quarta-feira, 13 de junho de 2018

Futebol? Se todas as preocupações dos russos fossem as sete derrotas seguidas… /premium

Ana Kotowicz  13 Junho 2018


















Aumento da idade da reforma e dos preços dos combustíveis são o que mais preocupa os russos na altura do Mundial. 
Para o Presidente Putin, o Mundial pode ser usado para uma maratona diplomática.

Pavel Kudyukin vive em Kratovo, uma localidade a 50 quilómetros de Moscovo, e que era, até há pouco tempo, um nome que nada dizia aos portugueses. 
Em Kratovo fica a sede do FC Saturn, o clube russo que em 2010 abandonou a primeira divisão por falta de fundos, mas nem esta entrada, ao estilo Wikipedia, seria suficiente para a maioria das pessoas conseguir apontar a localidade no mapa. 
Acontece que por estes dias Kratovo se tornou a base de treinos de Cristiano Ronaldo e da seleção portuguesa de futebol e, por cá, o som do seu nome passou a ser familiar. 
Kratovo não vai receber eventos do Mundial 2018, é apenas a base da seleção portuguesa, mas isso basta para ter uma grande concentração de forças de segurança. 
E, ali, o aumento de policiamento nas ruas está para alguns russos como o excesso de turistas está para muitos lisboetas.

“O aumento das medidas de segurança acontecem essencialmente nas estações de comboio e de metro. 
Em alguns casos são inúteis em termos de segurança, mas trazem sério desconforto aos cidadãos. 
Nas ruas, o aumento do policiamento é à volta dos lugares onde o Mundial vai acontecer”, conta Pavel Kudyukin, co-presidente do sindicato Solidariedade Universitária, estrutura que defende os direitos dos funcionários do Ensino Superior.

“Eu vivo numa vila não muito longe de Moscovo, sede do Saturn, e a seleção portuguesa já cá está. 
Por isso, encontramos polícia a cada 50 metros. 
Para além disso, o trânsito nas ruas vizinhas está condicionado e os moradores só conseguem passar com permissões especiais escritas nos seus documentos”, conta Kudyukin.

Dmitry Sudakov, editor da versão inglesa do jornal Pravda, diz que o aumento do policiamento também se sente em Moscovo, uma das 11 cidades que vai receber jogos do campeonato. 
“As medidas de segurança estão mais apertadas. 
Há polícia em todo o lado. 
A Rússia tem estado a melhorar os seus níveis de segurança depois de todos os ataques terroristas que o país já viu. 
Hoje, não é possível entrar num comboio de alta velocidade de Moscovo para São Petersburgo sem que as malas sejam inspecionadas por um raio-X, por exemplo.”

O aumento da segurança é necessário, na opinião de Dmitry Sudakov, porque na sua história recente a Rússia viu diversos ataques terroristas e a população teme-os. 
E embora diga que ninguém pode garantir que não irá acontecer um atentado, acredita que as forças de segurança estão a “fazer tudo o que podem para evitar qualquer tipo de atividades subversivas”.

Kirill Martynov fala com o Observador também a partir da capital russa, a única metrópole que tem dois estádios disponíveis para o Mundial. 
É editor de política do Novaya Gazeta, um jornal russo conhecido pela cobertura crítica a Vladimir Putin e pelos trabalhos de investigação jornalística. 
“Para mim, pessoalmente, estas medidas de segurança são bastante desagradáveis. 
Há mais polícia na rua, e os passageiros com mochilas são sempre revistados. 
Os meus colegas já escreveram sobre trabalhadores migrantes, das antigas repúblicas soviéticas, que foram torturados pela polícia. 
As autoridades disseram que havia suspeitas de serem terroristas, mas sem terem qualquer prova contra eles, mas, claro, estamos a tentar estar seguros antes do Mundial.”

Para o jornalista de política, as medidas de segurança são duras, mas devem-se à “falta de profissionalismo” das autoridades. 
“A segurança é mais imitada do que realmente oferecida. 
As pessoas estão habituadas a isto na Rússia, ninguém se arma em rebelde se uma rua central estiver bloqueada pela polícia. 
E penso que a polícia recebeu ordens para tratar os fãs estrangeiros de forma correta. 
Os jornais moscovitas até escreveram que houve uma ordem oficiosa da polícia a pedir aos carteiristas que não roubem nada durante o campeonato.”

Nas redes sociais, nas contas de quem escreve com o alfabeto cirílico, há uma pergunta que surge como um pop-up, uma e outra vez: as medidas de policiamento vieram para ficar? 
Pavel Kudyukin diz que é difícil fazer uma previsão dessas, mas acredita ser “muito provável”.

José Milhazes, o jornalista português que durante anos foi correspondente em Moscovo, cidade para onde se mudou em 1977 para estudar História da Rússia, acredita que essa é uma visão que apenas os mais cépticos terão. 
Lembra que a Rússia é um país enorme e a maioria não notará o aumento do policiamento, já que os jogos só vão acontecer nos estádios de menos de uma dúzia de cidades.

A Rússia atravessa 11 fusos horários diferentes, faz fronteira com 16 países e nos seus 17 milhões de quilómetros quadrados Portugal caberia 185 vezes. 
É por isso que quando Pavel Kudyukin diz que a sua vila fica mesmo ao lado de Moscovo, apesar de o caminho entre as duas ser feito em quase uma hora de automóvel, ele fala verdade. 
Cinquenta quilómetros para os russos não são o mesmo que 50 quilómetros para os portugueses. 
E é a esta grandiosidade de território, que faz da Rússia o maior país do mundo, a que Milhazes se refere quando diz que apenas uma minoria sentirá o aumento das medidas de segurança.

“Já no sentido de continuidade do aparelho repressivo, em relação à oposição política, ele sempre existiu na época de Putin. 
Claro que a experiência do Mundial pode contribuir para que as autoridades tomem novas medidas, mas penso que para o Presidente russo é muito mais importante que tudo corra bem e que nada, nada, nada de mal aconteça a ninguém. 
Até acho que a segurança vai ser reduzida depois do Mundial porque manter um aparelho deste tipo é uma fortuna. 
A Rússia não tem dinheiro para manter 700 mil polícias na rua”, sustenta Milhazes.

Apesar disso, José Milhazes reconhece que há algum desconforto com o policiamento. 
“Há extraordinárias medidas de segurança que estão a ser tomadas em todas as cidades onde se vão realizar jogos. 
Os habitantes queixam-se de que a polícia passa a vida a pedir e a verificar documentos e isso cria incómodos. 
Em Ekaterimburgo há pessoas que vivem dentro do perímetro de segurança e que só podem entrar quando mostram o carimbo que têm no passaporte, já que só assim podem provar que residem naquele lugar.”

Mas está a polícia a exceder-se nas medidas de segurança ou não? 
As opiniões variam entre quem acha que com mais segurança está mais seguro, como diz Milhazes, e os que acham que ela está a ser de mais. 
Uma das situações que mais indignação causou nas redes sociais envolvia a detenção de estudantes da Universidade de Moscovo que picharam uma futura zona de adeptos estrangeiros, no perímetro adjacente ao campus com a inscrição “Não à Zona de Fãs”.

“O caso dos estudantes não tem nada a ver com segurança, tem a ver com o facto de estarem a ser despejados do seu campus e a serem forçados a fazer exames mais cedo do que o suposto para que aquela zona perto da Universidade de Moscovo seja usada para os adeptos”, conta o editor de política do Novaya Gazeta. 
“Isto é terrível, e em qualquer país a Universidade iria proteger os seus estudantes numa situação destas. 
Temos uma investigação criminal sobre um filólogo de 18 anos por protestar contra a zona de fãs. 
E os seus professores continuam em silêncio”, explica Kirill Martynov.

“A inscrição já foi lavada e não há nenhum dano real”, acrescenta Pavel Kudyukin, que estudou História na mesma universidade estatal que José Milhazes, a Lomonossov, e na mesma década de 70. 
A mesma universidade que está agora envolvida na polémica.

“Um dos estudantes, Dmitry Petelin, tinha estatuto de suspeito num processo criminal por vandalismo. 
E esta sexta-feira o nosso piquete de solidariedade para com os estudantes foi proibido pelas autoridades da cidade. 
Entretanto, nesse mesmo dia, 8 de junho, ocorreram dois eventos. 
Primeiro, a procuradoria decidiu parar o processo criminal contra Petelin. 
Segundo, no nosso piquete composto por uma só pessoa, o co-presidente do nosso sindicato Solidariedade Universitária, o Andronik Arutyunov — é professor assistente de matemática no Instituto de Física e Tecnologia de Moscovo — foi detido pela polícia. 
Na manhã seguinte, o tribunal impôs-lhe uma multa de 20 mil rublos (270 euros) por ‘violação das regras de acções em massa’. 
Em massa! 
Onde há contacto com a polícia, há risco de haver problemas.”

O problema do lixo e das lixeiras tem levado a muitos protestos dos cidadãos russos

1 - Lixo, idade da reforma e o preço da gasolina

Enquanto na imprensa ocidental as notícias sobre a Rússia estão ligadas às sanções económicas impostas ao país, ao caso Skripal e ainda à alegada influência nas eleições norte-americanas que deram vitória a Donald Trump, os problemas que afetam o dia a dia dos russos são outros. 
O aumento da idade da reforma, a subida do preço dos combustíveis e o lixo que se amontoa à volta de Moscovo são os assuntos mais discutidos nos cafés. 
Muito mais do que histórias de jornalistas que morrem e renascem como o ucraniano Arkady Babchenko ou greves de fomes como a de Oleg Sentsov, mas já lá chegaremos.

“De uma forma geral, as pessoas têm grande orgulho no país e no seu Presidente. 
Por isso, o Mundial é uma grande oportunidade para a Rússia mostrar uma versão verdadeira dos eventos, nomeadamente que não é de forma alguma uma ditadura — um disparate, porque tem processos democráticos — e que não é culpada de qualquer das acusações que lhe são feitas”, diz o britânico Timothy Bancroft-Hinchey, fundador e diretor da versão portuguesa do jornal Pravda desde 2002.

“A maioria dos russos está, em primeiro lugar, preocupada com os preços da gasolina. 
Ultimamente, os preços têm subido muito e neste país, se a gasolina se torna mais cara, tudo o resto se torna mais caro também”, conta Dmitry Sudakov, também do Pravda.

Pavel Kudyukin concorda. 
Mas lembra que os aumentos foram travados, para já, por uma medida administrativa que terá efeitos temporários. 
O aumento de outros bens de consumo, principalmente nos custos de transporte, conta, poderá, ainda assim, trazer problemas à agricultura durante o período de colheita.

José Milhazes faz uma análise semelhante e ressalva que, apesar dos preços dos combustíveis na Rússia serem muito mais baratos do que em Portugal, também os seus salários são menores do que os dos portugueses: “Claro que a questão do preço do gasóleo é um problema tremendo porque bate nos bolsos dos russos — apesar de o preço ser muito mais barato do que em Portugal, está acima dos 50 cêntimos por litro, mas o salário médio também não chega aos 600 euros, quase igual ao nosso mínimo. 
Isto bate muito forte nos russos, principalmente nos condutores de camiões que já têm feito bloqueios. 
São problemas muito maiores do que o futebol.”

E são estas preocupações, muito mais do que as de política externa, envolvam elas a proteção de Putin a Bashar al-Assad na Síria ou o acordo nuclear com o Irão, que estão diariamente na cabeça dos russos, como explica o co-presidente do Solidariedade Universitária.

“Na verdade, as pessoas comuns na Rússia não se preocupam muito com assuntos externos, há algum medo ‘arquetípico’ de guerra e há desconfiança para com o mundo exterior. 
Pode até ser algum tipo de mania de perseguição nacional, do estilo: ‘A Rússia é um país rico em recursos naturais, e todos gostavam de nos conquistar’. 
Mas, naturalmente, as principais preocupações são sobre os problemas do dia-a-dia — empregos instáveis, inflação, salários baixos, se há a possibilidade de dar boa educação às crianças, como não adoecer e assim por diante”, diz-nos Kudyukin.

Na Rússia, o salário mínimo é de 9.489 rublos (128 euros) e o ordenado médio ronda os 38 mil rublos (514 euros). 
Em janeiro de 2018, Vladimir Putin prometeu subir o valor do salário mínimo nacional de forma a igualá-lo ao índice mínimo de subsistência — a quantia mínima necessária para um cidadão cobrir todas as suas necessidades vitais e que se encontra nos 11.163 rublos (151 euros). 

Entre o comum dos cidadãos, não é este mas um outro anúncio do Presidente russo que causa mal-estar: uma eventual mexida na idade da reforma.

Pavel Kudyukin não nega que o aumento da idade da aposentação está no topo das preocupações, mas diz que não é a única em termos laborais. 
“O Governo quer aumentar a idade da reforma — 63 anos para as mulheres, 65 para os homens — e isso é uma preocupação central em termos de políticas sociais. 
Mas também há sérios problemas com as condições laborais que têm estado a piorar para quem trabalha na educação e no setor da saúde e isso tem consequências negativas para a qualidade do ensino e dos cuidados de saúde. 
Para além disto, tem havido estagnação nas receitas da maioria da população.”

Na Rússia, 13% da população vive abaixo da linha da pobreza. 
Este número traduz-se em 20 milhões de pessoas, o dobro da população portuguesa, número já considerado “alarmante” por Putin. 
Outros dados oficiais mostram que as dívidas põem quase 8 milhões de russos na falência. A desvalorização do rublo, as sanções económicas e a inflação, que afeta o preço de bens essenciais, têm tornado a vida mais difícil na Rússia. 
Saber que poderão passar mais anos a trabalhar é só mais uma acha na fogueira.

Kirill Martynov fala mesmo na falência do sistema de pensões, um problema que diz ainda não ter sido interiorizado pela maioria dos seus conterrâneos. 
“A idade da reforma é um problema sério. 
A reforma do sistema de pensões, que foi levado a cabo depois do colapso da União Soviética, tem falhado nos últimos anos e o Estado não tem dinheiro para pagar a um número crescente de reformados. 
A conclusão honesta é que não haverá pensões estatais na Rússia, mas poucas pessoas se aperceberam disto.”

Outro problema importante, apontado por Pavel Kudyukin e Kirill Martynov, é ambiental. 
“Na região de Moscovo, os depósitos de lixo têm levado a tumultos. 
E os impostos também estão a subir. 
Em geral, diria que a população está preocupada com o crescimento da pobreza. 
Há menos russos que podem, hoje em dia, viajar até à Europa ou enviar os seus filhos para terem alguma educação. 
E isto é um problema para a classe média, as pessoas pobres tentam apenas sobreviver”, sublinha o editor de política do Novaya Gazeta.





















Durante o Festival Europeu de Cinema em Berlim, o irlandês Mike Downey lembrou a situação de Oleg Sentsov

2 - A fome de Sentsov, o renascimento de Babchenko e a campanha anti-Rússia

Uma semana antes do início do Mundial, a Novaya Gazeta fazia manchete com a greve de fome de Oleg Sentsov. 
Desde 14 de maio, há 31 dias, que o cineasta ucraniano está em greve de fome numa cadeia russa pedindo não só a sua, mas a libertação de todos os presos políticos do seu país. 
E ao fazer uma greve de fome total, há um risco real de Sentsov morrer durante o Mundial. 
Com toda a atenção e solidariedade que o seu caso despertou na imprensa internacional, com manifestações de apoio ao cineasta até durante o Festival de Cannes, a sua morte seria uma mancha na imagem que a Rússia está apostada em passar para o exterior.

“Está tudo feito para que durante o campeonato não haja manifestações racistas, anti-Ocidente, ou o que for. 
Putin quer que tudo corra numa base de amizade e cooperação, como se dizia na velha União Soviética”, defende Milhazes. 
“Os olhos estão todos na Rússia. 
Os fãs de diferentes países vão estar sob controlo, por exemplo. 
Se alguns grupos extremistas russos se puserem em complicações com fãs de outros países, é porque o regime permite. 
Mas claro que pode haver imprevistos. 
Pode acontecer alguma coisa fora da Rússia, mas ligada à Rússia. 
Neste momento é como dizia o João Pinto, prognósticos só no fim do jogo.”

Entre os imprevistos está, claro, a morte de Oleg Sentsov, argumenta o jornalista português. 
“São as tais circunstâncias imprevisíveis. 
O cineasta está numa greve de fome total, pode morrer durante o Mundial, mas isso não vai fazer com que a seleção portuguesa volte para casa. 
Pode haver um ou outro jogador que se solidarize, mas… 
Os médicos já prometeram que o vão alimentar à força se chegar a hora H. 
Se ele morrer depois do campeonato, se calhar já ninguém se vai interessar.”

Embora no Facebook ou no Instagram as fotografias de Sentsov nunca tenham deixado de aparecer desde o início da greve de fome, Kirill Martynov diz que este caso é mais um fenómeno das redes sociais e que apenas um pequeno grupo de pessoas que se importa com a sua vida.

Pavel Kudyukin assente: “Infelizmente, esses eventos não são muito interessantes para a maioria dos meus concidadãos. 
A greve de fome de Oleg Sentsov é mencionada apenas por uma minoria de pessoas politicamente ativas. 
Nem todo mundo percebe que há o problema de as autoridades russas se recusarem a reconhecer Sentsov, e outros presos políticos da Crimeia, como cidadãos da Ucrânia. 
Após a anexação da península, a cidadania da Rússia foi imposta a todos os seus habitantes e, do ponto de vista da administração da Rússia, significa que eles perderam a cidadania ucraniana. 
É um absurdo, porque o Estado pode dar sua cidadania a uma pessoa, mas não pode privá-la da cidadania de outro Estado.”

Já Dmitry Sudakov acredita que poucos são os russos que saberão o nome do cineasta ucraniano: “Tenho certeza que muitos nem sabem quem é Sentsov, especialmente no verão, quando a maioria está é preocupada com as suas dachas [casas de verão], com os seus jardins e as férias.”

“Os media ocidentais cometem um erro enorme ao rotular como ‘líder’ da oposição qualquer pessoa que aparece à margem da sociedade russa. 
O líder da oposição é o líder do partido com segundo maior percentagem de votos, neste caso o Partido Comunista. 
Manifestações de marginais que não pagam o que devem ao fisco na Rússia não atraem ninguém. 
Parece que no Ocidente estes tipos de pessoas são considerados heróis”, acrescenta o colega de Sudakov no Pravda, Timothy Bancroft-Hinchey.

Para além de Sentsov, também a a morte e renascimento de Arcady Babchenko deu que falar nos media de todo o mundo. 
Neste caso, há muitos russos que acreditam que a postura da Ucrânia em todo este processo fez mais bem do que mal à imagem de Putin, contrariamente ao que os serviços secretos ucranianos teriam desejado.

No seu jornal, Kirill Martynov escreveu um artigo de opinião bastante crítico questionando onde estava a ética do jornalista russo que participou numa operação dos serviços secretos ucranianos, forjando a sua morte. 
O intuito era capturar os autores de ameaças de morte ao jornalista russo, tido como incómodo para Vladimir Putin. 
Mais uma vez, nas redes sociais, as discussões eram fortes e dividiam-se entre dois pólos: os que estavam felizes por o jornalista estar afinal vivo e os que consideravam que o melhor era ele ter continuado morto, já que o seu renascimento põe em causa todos os ditos assassinatos políticos que já terão acontecido até hoje.

José Milhazes acha que o tiro saiu pela culatra à Ucrânia: “A morte e o renascimento do Babchenko é a prova do idiotismo acabado dos dirigentes ucranianos, aquilo é uma cambada de bandidos que estão no poder do país, e que têm estas ideias peregrinas de fazer operações completamente impensadas, que são boas para os russos. 
Para a próxima vez, ninguém acredita, é como a história do Pedro e do lobo.”

Aliás, o português diz que “a propaganda russa” já está a aproveitar a oportunidade, dizendo que a Ucrânia poderá invadir as regiões separatistas do Leste, para recuperar esses territórios, durante o campeonato do mundo. 
Esta segunda-feira, relata o jornalista, já se dizia que os ucranianos iriam mandar abaixo um helicóptero com uma delegação da União Europeia que ia visitar o leste da Ucrânia para depois acusar os separatistas russos de serem os autores do atentado.

A Ucrânia, acredita Milhazes, não é a única a fazer favores inesperados à Rússia e o Mundial pode ser um momento muito importante para o Presidente russo. 
“Putin tem agora oportunidade de ouro em todos os sentidos. 
O Ocidente, sem que o presidente se mexa, faz-lhe favores absolutamente únicos. 
É o caso do que aconteceu no G7, quando Trump veio dizer que devem receber a Rússia de volta. 
Para Putin é ouro sobre azul. 
Ele anda a dizer que o seu objetivo não é voltar — claro que é mentira — mas imagine que ele regressa imposto pelo Trump. 
É uma vitória enorme.”

O G7, que esteve reunido no fim-de-semana de 9 e 10 de junho e de onde saiu uma foto viral que ilustra bem o mal-estar entre os participantes, é composto pelo Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos. 
Anteriormente chamado de G8 contava também com a presença da Rússia, mas a sua participação no grupo foi suspensa em 2014 no auge da crise da Crimeia.

E estas campanhas anti-Rússia ou anti-Ocidente, que variam consoante o ponto cardeal de onde olhamos para elas, preocupam os russos? 
Milhazes acha que não: “Os cidadãos vão continuar a acreditar que há uma campanha anti-Rússia, porque a propaganda vai continuar na mesma, a não ser que haja uma viragem muito grande no campo internacional. 
A campanha anti-Ocidente vai acalmar um bocadinho durante o Mundial e não vai haver hostilidade aberta em relação aos estrangeiros para não estragar a imagem do país.”

Este cenário, recorda Milhazes, já aconteceu na União Soviética nos Jogos Olímpicos de 1980, altura em que também foi montada uma enorme operação de charme. 
“A única coisa que estragou aquilo foi a invasão do Afeganistão que levou ao boicote de parte dos países. 
A essência, naquela altura, era mostrar que a União Soviética era uma grande potência, que era superior ao mundo capitalista nos desportos e Putin está a repetir essa política. 
Está a tentar mostrar um país mais forte, militarmente e no sentido de organização. 
Claro que o futebol russo não é capaz de mostrar resultados como mostravam os outros atletas soviéticos, mas a ideia de o país receber bem, ser hospitaleiro, não haver hostilidades é muito importante para o regime. 
E tudo vai ser feito com muito cuidado, porque se acontecer alguma coisa é uma escandaleira que pode manchar o campeonato.”

De Moscovo, as palavras de Dmitry Sudakov vão exatamente no sentido de haver essa campanha contra a sua terra-mãe. 
“A Rússia foi muito demonizada nos media ocidentais. 
Mas quando as pessoas comuns chegarem aqui para o Mundial vão ver que tudo é muito diferente do que é escrito pela imprensa. 
E esperamos que a maioria dos estrangeiros adore estar aqui. 
Por isso, acho que o Mundial vai ser muito positivo para a Rússia no meio de todos os escândalos que, ultimamente, o Ocidente tem zelosamente arranjado para o nosso país.”

Timothy Bancroft-Hinchey concorda com esta análise e insiste que tem havido muita difamação na imprensa internacional contra a Rússia e o seu Presidente, um homem que, segundo o jornalista britânico, é respeitado pela grande maioria dos russos: é visto como um patriota que zela pelos interesses do povo. 
“O Mundial vai ser visto por muitos como a maneira de mostrar a Rússia como ela é: um país ‘normal’ como qualquer outro, não uma ditadura, não um país homofóbico — esta questão gira à volta da questão de proibir a mostra de imagens pornográficas e homossexuais a menores, mais nada —, mas sim um país acolhedor, cheio de cultura, de oportunidades, amizade e boa vontade. 
Muitos russos sentem-se magoados por esta onda de mentiras na imprensa mundial.”

Tal como noutras questões, também aqui encontramos duas escolas de pensamento. 
A posição de Kirill Martynov e Pavel Kudyukin é diametralmente oposta à dos jornalistas do Pravda.

“Nos últimos anos, muitos políticos têm falado na questão de isolamento da Rússia. 
Para os apoiantes de Putin, o Mundial é a prova de que não há isolamento algum. 
Para os seus opositores, e para mim pessoalmente, a celebração do desporto na Rússia é um paradoxo político. 
Estamos em guerra com os nossos vizinhos, temos centenas de presos políticos encarcerados, mas o mundo inteiro está contente por vir jogar futebol connosco. 
Para a nossa política interna, há duas interpretações possíveis. 
A primeira sugere que o Mundial está a proteger o regime de Putin de ações muito duras, levando a uma liberalização temporária. 
A segunda é que as medidas de segurança não serão levantadas depois do Mundial e um regime policial será implementado no país depois de o último jogador de futebol ter voltado para casa”, refere o editor de política do Novaya Gazeta.

Já o co-presidente do Solidariedade Universitária, defende que muitos russos acreditam na propaganda de Putin sobre uma campanha anti-Rússia, “se é que sequer pensam nisso”. Na sua opinião, a melhor maneira de melhorar a imagem do país no exterior seria mudar a política externa e doméstica e não com um campeonato de futebol.






















3 - Está na hora de tentar o xeque-mate diplomático

Se há países que já assumiram um boicote ao Mundial russo, outros há que parecem disponíveis para se sentar nas tribunas. 
É certo que não haverá quaisquer membros da família real ou políticos britânicos na Rússia a assistir ao Mundial. 
O anúncio, feito por Theresa May, chefe do governo britânico, levou a uma onda de solidariedade entre outros países. 
Polónia, Islândia, Dinamarca, Suécia, Austrália e Japão também não terão altos dirigentes presentes, todos pelo mesmo motivo: acreditam que foi o Kremlin quem orquestrou o envenenamento do agente duplo russo, Sergei Skripal, com um agente nervoso em território britânico.

Já Angela Merkel, chanceler alemã, não descarta a possibilidade de viajar até Moscovo, assim como Emmanuel Macron. 
O presidente francês pondera assistir ao jogo se a seleção do seu país chegar às semifinais. 
E sobre a viagem e os diferendos com Putin, Merkel afirmou: “Se não falarmos um com o outro, dificilmente encontraremos alguma solução.”

É por isso que José Milhazes acredita que enquanto nos relvados se jogar futebol, nas bancadas, os altos dirigentes políticos vão mover-se no tabuleiro de xadrez político.

“Este campeonato pode ser interessante nesse sentido, por ser de uma diplomacia intensa, por poder ser aproveitado como uma maratona diplomática. 
Alguns dirigentes de países importantes para a Rússia vão lá estar. 
Macron e Merkel poderão lá estar e isso significa que está presente a União Europeia. Por isso, muitos analistas dizem que este momento pode servir para uma certa aproximação entre a Europa e Rússia, num momento, depois do G7, que estão todos chateados com o Trump", defende Milhazes.

Os contactos informais podem ser valiosos, já que permitem a Putin aproximar-se de outros políticos que, noutras circunstâncias, não estariam tão à mão de semear, diz o jornalista. “Parece que há uma possibilidade de Portugal jogar com a Rússia e não excluo a possibilidade de o nosso Presidente se encontrar com Putin, nem que seja durante 5 minutos na tribuna. 
E estar de uma forma diferente, informal, pode criar um ambiente que desanuvie a tensão. Vai lá estar a seleção do Irão. 
E se lá for o aiatolá Ali Khamenei ver o jogo? 
E se se sentar ao lado da Merkel? 
Até podem falar do acordo nuclear que o Trump decidiu anular. 
Podemos ter ali uma espécie de cimeiras que poderão servir como elo de ligação para discutir questões internacionais”, explica José Milhazes.

No caso de Portugal, nos três jogos de apuramento da seleção, a presença política está garantida: Ferro Rodrigues assistirá à primeira partida, Marcelo Rebelo de Sousa à segunda e António Costa à terceira.

Mas lembra Milhazes: se, em termos de golos, é difícil saber quais serão os golos, também na diplomacia é difícil saber quem será campeão. 
“Na diplomacia, não há só vencedores e vencidos, há empates. 
E a taça não vai só para casa de um.”






















4 - E o futebol, senhores? Ninguém quer saber do futebol?

Há sete jogos que a seleção russa não ganha uma partida de futebol. 
E quando entrar em campo para disputar a Arábia Saudita, no jogo inaugural desta quinta-feira, há um recorde que já está batido: há 84 anos que não acontecia o anfitrião do Mundial de Futebol estar há seis meses sem vencer um jogo.

Por isso, há uma distinção a ser feita. 
Na opinião de Dmitry Sudakov, os russos estão satisfeitos por receber o Mundial, mas a seleção nacional é mais alvo de críticas do que de aplausos. 
“O futebol é um dos jogos mais populares, se não o mais popular na Rússia. 
No entanto, não diria que os russos estão orgulhosos do futebol, porque a seleção não tem jogado muito bem. 
Há muitas críticas aos jogadores e há quem diga que o futebol russo é uma desgraça. Mas se a Rússia vencer algo, o triunfo nacional será esmagador.”

Embora nem todos sejam adeptos de futebol, Sudakov diz, por exemplo, que o hóquei no gelo é maior motivo de orgulho para os russos, e que o Mundial é uma oportunidade de mostrar o orgulho no país mais do que na seleção. 
E por ali, acredita, não haverá protestos como aconteceu com o Brasil, no Mundial de 2014, porque todos “amam o futebol”.

“A nossa situação é muito diferente da brasileira. 
A maioria das pessoas não vê problemas no Mundial, estão orgulhosas dele. 
Consideram que o campeonato é mais uma confirmação da grandeza da Rússia, que começou com os Jogos Olímpicos de Sochi, há quatro anos e meio”, acrescenta Kirill Martynov.

A confirmação chega com sotaque britânico: “Diria que, globalmente, os russos abraçam o Mundial como uma maneira de mostrar que a Rússia é fixe, que os russos são bacanos, que gostam de se divertir, adoram brincar, adoram o ar livre, adoram festas e churrascos e no verão passam a maior parte do tempo nas florestas, ou nas dachas, a cultivar pepinos e tomates para fazer pickles e compotas. 
Muita gente está mais virada para isso do que para os estádios de futebol. 
Mas eu, que faço os relatórios de desporto no Pravda. 
Eu, prevejo uma final Portugal vs. Brasil, 2-1 vence Portugal”, afirma Timothy Bancroft-Hinchey.

E os golos, serão de quem? 
“Quaresma e CR7, de quem mais haveria de ser?”



























segunda-feira, 11 de junho de 2018

Kim Jong-un: do anonimato de uma escola pública na Suíça à mesa de negociações com Trump /premium

KIM JONG-un
João de Almeida Dias   11 Junho 2018


















Kim Jong-un não foi feito para ser líder. 
Em criança era viciado na NBA, mas cresceu depressa, ganhou respeito e meteu medo. 
Agora, tem pela frente o seu maior desafio: enfrentar Donald Trump.

Só na embaixada da Coreia do Norte é que sabiam exatamente quem era aquele rapaz baixo e redondo. 
Saía de manhã num carro luxuoso e blindado ao início do dia para ir para uma escola pública num bairro dos subúrbios de Berna, onde era conhecido pelo nome Un Pak. 
E, ao fim da tarde, tornava a subir ao carro da embaixada. 
Quando voltava, entre aquelas quatro paredes, voltava a ser como nasceu: Kim Jong-un, filho do “Querido Líder” Kim Jong-il e neto do “Eterno Líder” Kim il-Sung.

Para todos os que não frequentavam a embaixada da Coreia do Norte, Un Pak era o filho do embaixador de Pyongyang na capital Suíça. 
Conheciam-no por gostar de desporto, principalmente dos Chicago Bulls, admirando em particular Michael Jordan, cuja marca de ténis usava com gosto e vaidade. 
Por vezes, ia para o campo de basquetebol da escola, jogando até contra alunos mais velhos, diante dos quais tentava, sem sucesso, imitar os gestos do seu ídolo norte-americano. 
Ainda assim, era frequente haver um homem asiático, mais velho, a aplaudi-lo de forma excessiva do lado de fora da linha lateral. 
Os outros estudantes sempre acharam isso estranho — mas nunca fizeram caso.

Kim Jong-un, numa fotografia com a turma, na escola pública de Liebefeld-Steinhölzli, em Berna

Fora do campo, Un Pak via filmes e jogava videojogos sempre que podia nos seus tempos livres — e estes abundavam. 
No primeiro ano em que estudou na escola pública de Liebefeld-Steinhölzli, faltou a 75 aulas. 
No segundo, as faltas injustificadas foram 105. Não admira, por isso, que as suas notas não fossem espetaculares. 
Chumbava a Ciências Naturais; passava à tangente em alemão, inglês, artes e economia familiar, onde se aprendia costura, cozinha e outros ofícios. 
Uma das poucas disciplinas em que se destacava, embora aquém da nota máxima, era educação física — apesar de, aos 13 anos, já fumar cigarros de mentol.



























Kim Jong-un, com a mãe Ko Young-hee, uma atriz japonesa, anos antes de ir estudar para a Suíça


Era de poucas conversas e também de poucos amigos. 
A exceção foi João Micaelo, um português nascido em Cabeço de Vide, Portalegre, que emigrou com os pais para a Suíça ainda criança
O português juntava-se ao amigo norte-coreano, Un Pak, com quem partilhava a carteira na escola e o facto de não dominarem o alemão que grande parte dos seus colegas falavam desde pequenos.

Um dia, contou João Micaelo em diferentes entrevistas, Un Pak revelou-lhe que, ao contrário do que lhe tinha dito a ele e a todos os outros, não era filho de um diplomata da Coreia do Norte.
Tirou uma fotografia e, depois de se assinalar a ele mesmo, apontou para o homem que estava ao lado: Kim Jong-il, o ditador da Coreia do Norte, o seu pai.

“Pensava que ele estava a inventar aquilo”, contou João Micaelo ao Telegraphem 2010.
O jovem português, que hoje é chef num restaurante em Berna, descartou aquela informação.
Pouco sabia da Coreia do Norte, desconhecia a personalidade de Kim Jong-il e achou que o amigo estava pregar-lhe uma mentira.

Só no verão de 2010 percebeu que, afinal, era verdade: Un Pak era mesmo filho do ditador da Coreia do Norte. 
Algo que apenas descobriu quando foi contactado por vários jornalistas em 2010.
Foi nessa altura que Kim Jong-un passou a aparecer ao lado do pai e foi oficiosamente apontado como sucessor na liderança do reino eremita da Coreia do Norte.
Os jornalistas, sem dizer ao que iam, mostravam-lhe fotografias daquele rapaz norte-coreano e perguntavam-lhe se o conhecia.
“Claro que conheço, é o Un Pak!”, chegou a responder-lhes João Micaelo.
Faltava apenas mudar um detalhe para aquilo que tomou como uma mentira do seu amigo se tornar na mais pura das verdades: o seu nome não era Un Pak, mas sim Kim Jong-un, o “Sol Brilhante do Século XXI”.

À terceira foi de vez: como Kim Jong-un passou para a frente na linha de sucessão

Pouco se sabe da vida de Kim Jong-un entre o tempo em que esteve na Suíça — passagem confirmada por todos menos pelos norte-coreanos, que mantêm esse mistério — e a altura em que sucedeu ao pai no poder, a 30 de dezembro de 2011.

Aos olhos de Kim Jong-il, o filho mais novo era o preferido para lhe suceder no poder.
Essa decisão passou a ser cada vez mais premente à medida que piorava a saúde de Kim Jong-il, que no final da sua vida lidou com problemas cardiológicos.
Olhando para os três filhos, a escolha ter-lhe-á parecido evidente.

Kim Jong-nam, o mais velho, estava fora de questão.
Primeiro, por ter sido causa de embaraço por ter sido apanhado com a mulher e filhos a tentar entrar no Japão, onde ia visitar o parque da Disneyland, com um passaporte falso. Depois, porque eram conhecidos os seus desejos de reforma económica e social na Coreia do Norte, fruto de ideias que cultivava no estrangeiro, onde passava grande parte do seu tempo, tendo vivido vários anos em Macau.

A seguir, na linha de sucessão, estava Kim Jong-chul.
Depois da queda em desgraça de Kim Jong-nam, passou a ser treinado para suceder ao pai.
Porém, este ter-se-á arrependido do esforço, por notar que ele era muito “fraco” e “efeminado” — fama que terá surgido por ele, em tempos, usar um brinco em cada orelha.
Como jovem adulto, era também um melómano.
Foi visto várias vezes no estrangeiro em concertos de Eric Clapton — e um telegrama diplomático chinês divulgado pela Wikileaks conta que, em 2007, convidou o músico britânico para tocar na Coreia do Norte.
Sem sucesso.

Sobrava, então, Kim Jong-un.
A sua rota para a cadeira mais alta da Coreia do Norte começou a ser confirmada em 2009, ano em que foi nomeado para diretor da Comissão Nacional de Defesa.
Em 2010, foi promovido a general de quatro estrelas e vice-presidente do Comité Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte.
Enquanto isso, passou a aparecer ao lado do pai em situações públicas.
Uma delas foi a inauguração de um prédio de apartamentos com um aspeto futurista, em Pyongyang.
Sério e austero, Kim Jong-il inspeciona as casas, abrindo armários de cozinha e experimentando a torneira da casa.
Embrenhado no meio da imensa comitiva, Kim Jong-un assiste aos encontros do pai com as famílias que vão inaugurar as casas.
Nalgumas ocasiões, salta para a fila da frente e faz ele de mestre de cerimónias.


Não faltou muito desde então para Kim Jong-un subir ao topo da nomenklatura norte-coreana. 
No dia 17 de dezembro, Kim Jong-il morreu daquilo que se pensa ter sido um ataque cardíaco. 
Nos dias que se seguiram, o país irrompeu naquilo que o regime mostrou ser um pesar coletivo, com imagens de civis a chorar convulsivamente nas ruas. 
O ponto alto desse momento nacional foi o funeral de Kim Jong-il, cujo caixão cruzou as principais ruas de Pyongyang perante fileiras de gente aparentemente desconsolada. 
Na véspera, durante o velório do pai, Kim Jong-un chorava de igual forma. 
Com a cara vermelha e contorcida, foi filmado a limpar as lágrimas com um lenço branco que levava no bolso do casaco.

Dias depois, a 30 de dezembro, Kim Jong-un assumia a liderança do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte e tornava-se no terceiro líder do país mais fechado do mundo.

Para não acabar como Kadhafi: executar, executar, executar

Quando chegou ao poder, Kim Jong-un era muito novo.
Tinha entre 29 a 31 anos, dependendo da data de nascimento que considerarmos correta. De uma forma ou de outra, era o líder político mais jovem do mundo.
E, por isso, tinha quase tudo a provar — tanto fora como dentro da Coreia do Norte.

Cerca de três meses antes de Kim Jong-un suceder a Kim Jong-il, Muhammar Kadhafi era morto por civis.
Estava ali a prova de que, de um momento para o outro, um ditador podia ser espezinhado nas suas próprias ruas — bastando para isso uma revolta com contornos militares e ajuda exterior para fazer esta vingar.

Os primeiros tempos de Kim Jong-un foram de consolidação da sua base de poder, que no início era praticamente inexistente.
“Antes de morrer, Kim Jong-il deixou tudo preparado para o filho lhe suceder e fez os possíveis para que os generais confiassem nele”, conta ao Observador John Cha, escritor radicado na Califórnia e autor de uma biografia de Kim Jong-il.
“Mas Kim Jong-un era muito novo, não tinha praticamente experiência nenhuma, sobretudo se compararmos com a forma como o pai dele chegou ao poder”, refere. “Kim Jong-il esteve 20 anos a acompanhar de perto o pai dele, Kim il-Sung.
Kim Jong-un só teve isso durante dois anos.”

Com a chegada de um líder jovem e educado no estrangeiro, não faltou quem previsse ali uma oportunidade para uma abertura do regime, como se também na Coreia do Norte fosse possível haver uma perestroika. 
Mas desde cedo Kim Jong-un demonstrou que não era um segundo Mikhail Gorbatchov. 
“Quando ele assumiu o poder, tinha um de dois caminhos a tomar: ou a abertura do regime, ou a abertura das purgas. 
E acabou por fazer o mesmo que o seu pai quando subiu ao poder: purgas a torto e a direito”, explica John Cha.

De acordo com números dos serviços secretos da Coreia do Sul, entre 2011 e 2016 Kim Jong-un mandou executar pelo menos 340 pessoas com cargos de alta responsabilidade no regime norte-coreano, tanto na administração pública como no exército.

De todas as execuções levadas a cabo por Kim Jong-un, nenhuma terá sido tão importante como a do seu tio por afinidade, Jang Song Thaek, casado com a única filha de Kim Il-Sung. 
Em 2010, depois de ocupar vários cargos de destaque partidário, Jang Song Thaek foi nomeado vice-diretor da Comissão Nacional de Defesa em 2010 — a mesma que Kim Jong-un já dirigia desde 2009.

Jang Song Thaek foi acusado de preparar um golpe de Estado contra Kim Jong-un, entre outros crimes

Kim Jong-un via no tio uma ameaça. 
Em 2012, soube que este tinha feito várias viagens à China, ao mesmo tempo que as relações da Coreia do Norte com aquele que era o seu principal aliado mundial começavam a esfriar. 
É possível que Kim Jong-un tivesse visto ali uma tentativa de derrubá-lo com apoio interno (Jang Song Thaek teria boas relações com vários generais norte-coreanos) e externo (por parte da China).

Em 2013, Kim Jong-un executou-o. 
Horas depois de eliminar o tio, os media da Coreia do Norte publicaram uma longa explicação para a execução do homem que foi então descrito como “escumalha humana” e “pior do que um cão”. 
Entre os crimes que lhe foram atribuídos estava a preparação de um golpe de Estado. Naquela nota, foi até incluída uma citação onde Jang Song Thaek admitia ter um plano para derrubar o sobrinho: “Ia fazer um golpe de Estado com oficiais do exército que eram próximos de mim ou mobilizando forças armadas sob o controlo dos meus confidentes”. Também eram feitas outras acusações, como a de ter esbanjado 4,6 milhões de euros em casinos no estrangeiro ou permitir que o “estilo de vida decadente do capitalismo” entrasse pela sociedade norte-coreana adentro, distribuindo “todo o tipo de imagens pornográficas” junto daqueles que lhe eram mais próximos.

Enquanto isso, uma investigação da Comissão de Inquérito para os Direitos Humanos na Coreia do Norte, um órgão das Nações Unidas, apurou que há entre 80 mil a 120 mil norte-coreanos presos em campos de trabalhos forçados. 
Os autores da investigação concluíram que Kim Jong-un e o regime norte-coreano são culpados de 10 dos 11 crimes internacionalmente reconhecidos como crimes contra a humanidade. 
Deles todos, só a segregação racial não é utilizada pela Coreia do Norte.

Em 2017, o ditador norte-coreano voltou a merecer a atenção do mundo após um novo assassinato de um familiar. 
Desta vez, foi o seu irmão mais velho, Kim Jong-nam. 
Em fevereiro de 2017, duas mulheres de nacionalidade malaia agarraram-no por trás no aeroporto de Kuala Lumpur. 
Uma delas colocou um pano embebido num químico nervo-tóxico, acabando por matá-lo. As razões deste assassínio não são claras, sabendo-se apenas que Kim Jong-nam discordava dos métodos do regime do seu irmão mas que, ao mesmo tempo, não tinha intenções de subir ao poder.


Os contornos pouco claros deste homicídio ajudaram a fortalecer ainda mais a ideia em torno de Kim Jong-un como um líder inabalado por qualquer tipo de dúvida, agarrado acima de tudo ao seu poder e implacável com aqueles que ousam (ou que se pensa que ousam) pô-lo em causa.





















Kim Jong-nam, o filho mais velho de Kim Jong-il, chegou a ser o designado para o lugar de Kim Jong-un, mas caiu em desgraça. Em 2017, foi assassinado

Nalguns casos, essa fama deu lugar a notícias que mais tarde, já depois de terem corrido o mundo, vieram a ser desmentidas. 
Uma delas diz respeito à execução do tio de Kim Jong-un. 
Dias depois de esta ter sido conhecida, um perfil satírico na rede social chinesa Weibo pôs a circular um rumor que não tardaria a ser tomado por vários media ocidentais como verdadeiro: que Jang Song Thaek foi morto após soltarem 120 cães esfomeados sobre ele. Outro rumor, igualmente tomado como verdadeiro nalguns meios noticiosos, garantia que todos os homens norte-coreanos passariam a ser obrigados a ter o mesmo corte de cabelo de Kim Jong-un.

Quando Dennis Rodman conheceu Kim Jong-un, um “miúdo espetacular”

Uma coisa são os rumores que surgem desde fora da Coreia do Norte. 
Outra, são os gestos que Kim Jong-un faz chegar ao resto do mundo e alimentam uma ideia de excentricidade e que, ao mesmo tempo, com alguma boa vontade, podem ser considerados também uma pequeníssima abertura do regime. 
Foi já durante o seu consulado que a Coreia do Norte se entregou a projetos inusitados para um país onde 30,9% da população é subnutrida, como a construção de um centro de espetáculos com golfinhos ou de um resort de ski.

Porém, não há história mais invulgar do que aquela que se deu quando Kim Jong-un abriu as portas hermeticamente fechadas do seu país para receber o basquetebolista e enfant terrible dos Chicago Bulls da década de 1990, Dennis Rodman. 
Tudo isto foi concebido por Shane Smith, fundador do site de reportagens e lifestyle Vice, que queria acima de tudo filmar um documentário na Coreia do Norte — e acabou por fazê-lo, atraindo a atenção do mundo para aquele que era o primeiro encontro de Kim Jong-un com uma personalidade norte-americana. 
No seu regresso, Dennis Rodman descreveu o ditador norte-coreano como um “miúdo espetacular” e “não tão mau quanto se pensa”
A única maneira de esta história ficar ainda mais estranha seria repeti-la — e isso aconteceu. 
Até agora, Dennis Rodman já viajou à Coreia do Norte pelo menos cinco vezes. 
Ou seja, mais do que qualquer governante, dirigente político ou diplomata nascido nos EUA.

Este é um país que, nas imagens de satélite feitas durante a noite, deixa a ideia de que quase nada existe, já que é uma enorme mancha negra entalada entre a China e a Coreia do Sul.
Por isso, Ramon Pacheco Pardo, presidente da Korea Chair da Vrije Universiteit de Bruxelas e professor no King’s College de Londres, nota um desejo de modernidade nestes gestos de Kim Jong-un.
“Ele é muito diferente do pai e do avô”, diz ao Observador.
“A maneira como ele fala é muito mais moderna do que a dos seus antecessores.
Ele quer passar a imagem de que é uma pessoa comum, de quem é um homem do povo.
É precisamente isso que a maior parte dos políticos quer fazer e ele, nesse sentido, é um verdadeiro político.”

Ao contrário do pai, que raramente falava em público, Kim Jong-un passou a instituir a prática de fazer discursos, nomeadamente no Ano Novo.
Também é frequente vê-lo em eventos desportivos ou culturais.
Em abril deste ano, estava no camarote quando, de forma inédita, uma banda de K-pop sul-coreano tocou para uma plateia norte-coreana, em Pyongyang.
Também esteve presente noutro espetáculo musical, mais conservador, onde foi filmado a chorar depois de se ter emocionado com as canções.
Afinal, um Kim também chora.


Também na economia se nota uma abertura do setor privado que, apesar de iniciada por Kim Jong-il para colmatar as áreas onde o Estado falhou em alturas de crise humanitária, como as fomes da década de 1990, é sob a liderança de Kim Jong-un que mais se faz sentir.
De acordo com as estimativas do especialista russo em estudos coreanos Andrei Lankov, o setor privado compõe entre 30 a 50% do PIB da Coreia do Norte.

Ao Observador, Nicolas Levi, especialista na Coreia do Norte e professor na Academia das Ciências da Polónia, Kim Jong-un está a tentar encontrar um equilíbrio identificado já noutros países.
“A Coreia do Norte está a tentar aproximar-se do modelo económico de países como o Irão, Cazaquistão e Turquemenistão, com a promoção da liberalização de uma economia, sem qualquer tipo de liberalização no que toca à política”, diz, numa resposta enviada por e-mail.
























Ao contrário do pai, Kim Jong-un está habituado a fazer discursos em público

John Cha sublinha que, no aspeto social e económico, Kim Jong-un é bastante diferente do seu pai. 
“O pai de Kim Jong-un era um homem muito austero e secreto, nunca ou raramente falou para fora da Coreia do Norte. 
E Kim Jong-un gosta de falar em público, não tem medo disso, até gosta”, diz. 
Mas as diferenças param aí, adverte o escritor. 
“Eles têm o mesmo ADN, são os dois ditadores implacáveis. 
Matam muitíssima gente. 
Nesse aspeto importante, não há diferença entre um e outro.”

Mísseis nucleares: de sonho de família a seguro de vida

Desde a assinatura do Armistício de 1953, que pôs um intervalo na Guerra da Coreia, Pyongyang tem-se tornado, gradual mas irreversivelmente, num regime diplomaticamente isolado. 
Mesmo mantendo relações económicas com alguns países, algumas delas obscuras e até ilegais, a Coreia do Norte é acima de tudo um país sozinho. 
O próprio nome da ideologia de base da Coreia do Norte aponta nesse mesmo sentido: Juche ou, em português, autossuficiência.

Ao longo da sua história, a Coreia do Norte sempre procurou ter um programa de armas químicas e nucleares — um objetivo em linha com a ideologia Juche. 
Porém, foi preciso o país chegar às mãos de Kim Jong-un para aquilo que já era um objetivo do seu avô e também do seu pai tornar-se realidade.

Com Kim Jong-un, tudo começou com a tentativa de lançamento de um satélite em abril de 2012, naquilo que era um sinal claro para o mundo — afinal, quem consegue lançar um satélite também consegue lançar um míssil intercontinental.
Pouco depois de levantar voo, o satélite de batismo de Kim Jong-un desfez-se e despenhou-se no mar, próximo da Coreia do Sul.
Foi um fracasso para o líder norte-coreano, mas também um fracasso público e assumido nos media estatais, que anunciaram então que os cientistas estavam “a tentar encontrar a causa da falha”.

Foi um falhanço evidente, mas não o suficiente para demover Kim Jong-un.
Em agosto do mesmo ano, levou para a frente uma revisão constitucional.
A partir de então, a Coreia do Norte passou a ser, de acordo com o seu texto fundamental, um “Estado nuclear”.
E, de acordo com aquilo que Kim Jong-un foi provando ao mundo, essa realidade não ficou só no papel.

Nos pouco mais de seis anos que leva na liderança a Coreia do Norte, Kim Jong-un já fez 78 lançamentos de mísseis — ao passo que o seu avô, durante perto meio século de poder, fez apenas 17; e o seu pai em quase uma década fez 45.
Entre os lançamentos de Kim Jong-un, quatro foram testes para mísseis nucleares.
Além disso, testou dezenas de mísseis balísticos.
Alguns sobrevoaram território japonês ou passaram ao largo da Coreia do Sul, pondo em alerta autoridades e populações.
Outros, sabe-se que têm capacidade para atingir alvos até 15 mil quilómetros de distância — ou seja, o suficiente para atingir os EUA e outras partes do mundo.



























Nas Nações Unidas, Donald Trump disse que se os EUA podem "não ter outra escolha além de destruir totalmente a Coreia do Norte"

Nem os alertas de Donald Trump, que prometeu atacar a Coreia do Norte com “fogo e fúria”, pareceram demover o ditador da Coreia do Norte. 
O pico da tensão deu-se após o discurso de Ano Novo de 2018 de Kim Jong-un, onde uma das palavras mais utilizadas foi nuclear — um total de 24 vezes. 
“De maneira alguma os EUA deverão começar uma guerra contra mim e contra o nosso país. 
Todo o seu território continental está dentro do alcance de um ataque nuclear nosso — e o botão nuclear está sempre na minha secretária”, advertiu.

Em resposta, Donald Trump escreveu no Twitter que o seu botão nuclear era “maior”. 
“E funciona!”

















A troca de ameaças entre os dois líderes deixou de ser um fait-diver, aumentando a olhos vistos a possibilidade de uma guerra nuclear num futuro próximo. 
Tanto que, a 13 de janeiro, um erro humano levou a que fosse decretado um alerta real para um míssil que, afinal, não existia.

Porém, o discurso de Ano Novo de Kim Jong-un teve outro elemento que, perante a perspetiva de um holocausto nuclear, não mereceu a atenção devida — e viria a marcar os meses que se seguiram, virando uma nova página no reinado de quase seis anos do ditador norte-coreano.
É que se é verdade Kim Jong-un disse “nuclear” 24 vezes durante o discurso de Ano Novo, também o é que disse “Sul” em 25 ocasiões.

Para o “Sul”, a forma como se refere à Coreia do Sul, Kim Jong-un falou sobretudo num tom que parecia procurar reduzir a tensão e deixava uma promessa para 2018: “Abriremos as nossas portas a quem quer que seja da Coreia do Sul, incluindo do partido no poder ou da oposição, organizações e personalidades de todos os quadrantes, para diálogo, contacto e viagem, se desejarem honestamente a concórdia e a união nacionais”.
A partir daí, tudo mudou — mais que não seja à superfície.

Kim Jong-un, o diplomata inventado

Seguiram-se meses em que, de repente, a palavra “diplomacia” passou a fazer parte do léxico da Coreia do Norte. 
Dois dias depois do discurso de Ano Novo, a 3 de janeiro, a Coreia do Norte e a Coreia do Sul decidiram reabrir o canal de comunicação entre os dois governos.
A 9 de janeiro, comprometeram-se a competir nos Jogos Olímpicos de Inverno, na Coreia do Sul, com uma única equipa de hóquei no gelo feminino.
Durante esse evento desportivo, uma das irmãs de Kim Jong-un, Kim Yo-jong, entregou ao Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, um nota escrita pelo irmão a convidar o líder sul-coreano a ir a Pyongyang.

Em março, por fim, uma delegação em representação de Moon Jae-in foi recebida em Pyongyang.
Ali, ficou acordada a realização de uma cimeira inter-coreana.
Depois, a delegação sul-coreana viajou até Washington para se encontrar com Donald Trump.
No final da reunião, os representantes de Moon Jae-in deram uma notícia inesperada: a pedido de Kim Jong-un, entregaram a Donald Trump um convite para uma cimeira entre a Coreia do Norte e os EUA. 
O Presidente norte-americano, que se gaba de dominar a “arte do negócio”, aceitou.

Ainda em março, Kim Jong-un fez algo que ainda não tinha feito desde que se tornou Presidente da Coreia do Norte: foi ao estrangeiro. 
Mais propriamente, foi à China, antigo aliado do regime de Pyongyang que nos últimos anos tem aumentado o tom nas críticas a Kim Jong-un, ao ponto de apoiar a aplicação de sanções contra aquele aliado. 
Porém, com a intenção declarada de reduzir a tensão na região, Xi Jinping convidou Kim Jong-un a visitá-lo em Pequim. 
Foi uma visita relâmpago, mas simbólica: foi a primeira visita de Estado de Kim Jong-un desde 2011. 
O bom augúrio entre os dois países foi confirmado com uma segunda visita do ditador coreano à China, em maio.

Foi debaixo da sombra da cimeira de 12 de junho que Kim Jong-un e Moon Jae-in se encontraram em abril de 2018. 
Ali, os dois líderes desfizeram-se em apertos de mão e abraços, fielmente seguidos por câmaras sempre que os dois não estavam fechados dentro de uma sala de negociações.






















Em abril, Kim Jong-un atravessou a fronteira para a Coreia do Sul, onde se encontrou com Moon Jae-in. No final, comprometaram-se com “uma nova era de paz"

Das conversas que tiveram à porta fechada, saíram a público algumas declarações inesperadas de Kim Jong-un. 
Primeiro, uma piada. 
Em referência aos testes nucleares que marcaram o seu reinado, disse entre risos ao seu homólogo sul-coreano: “Vou garantir que não interrompo o vosso sono mais vezes”. Depois, o reconhecimento de uma falha. 
Referindo que gostaria de receber Moon Jae-in na Coreia do Norte, Kim Jong-un disse sentir “vergonha” do estado da estradas do seu país, admitindo que podiam atrapalhar uma visita oficial do sul-coreano.


No final da cimeira, os dois líderes assinaram um documento onde ambas as partes se comprometiam com uma “uma nova era de paz” e com a “desnuclearização da Península da Coreia”. 
E, da parte da Coreia do Sul, a Coreia do Norte conseguiu arrancar a garantia de que seriam dados “passos práticos” para estabelecer a “ligação” e “modernização das ferrovias e estradas”.

Se tudo correr como planeado, Kim Jong-un terá dentro de pouco tempo menos estradas esburacadas com que se envergonhar. 
O resto, nomeadamente a desnuclearização da península — que de um lado significa o desmantelamento nuclear da Coreia do Norte e do outro a retirada das forças militares norte-americanas destacadas na Coreia do Sul, já Seul por si só não é uma potência nuclear — é um objetivo ainda por concretizar. 
E que, necessariamente, depende daquilo que for decidido a 12 de junho, entre Kim Jong-un e Donald Trump.

Já muito se escreveu sobre os dois líderes, os seus feitios difíceis, a inflexibilidade em abandonar objetivos previamente fixados e a imprevisibilidade com que atuam. 
Alguns aventam até a possibilidade de, salvaguardadas as distâncias, um ser a versão do outro. 
John Cha hesita em ver as coisas dessa forma. 
“Pode ser que se diga isso numa noite de copos. 
São os dois pouco convencionais, sim. 
Mas, olhando para a experiência de cada um, eles são completamente diferentes”, diz.

Para Balázs Szalontai, professor do Departamento de Estudos da Coreia do Norte da Universidade de Coreia, em Seul, Kim Jong-un é o menos imprevisível dos dois, tudo porque atua dentro da mesma linha do seu avô e do seu pai. 
“A decisão aparentemente abrupta de mudar do confronto para uma ofensiva de paz não difere muito da tática tradicional da diplomacia norte-coreana. 
Isto aconteceu várias vezes ao longo da História”, conta. 
“Primeiro, cometem um ato extremamente agressivo. 
Depois, mostram um ramo de oliveira.”


Por outro lado, diz John Cha, chegar a este patamar de negociações seria impensável para Kim il-Sung ou Kim Jong-il. 
Agora, Kim Jong-un, o mais inexperiente da dinastia Kim, vai ter pela frente um Presidente dos EUA. 
Mas, se o seu ar ocasionalmente amigável ou ausência de rugas fazem pensar que Kim Jong-un vai jogar à defesa em Singapura, o autor desfaz essa ideia: “Ele não vai a Singapura para ser um gajo fixe. 
Ele tem um arsenal de armas nucleares à disposição, portanto não vai estar ali a dizer: ‘Vamos todos ser amigos, malta!’. 
Nem pensar. 
Ele é assim quando tem Dennis Rodman pela frente. 
Com Donald Trump, muda tudo”.


Trump e Kim: um encontro histórico para começar um longo processo

CIMEIRA EUA-COREIA DO NORTE
João Ruela Ribeiro
11 de Junho de 2018, 6:31 

O caminho até à aguardada cimeira de Singapura não foi fácil, mas pela primeira vez líderes dos EUA e da Coreia do Norte vão estar frente a frente. 
Há um mar de desentendimentos que os separam, portanto o melhor é que nem um nem outro entrem em detalhes.

Estávamos no Verão de 2016, em plena campanha eleitoral para as presidenciais norte-americanas, quando Donald Trump fez mais um dos seus comentários desconcertantes, ao afirmar estar disponível para se reunir com o líder norte-coreano Kim Jong-un para comerem “um hambúrguer a uma mesa de reuniões”. 
Dois anos depois, Trump irá tornar-se no primeiro Presidente dos EUA a encontrar-se pessoalmente com um líder da Coreia do Norte. 
Os hambúrgueres não estão confirmados.

Depois de meses de expectativa, e alguns percalços, o olhar do mundo vai estar concentrado na ilha de Sentosa, ao largo de Singapura, na esperança de vislumbrar uma saída diplomática para uma das principais crises de segurança do planeta. 
Nem Trump nem Kim querem regressar a casa sem anunciar uma vitória e, para tal, a ausência de pormenores no final do encontro pode ser a melhor receita.


A cimeira realizada em Singapura esta terça-feira é fruto de uma conjugação inédita de vários factores. 
No ano passado, a Coreia do Norte acelerou o desenvolvimento do seu programa nuclear, multiplicando testes balísticos e fazendo o ensaio da bomba mais potente do seu arsenal, em Setembro. 
Pela primeira vez, o regime dava a indicação de ser capaz de atingir directamente o território norte-americano – embora vários especialistas mantenham reservas sobre as reais capacidades norte-coreanas.

Confrontado com uma ameaça superior vinda de Pyongyang comparada com aquela que enfrentaram os seus antecessores, Trump respondeu inicialmente com declarações inflamadas em que prometia “fogo e fúria”
A escalada parecia terrivelmente inevitável. 
Por essa altura, um grupo de analistas do Pentágono calculava que havia um risco de 40% de eclosão de um conflito militar, diz a Atlantic.

Mas em Seul também havia uma nova Administração, liderada por Moon Jae-in, determinada a abrir uma janela de diálogo com o Norte. 
A diplomacia olímpica dos Jogos de Inverno criou um ambiente propício para um apaziguamento e a tendência de Trump para derrubar dogmas – a Economist utiliza esta semana uma bola de demolição para ilustrar a política externa da Administração Trump – fez o resto, ao aceitar um convite que estava há décadas em cima da mesa, mas que nenhum outro Presidente tinha arriscado aceder.
















O caminho para Singapura foi sinuoso e a realização da cimeira chegou mesmo a estar em risco. 
Depois de declarações azedas entre ambos os lados,Trump anunciou através de uma carta dirigida a Kim o cancelamento do encontro, de forma tão abrupta como o tinha aceitado. 
De Pyongyang vieram palavras menos exaltadas e rapidamente a agenda ficou reposta.

Na verdade, nunca nenhum dos lados quis dar como perdida a cimeira. 
“Deparados com cada obstáculo, ambos os líderes mantiveram os seus esforços para manter o encontro”, escreve o analista do Instituto Brookings, Ryan Hass. 
As expectativas de que Kim e Trump possam alcançar uma solução diplomática para a crise nuclear coreana são tão elevadas que nenhum dos dois poderia pagar os custos políticos de ser visto como o culpado por a cimeira nem sequer se realizar.

Problema nuclear

O grande elefante que vai estar na sala com Trump e Kim chama-se desnuclearização. Ambos dão indicações de que este é um objectivo do processo negocial, mas o seu significado em cada lado da mesa diverge. 
“Não há qualquer indicação que Washington e Pyongyang tenham alcançado uma definição compatível de desnuclearização”, diz Jonathan Pollack, também do Brookings.

Os EUA querem o desmantelamento total e irreversível das capacidades nucleares norte-coreanas, mas para a Coreia do Norte a possibilidade de poder ameaçar os EUA e os seus aliados são uma garantia de sobrevivência do regime, da qual dificilmente abrirá mão. 
“É claro que se podem negociar acordos, mas tenho a certeza que os norte-coreanos vão fazer tudo para garantir que o âmago das suas capacidades nucleares se mantém intacto”, diz ao PÚBLICO a analista do Stimson Center em Washington, Jenny Town.

Trump tem acenado com a possibilidade de oferecer incentivos económicos, e possivelmente aliviar as sanções, à Coreia do Norte se as negociações correrem bem. 
O Presidente dos EUA fala frequentemente no quão “próspero” pode ser o país nessa eventualidade. 
Mas não é certo que este seja o método mais eficaz para convencer Kim Jong-un. 
As sanções têm tido algum impacto na economia norte-coreana, especialmente depois de a China as ter começado a aplicar de forma eficiente, mas a ideia de se tornar dependente da ajuda financeira norte-americana é incompatível com a ideologia do regime. 
A professora da Universidade Feminina Ewha, em Seul, Kim Seok-hyang, lembra que “o Norte tem de justificar porque vai o seu líder encontrar-se com Trump, o chefe dos imperialistas americanos”.

“O que os norte-coreanos querem realmente é uma relação política fundamentalmente diferente” com os EUA, diz Jenny Town, que também não acredita que o alívio de sanções “não é o objectivo principal” de Kim. 
Isso passa pela normalização de relações e pela construção de um ambiente de confiança. “Eles querem sair [da cimeira] como um actor mundial reconhecido, em paridade com as grandes potências”, afirma a analista que é uma das editoras do site 38 North.

Trump e Kim chegam a Singapura em posições negociais diferentes, mas com uma missão semelhante: mostrar internamente que alcançaram uma vitória. 
Para isso, nos últimos tempos as mensagens públicas têm sido recalibradas para moderarem as expectativas. 
Town considera que estamos num “momento melhor” do que antes do cancelamento da cimeira. 
“Há menos promessas de que iremos ter já um acordo”, sublinha. 
A analista nota que parece existir alguma “flexibilidade” por parte da Casa Branca em relação ao timing da desnuclearização, quando há poucos meses se falava de um processo imediato.

No fim do dia, o mais provável é que a cimeira acabe por ser inconclusiva e Town acredita que seria “muito irrealista” esperar um desfecho diferente. 
“As conclusões da cimeira devem ser princípios gerais que forneçam um mandato, que indiquem as questões que devem ser resolvidas, uma linha temporal geral e um compromisso para o fazer”, observa a investigadora.

Se tudo correr bem, o histórico encontro de Singapura será apenas o lançamento de um longo processo – e não o seu fim.

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