realização, nos próximos dias 19 a 22 de julho, da concentração de motards em Faro acabou por acelerar esta operação. 
"Não seria bom haver esta oportunidade para mais conflitos", afirmou Manuela Santos. 
A responsável revelou que os Hells Angels são alvo de atenção da PJ "há vários anos", com diversos inquéritos abertos, mas que foi o caso do Prior Velho "a primeira manifestação tão poderosa e em força como associação criminosa. 
Foi a primeira vez que 100 elementos atuaram em grupo com o objetivo comum de eliminar a concorrência".

Este episódio aconteceu em março passado, num restaurante daquela localidade. Estavam ali reunidos membros dos "Bandidos", outra organização de motards que pertence aos fora-da-lei "Bikers 1%" e são rivais dos Hells Angels, a preparar a criação de um clube em Portugal. 
À cabeça estava Mário Machado, que tem um historial de conflitos com os Hells Angels, do tempo em que liderava a fação mais violenta dos "cabeças rapadas" no nosso país, os Portuguese Hammerskins.

Acabado de sair da prisão, em liberdade condicional, depois de condenado por vários crimes graves (extorsão, agressões, posse ilegal de arma), o também fundador do movimento Nova Ordem Social, que foi candidato à liderança da Juve Leo, reuniu os "Bandidos" para criar um núcleo português e conquistar território aos negócios dos Hells Angels. 
Um dos seis feridos pelas alegadas agressões seria um alemão, líder dos Bandidos naquele país, que, contou o Correio da Manhã, ali se encontrava para apadrinhar o evento.

Manuela Santos afiançou que os Hell Angels estão instalados em Portugal desde 2002 e que tem sido acompanhado pela PJ desde sempre. 
"É um fenómeno que tem vindo a crescer em número de pessoas e em manifestações mais violentas", sublinhou a coordenadora da UNCT.

Hells Angels: autoridades temeram atropelamentos em massa e tiroteios

Hells Angels
Valentina Marcelino 15 Julho 2018  07:00



















Como as secretas e a Polícia Judiciária trabalharam para dar a "machadada" em Portugal ao maior gangue de motards do mundo.

Portugal despertou para o fenómeno dos gangues rivais de extrema-direita, motoqueiros e perigosos, em março deste ano, no ataque a um restaurante no Prior Velho dos Hell"s Angels sobre os Bandidos, encabeçado por Mário Machado. 
Mas a PJ já os conhecia há uns anos. 
Estavam debaixo de vigilância, e o que aconteceu no Prior Velho foi fulcral para identificar os envolvidos.

Este trabalho de identificação já tinha sido feito quando, há cerca de uma semana, o SIS veio alertar para o elevado risco da habitual concentração de motards em Faro - que está prevista para os próximos dias 19 a 22 - se transformar num banho de sangue. 
Em causa estava a previsível retaliação dos Bandidos contra os Hells Angels pela humilhação sofrida no ataque de março no Prior Velho.

O Diretor Nacional na PJ, Luís Neves, ouviu com atenção o que Neiva da Cruz, o Diretor do Serviço de Informações de Segurança (SIS) lhe confidencio, reforçando a preocupação que os seus inspetores já lhe tinham antes transmitido sobre a ameaça em relação a esse encontro. 
Os espiões tinham relatos de movimentações de elementos dos Bandidos na cidade de Faro - possivelmente estariam a reunir e a esconder antecipadamente armas, para que não fossem detetadas pelas autoridades nas habituais operações stop que antecedem o evento motard.

As secretas admitiam ainda a possibilidade de os Bandidos entrarem no recinto do encontro motard em carrinhas pick up, que alugariam em Espanha, para atropelar membros dos Hells Angels - um pouco à semelhança de outros ataques terroristas internacionais. 
Com milhares de pessoas no terreno - estes encontros costumam reunir milhares de participantes -, as vítimas colaterais seriam inevitáveis.

Toda esta operação seria executada por uma unidade musculada dos Bandidos, composta essencialmente por elementos alemães, que se deslocariam propositadamente a Portugal . São designados pelos TCB: "Taking Care of Bussiness". 
Cerca de uma centena estaria junto à fronteira espanhola, prontos para serem chamados.

O SIS insistiu para o perigo iminente, insistiu nos riscos de conflitos sangrentos e apelou a que fossem tomadas medidas para proteger os outros motards e famílias sem quaisquer ligações a estes grupos com atividades criminosas que estariam em Faro, e em risco. 
Para as secretas a ameaça era real. 
Para a PJ também não havia mais tempo a perder.

A imagem de um tiroteio entre Bandidos e Hells Angels num contexto com elevado número de pessoas era aterrador. 
Luís Neves decidiu então avançar para o terreno e em força, com mais de 400 inspetores, no que acabou por ser a grande operação de ataque a este gangue em Portugal, com conhecidas ligações à extrema-direita, na passada quarta-feira. 
Foi dada a "machadada" na organização, como reconheceu a coordenadora da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ, Manuela Santos, responsável pela operação.

Motoqueiros e perigosos

"É uma questão de liberdade", declarou Luís Neves, logo na abertura da conferência de imprensa no dia da megaoperação. 
"A Polícia Judiciária nunca permitirá que a liberdade não seja um acento tónico em qualquer ponto do território nacional". 
Salientou que os Hells Angels estavam a adquirir, pela violência, supremacia entre os grupos motards "coagindo-os" a criar "um clima de terror e medo".

Nesse sentido, assinalou, "foi restituída a liberdade a todos os grupos que se estavam a sentir condicionados para que possam continuar a participar livremente e sem medos os seus convívios". também não deixou margem para dúvidas sobre o timing da operação: "Não seria bom haver esta oportunidade para mais conflitos", disse Manuela Santos, na mesma conferência de imprensa.

Mas, claro que não é apenas a segurança dos motards de Faro que estava em causa. 
No Relatório Anual de Segurança Interna sobre o ano de 2017, os serviços de informações revelaram pela primeira vez que estes gangues representavam uma ameaça à segurança nacional, destacando-se nas atividades de segurança em estabelecimentos de diversão noturna. 
Neste momento, uma empresa que, segundo fontes do setor, tem fortes ligações aos Hells Angels, já domina 70% do mercado de diversão noturna em Lisboa e no Algarve.

O relatório dizia que "um dos principais grupos identificados com agentes de ameaça neste setor são os denominados biker 1%, sobretudo, porque não hesitam em recorrer ao uso da força para se imporem no meio e para extorquir os proprietários dos estabelecimentos". 
Por outro lado, acrescentavam os serviços de informações, "os clubes bikers Motorcycle Club 1% constituem ainda uma preocupação securitária acrescida pelas outras atividades criminosas que praticam".

Desde que os Hells Angels abriram o seu primeiro núcleo em Portugal, a que chamam charter, em 2002, os Hells Angels Motor Club Lisbon, que a PJ lhes segue o rasto. 
Na investigação aberta ao caso do Prior Velho foram incorporados outros dois inquéritos mais antigos a envolver suspeitos coincidentes. 
Um deles estava sujeito a medidas de coação, por ter sido apanhado em flagrante na posse de várias armas, entre as quais uma pistola metralhadora. 
Foi este que entrou no restaurante do Prior Velho, onde os Hells Angels atacaram os Bandidos, à cabeça do grupo, com a cara destapada, numa atitude de declarado desafio às autoridades.

Os Bandidos são históricos rivais dos Hells Angels, no mundo, e tanto a PJ como o SIS sabiam de antemão que qualquer movimentação para se instalarem e concorrerem com os HA resultaria em problemas. 
Em 2015 já tinha havido uma tentativa dos Bandidos criarem um núcleo em território nacional. 
Deslocou-se a Portugal um dos líderes alemães que ainda conversou com cinco motards. Passados alguns dias estes foram espancados por Hell Angels e desistiram da ideia.

Dois minutos de terror

No caso do Prior Velho, diversas câmaras de videovigilância próximas e em vários pontos por onde passaram - incluindo no aeroporto onde foram buscar alguns "irmãos" que vieram do estrangeiro para este ataque aos rivais - facilitaram a sua identificação, bem como a de outros cerca de quatro dezenas que participaram diretamente.

À medida que iam avançando na investigação - que durou menos de quatro meses - os inspetores da UNCT construíram e consolidaram a ideia de que aquela ação tinha sido planeada com antecipação, ao pormenor, quer na sua logística, quer nos elementos recrutados em Portugal e no estrangeiro. 
Foram inclusivamente detetados seguimentos e vigilâncias a Mário Machado, o principal alvo.

O que os inspetores viram nas imagens recolhidas do local mostrava uma organização paramilitar, que se dividiu entre os que entraram no restaurante, os que se mantiveram ao volante das viaturas, prontos a fugir, os que ficaram a vigiar na rua, os que fizeram o perímetro de segurança.

Entre o momento em que entraram no restaurante, com bastões, facas, correntes, martelos e paus, e a sua retirada, passaram pouco mais de dois minutos. 
A chegada rápida da PSP acabou por evitar uma tragédia maior. 
Seis dos 15 homens que estavam com Mário Machado no restaurante ficaram feridos, três deles com muita gravidade, tendo sido sujeitos a intervenções cirúrgicas. 
Os outros sete, entre os quais o próprio Machado, conseguiram fechar-se numa arrecadação e escapar.

A próxima missão das autoridades será impedir que outro gangue ocupe o espaço vazio deixado pelos Hells Angels.

As histórias que fazem dos Hells Angels “o maior e mais perigoso” grupo de motards do mundo /premium

Hell Angels
Marta Leite Ferreira e Sara Antunes de Oliveira        13 Julho 2018

Chegaram a Portugal pela mão de um emigrante na Alemanha que acabou sequestrado por querer desistir. Não serão mais de 100, mas a PJ descreve-os como altamente organizados e muito perigosos.

Nos cadernos de uma investigação que começou há vários anos e culminou nas detenções desta quarta-feira, os indícios de tráfico de armas são os mais antigos. 
Há muito que a Unidade Nacional Contra Terrorismo da Polícia Judiciária (PJ) procurava encontrar o rasto de um esquema de circulação de armamento, concentrado sobretudo no Algarve, e as mãos que o lideravam. 
Os investigadores sabiam que era ali o ponto de entrada de armas vindas do estrangeiro — distribuídas depois em todo o país — e suspeitavam que os responsáveis faziam do negócio uma das principais fontes de rendimento de um grupo, também ele, seguido de perto pelas autoridades — os Hells Angels.

Nas cerca de 80 buscas feitas em vários pontos do país, um dos focos foi encontrar mais elementos que pudessem ajudar a sustentar a tese e não faltam armas entre os objetos apreendidos. 
Os inspetores recolheram mais de 10 armas de fogo, de vários calibres, soqueiras, bastões, tasers e muitas facas de mato, entre outras. 
Seriam todas para uso de quem as tinha e o conjunto não inclui as que seriam traficadas, mas isso também não era esperado. 
Fonte próxima do processo explica que “o tráfico de armas é como o da droga: entram e saem, não ficam paradas”. 
Ainda assim, o material apreendido é considerado muito relevante e permite juntar a suspeita à longa lista de crimes imputados aos 59 detidos (58 em Portugal, um no estrangeiro): tentativa de homicídio, roubo, ofensa à integridade física, associação criminosa, extorsão e posse ilegal de armas.

Em tese, poderiam ser crimes praticados por alguns elementos de um simples clube de amantes de motociclismo, mas a PJ segue a linha da Europol e do Departamento de Segurança norte-americano: os Hells Angels são, por si só e como um todo, uma organização criminosa, unida internacionalmente por valores, símbolos e convicções, mas autónoma em cada país no controlo de núcleos ligados, sobretudo, ao tráfico de droga, segurança ilegal e prostituição forçada. 
Lá fora como cá, a fachada do motociclismo serve dois propósitos: justifica a existência dos clubes, de forma pública, e o negócios das lojas (cujo monopólio lhes pertence) ajuda a financiar as outras atividades ilícitas ou a branquear o produto dos crimes.

A chegada a Portugal pela mão de um emigrante

O fenómeno é relativamente recente em Portugal. 
Ao Observador, Rui Pereira, ex-presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade e Terrorismo (OSCOT), explica que a atividade dos Hells Angels por cá, com o estabelecimento de núcleos, só começou em 2002, quarenta anos depois de ter chegado ao resto da Europa. 
Veio pelas mãos de Fernando Fortes, um emigrante português que conviveu pela primeira vez com os Angels quando vivia na Alemanha e que acabou sequestrado pelo grupo, três anos depois, quando quis desistir. 
A história é citada numa tese académica feita por Edgar Palma, um mestrando em Direito e Segurança da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa: em julho de 2005, Fernando Fortes foi espancado por seis ex-companheiros dos Hells Angels e sequestrado, juntamente com a companheira. 
No tempo de cativeiro, foi obrigado a assinar documentos que cediam a um dos agressores os direitos do domínio da Internet usado pelo grupo e ficou sem uma Harley Davidson, avaliada em seis mil euros. 
A mota acabaria por ser recuperada, dias depois, na sequência da queixa apresentada pelas vítimas na GNR. 
Os agressores foram condenados a penas de prisão suspensas, por ofensas à integridade física, sequestro, coação, roubo agravado e extorsão simples na forma tentada.
Membros dos Hells Angels numa manifestação, em 2017, em Berlim.
Poderia ter sido o fim dos Hells Angels em Portugal (até porque os agressores acabaram por ser expulsos), mas a entrada de novos membros, alguns deles estrangeiros, acabou por trazer uma nova dinâmica, que impulsionou a expansão. 
É mais ou menos desde essa altura que são seguidos, de forma atenta e permanente, pelas autoridades portuguesas, sobretudo pela Unidade Nacional Contra Terrorismo da PJ, responsável pelas detenções desta semana.

Nas contas das forças policiais, os Angels têm agora, em Portugal, um número considerável de admiradores, mas os membros do cinco clubes nacionais não serão mais de 100, divididos por Porto, Lisboa, Cascais, Margem Sul e Algarve. 
Dito assim, parece pouco, mas a descrição feita mostra que o número é irrelevante: a PJ diz que são altamente organizados, muito perigosos e extremamente violentos. 
A organização interna é, aliás, uma das grandes forças dos Hells Angels: são uma estrutura hierarquizada, fechada e muito voltada para dentro. 
Na tese sobre o grupo, Edgar Palma explica, até, que é muito difícil a “intrusão de agentes infiltrados, não só pelos requisitos exigidos, mas também devido ao risco que pode representar o violento processo de separação”.

Rui Pereira acredita, ainda assim, que foi esse o caso no processo que levou às detenções desta semana: “Para uma operação desta natureza acontecer é porque a PJ tinha informadores no interior dos Hells Angels, garantidamente”, diz o ex-presidente do OSCOT. Uma estratégia que terá ajudado os investigadores a conhecerem, ao pormenor, as rotinas de cada um dos suspeitos, a anteciparem eventuais fugas de informação, que comprometessem a operação, e a descobrirem “o tempo, o lugar e o modo” mais adequados para avançar para o terreno.
A coordenadora de investigação da PJ, Manuela Santos (D), acompanhada pelo diretor nacional, Luís Neves, na conferência de imprensa sobre a operação.

A Judiciária revela poucos detalhes e a Procuradoria Geral da República fala apenas numa “operação complexa” para o “desmantelamento de uma associação criminosa”, mas o Observador sabe que foi uma intervenção considerada “de alto risco” e preparada com grande detalhe, por se tratarem de suspeitos considerados perigosos, muito violentos e altamente organizados.

Mário Machado e o plano de vingança que precipitou as detenções

A imagem passou em todas as televisões: Mário Machado, antigo líder do grupo de extrema-direita Hammerskins, rosto de declarações polémicas e condenações por crimes violentos, fixava as câmaras enquanto passava o polegar pelo pescoço, como se cortasse a própria garganta. 
A mensagem era clara e tinha como destinatários os homens dos Hells Angels que, horas antes, tinham invadido um restaurante no Prior Velho, armados com facas, barras de ferro e marretas para o agredir.

Foi o ponto mais extremo de uma rivalidade que, ao Observador, Machado garante que começou com um episódio insólito. 
“Eu tinha uma relação cordial com eles e até era fiador deles, mas, há uns oito anos, um amigo meu roubou-os e eles queriam fazer-lhe mal. 
O Nuno Cláudio Cerejeira — que por acaso é sobrinho neto do cardeal Cerejeira — fugiu para Lisboa e entrou na casa da minha mãe a chorar e a dizer que os Hells Angels o queriam matar. 
Imagine o que é ver um homem gordo, nós até lhe chamávamos Gordo, com a cabeça toda tatuada, a chorar em casa da minha mãe
Eu tinha de fazer alguma coisa, por isso liguei para eles e pedi-lhes para não fazerem mal ao Gordo, porque ele é meu amigo e tinha estado preso comigo. 
Como eles disseram que iam fazer mal na mesma, eu fui lá abaixo com o Gordo. 
Ele ficou no carro e eu dei um tiro ao presidente”, recorda.
Mário Machado, ex-líder dos Hammerskins

Mário Machado acabaria por juntar-se a uma filial dos Los Bandidos, histórico rival dos Hells Angels. 
Diz que a tensão sempre foi grande, também por causa do negócio do motociclismo: “Eles querem o monopólio em Portugal. 
Tudo o que é lojas de tatuagens, bike shows, merchandising… é tudo deles. 
Se abre um novo motoclube — eu quis abrir um que tinha potencial chamado 1% e, como eles sabiam que tinha potencial, isso ainda aprofundou mais as nossas divergências — eles chegam ao pé de dois ou três e dão-lhes ordens para mudar os símbolos. 
Alguns desses motoclubes já gastaram mais de quatro mil euros para mudar os dizeres daquilo que vendem, a mando dos Hells Angels. 
Sei de mais de 30 motoclubes em que isso aconteceu. 
Há 17 anos que é assim”, diz Mário Machado.

As autoridades acreditam, contudo, que foi a concorrência entre os dois grupos nos negócios de droga e da prostituição que tornou a convivência insustentável e acabou por conduzir ao episódio do Prior Velho. 
Um episódio muito violento que, ainda assim, permitiu à Polícia Judiciária encontrar brechas para “entrar” na organização dos Angels e recolher dados sobre as atividades criminosas que praticavam, numa investigação que tinha começado ainda em 2016. 
Certos de que as agressões no tal restaurante, em março, não ficariam sem resposta, os investigadores acabaram por perceber que a vingança estava muito próxima — provavelmente já na próxima semana, na concentração motard de Faro. 
Foi o sinal de alarme que precipitou a ida de 400 inspetores para o terreno, na operação desta quarta-feira, que permitiu, segundo a PJ, decapitar o topo da hierarquia dos Hells Angels. 
Entre os detidos está, aliás, o atual líder do grupo: segundo o Público, é um homem de quase 70 anos, mestre de artes marciais e, até agora, sem cadastro.

O maior e mais perigoso grupo de motards

Os Hells Angles nasceram nos Estados Unidos, a 16 de março de 1948, a seguir à II Guerra Mundial e pela mão de veteranos, mas, segundo José Manuel Anes, também ex-presidente do OSCOT, não são apenas mais um dos muitos grupos motards com as mesmas raízes. 
É certo que há outros importantes, como os Outlaws, os Bandidos ou os Pagans, mas este merece mais atenção das autoridades de vários países: com alguns dos membros ligados a atividades criminosas relacionadas com o tráfico de droga, de armas e o proxenetismo, os Hells Angels são considerados “o maior e mais perigoso” grupo de motards do mundo.

Isso mesmo é verificado pelos relatórios anuais sobre criminalidade redigidos pelo governo dos Estados Unidos: “Na Califórnia, há cerca de 50 grupos de motociclistas ilegais, com um número de membros estimado em 1.500. 
Os Hell Angels e os Mongols são as duas organizações de topo desta natureza, com o maior número de membros no estado. 
As autoridades desconfiam que o tráfico de drogas é a fonte de rendimentos principal dos dois gangues. 
Desde que nasceram e até à atualidade, cresceram por todo o país e saltaram fronteiras até chegar à Europa. 
E, lá como aqui, são associados a alguns dos crimes mais graves: “Hoje os Hells Angels são considerados pelas autoridades uma das maiores organizações de distribuição de drogas nos Estados Unidos. 
São conhecidos os tráficos de metanfetaminas, anfetaminas, cocaína, marijuana, haxixe, LSD, heroína, fenciclidina, ecstasy, metaqualona, secobarbital, esteróides, STP, MDA, mescalina e outras drogas.

Na página oficial do grupo, no entanto, as raízes ligadas aos combatentes da II Guerra Mundial e aos antigos membros do Grupo de Bombardeamento Hells Angels B-17 são negadas: “Tem sido dito que estes antigos militares seriam bêbedos, desajustados e de uma forma geral soldados marginais, que nunca se adaptaram a um ambiente de paz. 
Se alguma pessoa, independentemente da sua associação, considerar o conteúdo destas declarações, não vai encontrar nenhum rasto de racionalidade nessas afirmações”.

[Conheça neste vídeo quem são os Hells Angels e porque são tão temidos.]


Valores, símbolos e rituais

Do recrutamento à organização interna, os Hells Angels usam códigos, símbolos e rituais muitas vezes semelhantes aos da máfia. 
José Manuel Anes descreve essa forma de funcionamento dos núcleos violentos e criminosos do grupo como “pequenas máfias, em que as pessoas precisam de passar por rituais de iniciação para entrarem no grupo”
Esses rituais servem para “marcar e amedrontar o novo candidato para que obedeça ao grupo”. 
Um deles é cumprido, por exemplo, quando alguém quer entrar nos Hells Angels para distribuir droga: segundo um relatório do Conselho de Informação Criminal norte-americano, “os membros de outros grupos devem obter aprovação para distribuir droga em território controlado pelos Angels e normalmente têm de pagar um imposto de rua”.

Em tese, qualquer um pode candidatar-se — mas só em tese. 
Numa entrevista feita em 2000, Ralph “Sonny” Barger, um dos membros mais famosos dos Hells Angels, sublinha que não faz discriminação de raça: “O clube como um todo não é racista, mas provavelmente temos suficientes membros racistas para que nenhum gajo preto queira lá entrar. 
Se fores motard e fores branco, vais querer juntar-te aos Hells Angels. 
Se fores preto, vais para os Dragons. 
É assim que as coisas são, quer gostem ou não. 
Nós não temos pretos e eles não têm brancos”. 
Apesar de recusarem o rótulo de racistas, algumas filiais dos Hells Angels têm uma cláusula que exige que o presidente seja branco.

O culto dos símbolos é outro dos aspetos que aproximam os ramos criminosos de grupos como os Hells Angels às máfias de que José Manuel Anes, que também é professor na Universidade Lusíada, fala. 
Tal como, em Itália, algumas máfias prestam culto à imagem de Virgem Maria ou da rosa, os Hells Angels têm como insígnia oficial a “cabeça da morte”, uma homenagem ao antigo presidente da filial de San Francisco, Frank Sadilek. 
Um símbolo que refuta também a teoria de que nada têm a ver com os soldados da II Guerra: a “cabeça da morte” impressa nas jaquetas dos motards desde 1953 foi copiada das insígnias da 85.ª Esquadrilha de Combate e da 552.ª Esquadrilha de Aviões Bombardeiros Médios.



Outro símbolo importante dos Hells Angels é a expressão “1%” e também ela tem um contexto histórico: o Incidente Hollister. 
A 4 de julho de 2007, atraídos pelas corridas anuais promovidas pela Associação de Motociclistas Americanos e pelo encontro de vários clubes, centenas de motociclistas acorreram a Hollister, na Califórnia. 
O consumo de álcool misturou-se com a adrenalina e resultou num incidente inusitado: “Membros de motoclubes e não membros começaram a competir nas ruas da cidade, consumindo quantidades gigantescas de cerveja. 
A algazarra produziu pequenos incidentes, entre eles dano ao património e ultraje público ao pudor”, recorda a página “Os Notáveis Moto Clube”, numa publicação no Facebook.

No rescaldo do incidente, a que a revista Life chamou “um cerco à cidade”, a Associação de Motociclistas Americanos (AMA) terá  saído em defesa da integridade dos motards, dizendo que “99% dos motociclistas eram bons cidadãos e 1% bandidos”. 
Os Hells Angels gostaram da fórmula matemática e começaram a estampar “1%” nas jaquetas de pele. 
A AMA  jura que nunca utilizou essa expressão.

Como os Hells Angels mataram o sonho hippie

Assistir a um concerto dos Rolling Stones há praticamente cinco décadas custava oito dólares no máximo e já era demasiado para os amantes do rock n’roll. 
Para compensar o público e apaziguar as críticas publicadas pelos jornais, a banda decidiu dar um concerto gratuito em San Francisco, que encerrava a tour norte-americana. 
Depois de longos dias a negociar o local onde o concerto seria, a solução surgiu em Tracy, Califórnia, dentro de um festival de Verão incluído no Altamont Raceway Park, um percurso para corridas de mota. 
Era o Altamont Free Concert e prometia destronar o Woodstock.

Mas o Altamont Free Concert tinha uma série de problemas logísticos: não tinha casas de banho portáteis, não tinha pontos de atendimento médico e o palco estava ao mesmo nível que a plataforma onde o público iria assistir ao concerto. 
“O palco estava a um metro de altura e, como era num monte, toda a pressão da audiência estava contra nós. 
Nem sequer estávamos a trabalhar com andaimes, era à moda antiga, com paralelos”, recordou Chip Monck, gestor de palco dos Rolling Stones. 
À conta da proximidade do palco ao público, a banda delineou uma estratégia diferente: pediram a Ralph “Sonny” Barger, o líder do chapter de Oakland, que mobilizasse uns quantos membros dos Hells Angels para cercarem o palco e servirem de seguranças. Em troca, receberiam o equivalente a 500 dólares de cerveja.

Sonny aceitou o pagamento, como veio a explicar no documentário “Gimme Shelter”: “Nós não policiamos as coisas. 
Nós não somos uma força de segurança. 
Vamos a concertos para nos divertirmos e curtirmos o momento. 
Mas isto era sobre ajudar pessoas, sabes, dar direções e essas coisas. 
Claro que o podemos fazer. 
O que posso dizer? 
Gostamos de cerveja!”. 
Esta não seria a primeira vez que os Hells Angels serviam de segurança a grandes artistas: já o tinham feito com os Grateful Dead e com Jefferson Airplane, que sugeriram a solução aos Rolling Stones, e exatamente com o mesmo tipo de recompensa. 
Naquele dezembro de 1969, iam proteger não só a banda de Mick Jagger mas também todas as bandas previstas para aquele dia. 
“O único acordo que houve foi: os Angels tinham de se assegurar que ninguém interferiria com os geradores. 
Só isso. 
Supostamente, os tais 500 dólares em cerveja seria um pagamento dividido por todas as bandas que atuariam no palco, mas até hoje nunca me devolveram o dinheiro”, queixa-se Sam Cutler, gestor de tour dos Rolling Stones dessa época.

Correu tudo bem durante o concerto de Carlos Santana, mas tudo piorou daí para a frente: enquanto protegiam as bandas e os geradores no palco, os membros dos Hells Angels bebiam cerveja atrás de cerveja. 
O resultado foi o previsível: ficaram bêbedos e começaram a agredir as pessoas que estavam mais perto deles. 
O ambiente começou a degradar-se rapidamente: uma mulher viu um homem ser agredido com cinco murros por membros do grupo e uma garrafa de cerveja acertou na cabeça da cantora Denise Jewkes, que estava grávida de seis meses, e fraturou-lhe o crânio. 
No meio da confusão, um dos membros dos Angels foi derrubado pelo público e os colegas começaram a bater nos culpados: o cantor Marty Balin desceu do palco para pôr travão às agressões, mas levou um murro na cabeça que o deixou inconsciente. 
O colega de banda que o acudiu foi agredido com um microfone e também acabou no chão.

A gota de água, no entanto, foi ainda mais trágica. 
Meredith Hunter tinha 18 anos e estava a assistir ao concerto dos Rolling Stones com a namorada, Patty Bredehoft. 
Com os amigos, tentou subir para o palco, mas a tentativa foi travada por um dos Hells Angels, que lhe pegou pela cabeça, deu um murro na cara e o atirou para o chão. 
Um minuto depois, Meredith Hunter, que estava “enraivecido, irracional e tão pedrado que nem conseguia andar bem”, como descreveu Rock Scully, voltou a tentar trepar para o palco, desta vez com um revólver de calibre .22 na mão. 
“Ele estava louco, estava sob o efeito de drogas, eu via para o que ele estava a olhar. 
Ele tinha intenções assassinas. 
Não tenho nenhuma dúvida que ele queria fazer muito mal ao Mick, a alguém dos Rolling Stones ou a alguém em cima do palco”, recorda Scully. 
Antes que isso acontecesse, um membro dos Angels pegou numa faca, encostou-a à barriga de Meredith, afastou o revólver e esfaqueou-o duas vezes com a mão direita. Meredith Hunter morreu. 
E com ele morreu também o sonho hippie, naquele que é um dos primeiros homicídios atribuídos aos Hells Angels.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Porque é que Bernardo Silva deve ser o nosso novo Ronaldo




Tiago Teixeira (analista)
2 de Julho de 2018
O Mundial acabou para nós mas o futuro começa agora. Tiago Teixeira, analista de futebol, explica de que maneira

Conhecem o jogo eletrónico chamado Tetris? 
Sábado, dei por mim a imaginar o mister Fernando Santos a jogá-lo. 
As peças a caírem, uma por uma, lentamente, mas o mister a revelar muita dificuldade em perceber onde encaixá-las melhor. 
O tempo de jogo ia passando e os espaços vazios eram cada vez mais, porque as peças não estavam a ser encaixadas no sítio mais correto. 
No fim, tivemos apenas um amontoado de peças, todas desorganizadas, e uma pontuação bastante mais fraca do que era exigido.

No Tetris humano a que chamamos seleção portuguesa de futebol, o mais evidente erro de encaixe tem um nome: Bernardo Silva. 
Por toda a qualidade técnica e inteligência com que o jogador do Manchester City constrói e cria, era ele a peça-chave, aquela que podia ter elevado a qualidade do futebol praticado, mas tal não foi possível. 
Atenção: não por culpa própria, mas sim pelo contexto que o rodeava. 
E que contexto foi esse?

Partindo do sistema de jogo 4-4-2, a seleção comandada por Fernando Santos usou e abusou do jogo exterior, sem nunca o fazer da melhor maneira, sofrendo muito para criar oportunidades de golo evidentes. 
As combinações curtas nos corredores laterais foram uma raridade (poucos apoios próximos e principalmente falta de mobilidade) e o cruzamento para a área foi sempre a opção mais utilizada para chegar a zonas de finalização
Ao contrário do que acontece no Manchester City, onde Bernardo Silva, apesar de jogar aberto na ala, tem sempre inúmeras linhas de passe próximas, ou seja, apoios próximos de colegas com quem pode combinar, assim como uma dinâmica ofensiva bem trabalhada, na seleção portuguesa a preocupação com a criação de superioridades numéricas era pouca (exemplo na imagem anterior) - e tudo se resumia a dois ou três passes antes de cruzar para área, não tirando qualquer partido da qualidade técnica e criatividade de Bernardo Silva.

Mas era no corredor central que Bernardo Silva deveria ter passado a maior parte do tempo - e este foi o principal erro de Fernando Santos. 
“Amarrá-lo” ao corredor lateral direito foi limitar o processo ofensivo da seleção portuguesa, que tanta falta de criatividade demonstrou, principalmente pelo meio. 
Com opções de passe em todas as direções, como só no corredor central acontece, o talento de Bernardo Silva poderia ter sido mais devidamente aproveitado - e, consequentemente, a seleção teria bem mais a ganhar em termos ofensivos.



























Posicionamentos como os da imagem, com Bernardo Silva no corredor central e linhas de passe à sua direita, esquerda e dentro do bloco defensivo adversário, tinham aumentando muito a qualidade do ataque posicional de Portugal, porque tinham permitido a Bernardo demonstrar que é, de longe, o jogador com mais atributos técnicos e cognitivos para jogar em zonas onde o espaço e o tempo para pensar e executar são menores.



























Lances como este representado na imagem podiam e deviam ter surgido mais vezes nos jogos disputados no Mundial, mas, para isso, era preciso que Bernardo Silva tivesse passado mais tempo no corredor central, em vez de estar quase sempre no corredor lateral direito.

Ninguém percebe tão bem como ele os timings de soltar a bola nem o contexto que o rodeia e, por isso, dar-lhe condições para combinar, decidir e progredir pelo corredor central tinham transformado para melhor o futebol praticado pela seleção portuguesa.

Não era exigido a Fernando Santos que apresentasse um modelo de jogo de excelência, mas não é desculpável que não tenha percebido como utilizar da melhor maneira o talento que tinha ao seu dispor. 
É à volta de jogadores como Bernardo Silva que a seleção portuguesa tem que construir o seu futuro. 
É fundamental criar condições coletivas ao nível do modelo de jogo para que a qualidade técnica, inteligência e criatividade destes jogadores - os “Bernardos” desse Portugal fora - sejam potenciadas ao máximo, pois só assim podemos voltar a ser uma seleção que pratique um futebol de qualidade. 
Porque ganhar não é o oposto de praticar bom futebol.