segunda-feira, 11 de junho de 2018

Kim Jong-un: De pária obscuro a estadista afável em menos de seis meses

CIMEIRA EUA-COREIA DO NORTE
António Saraiva Lima
11 de Junho de 2018, 6:31 
























Cimeira com Trump é o ponto alto de uma súbita e aparente metamorfose do líder norte-coreano, com quem todos querem agora conversar. 
Fugidos ao regime lembram que Kim não deixou de ser um “demónio”.

Quando Kim Jong-un e Donald Trump apertarem as mãos e pousarem para uma fotografia histórica, na cimeira de terça-feira em Singapura, o líder norte-coreano completará uma importante etapa da transformação vertiginosa e surpreendente da sua imagem aos olhos da comunidade internacional. 

Depois de um ano de 2017 em que contribuiu para o aumento da tensão na Península da Coreia, ordenando alguns dos mais pujantes ensaios nucleares e balísticos registados na região, que, somados às acusações de violação de direitos humanos e de repressão diárias levadas a cabo pelo seu regime, lhe ampliou o isolamento na arena mundial, Kim completa os primeiros seis meses deste ano na pele de um dirigente político afável e de sorriso fácil, que muitos líderes mundiais querem conhecer.

Aproveitando esta aparente abertura de Kim ao que se estende para lá do paralelo 38, consagrada com a visita histórica à Coreia do Sul, em Abril, e confirmada com o encontro desta terça-feira com o Presidente norte-americano, Vladimir Putin (Rússia) e Bashar al-Assad (Síria) são alguns dos chefes de Estado que já tiraram senha para ser fotografados ao lado do obscuro e misterioso líder da Coreia do Norte, como o foram recentemente Xi Jinping (China), Moon Jae-in (Coreia do Sul) e Lee Hsien Loong (Singapura), ou os chefes da diplomacia de Moscovo e Washington, Sergei Lavrov e Mike Pompeo.

Trump acredita que foi a pressão insustentável das sanções económicas sobre Pyongyang que obrigou Kim a abrir o sorriso, mas para a maioria dos analistas é na suposta conclusão bem-sucedida do programa nuclear norte-coreano que reside a origem da mudança de atitude do líder comunista, que procura agora diversificar a economia do regime e forjar novas alianças, a partir de uma posição de força.

“Estamos a assistir à criação do ‘Kim Jong-un, o estadista internacional’ (...), muito diferente do desconhecido herdeiro [de Kim Jong-il] com cara de bebé que conhecemos em 2010”, refere Jean Lee, antiga editora da delegação da Associated Press em Pyongyang.

“Com um míssil balístico intercontinental preso no cinto, Kim surge como o líder de um país que se vê como uma potência nuclear. 
E os agentes internacionais estão a mergulhar de cabeça pela hipótese de o conhecer, de perceber quem ele é e saber o que quer para o seu país”, explica a jornalista, citada pela Reuters.


A suavização da imagem de Kim tem tido, no entanto, repercussões contrastantes na vizinha Coreia do Sul. 
Se a cordialidade demonstrada pelo líder norte-coreano no encontro com Moon contribuiu para aumentar, de 10% para 31%, a sua aprovação junto dos sul-coreanos – segundo uma sondagem da Gallup –, entre os milhares de norte-coreanos que fugiram para Sul da península ninguém esquece o “demónio” do Norte. 
O sentimento é, por isso, de desalento.

“Morreram tantos às mãos de Kim e do seu regime e dizem agora que ele é humano”, lamenta Song Byeok, um sobrevivente dos campos de trabalho norte-coreanos, que é hoje pintor na Coreia do Sul. 
À BBC, não esconde a raiva pela forma como no país que o acolheu estão a depreciar o passado da dinastia Kim: “Estão a romantizar um ditator e a ‘glamourizar’ o seu regime. Tudo isto é profundamente errado”.

antonio.lima@público.pt

"As expectativas para a cimeira eram demasiado elevadas"

CIMEIRA EUA-COREIA DO NORTE
João Ruela Ribeiro
11 de Junho de 2018, 6:33 






















Tanto Kim como Trump chegam a Singapura com vitórias pelo caminho, diz a analista do Stimson Center, Jenny Town. 
Mas o líder norte-coreano chega mais fortalecido "apenas por a cimeira estar a acontecer".

Há possibilidade de o encontro entre Kim e Trump acabar por se reduzir a uma simples coreografia televisiva?
É claro que é uma possibilidade. 
Quando isto começou, as expectativas sobre o que poderia ser alcançado na cimeira eram demasiado elevadas. 
Pensou-se que seria fácil, que teríamos este encontro, fechávamos um acordo e os problemas ficavam resolvidos. 
Mas não é certamente esse o caso. 
As mensagens vindas da Casa Branca nos últimos dias são muito mais realistas e reduziram bastante as expectativas. 
Penso que estão a tentar elaborar um guião daquilo que as negociações vão incluir para haver um objectivo final consensual e um prazo também consensual. 
Obviamente que [os dois líderes] também vão querer fazer algum tipo de grande gesto que possa servir para dar início ao processo.

Jenny Town
Quem chega a Singapura numa posição mais forte?
Ambos conseguiram algumas vitórias no caminho até aqui. 
E ambos chegam numa posição forte. 
Mas Kim está mais fortalecido apenas porque a cimeira está a acontecer. 
Isto era algo que os norte-coreanos queriam há décadas. 
Ajuda a legitimar a reputação pública, especialmente depois de ter sido declarada vitória no desenvolvimento das suas capacidades nucleares. 

O abandono norte-americano do acordo com o Irão teve impacto negativo na avaliação que a Coreia do Norte faz deste processo?
Certamente reforçou a imagem que a Coreia do Norte já tem acerca das garantias dadas pelos EUA. 
Já viram como os EUA abandonam acordos bilaterais ou multilaterais, portanto isto é consistente com a experiência que têm com os EUA. 
Se ficaram chocados, não creio. 
É por isso que qualquer expectativa que a Coreia do Norte faça concessões rápidas confiando na boa fé dos EUA tem de ser muito baixa. 
Em vez disso, eles vão tentar sempre avaliar como evolui essa relação e perceber se podem confiar nos EUA.

Trump deve abordar os abusos de direitos humanos durante o encontro com Kim, tal como a ONU pediu?
Penso que, a certa altura, Trump o poderá fazer. 
Não propriamente em relação às condições das colónias penais ou questões muito concretas, mas mais centrado no aspecto de política externa: os raptos, os detidos, os restos mortais de prisioneiros da Guerra da Coreia, ou reuniões familiares. 
À medida que nos aproximarmos de uma normalização das relações, penso que estas questões irão surgir mais frequentemente. 
As mensagens da equipa negocial não indicam que seja provável que isso aconteça nesta cimeira, mas é algo que irá surgir durante o processo negocial futuro. 
Mesmo para o Congresso concordar com uma normalização de relações, a questão dos direitos humanos irá certamente ser abordada. 
Não podemos ignorar pura e simplesmente este tema.

Que podem fazer outros países da região, que têm prioridades diferentes, para que os seus objectivos não sejam postos de lado neste processo?
A China e a Rússia estão a tentar fazer com que as suas vozes sejam ouvidas e que os seus interesses sejam tomados em consideração. 
E acho que o estão a fazer de forma muito sonora, através dos seus encontros com Kim Jong-un. 
Os chineses consideram que Moon Jae-in tem trabalhado arduamente para manter a China de lado, enquanto os EUA e a Coreia do Sul tentam negociar com a Coreia do Norte. 
Os russos e os chineses já deixaram bem claro que não vão ser postos de lado e que irão trabalhar com Kim. 
Se os rumores são verdadeiros e Trump, Kim e Moon se vão juntar para fazer uma declaração para acabar com a Guerra da Coreia, sem consultar a China, então os chineses podem passar a adoptar um papel de perturbadores do processo. 
Isso não significa que a China não quer paz na Península Coreana, mas há implicações políticas mais vastas de uma declaração de fim da guerra. 
E há implicações legais também, uma vez que a China também assinou o armistício. 
Eles irão achar muito insultuoso que se tenham estas conversações de paz sem que sejam consultados.

joao.ruela@público.pt

Trump e Kim: liderança sem integridade

EDITORIAL
Diogo Queiroz Andrade
11 de Junho de 2018, 6:37
A cimeira de Singapura pode ser um extraordinário sucesso ou um retumbante falhanço, mas provavelmente ficará a meio caminho destas opções.

Donald Trump e Kim Jong-un vão apertar as mãos e sentar-se frente a frente. 
Em pano de fundo está um jogo de xadrez que pode mudar a face da diplomacia global — ou redundar num fracasso sem precedentes para o poder de Washington.

O que esperar de um encontro entre duas figuras tão pouco fiáveis? 
Provavelmente, nada de bom. 
O problema destas personagens é que nada do que dizem ou fazem fica escrito na pedra: amanhã podem mudar de ideias pura e simplesmente porque a estratégia de curto prazo assim o determina. 
Toda a pressão económica — e o uso de linguagem bastante agressiva — colocada por Donald Trump nos últimos meses tem tido um efeito nulo, pelo que a cimeira sinaliza uma mudança de estratégia apelativa. 
Mas tudo pode ser demasiado óbvio. 
Os americanos querem uma coisa muito simples: que os norte-coreanos abandonem todas as armas nucleares que possuem e destruam todo o programa nuclear. 
É muito improvável que isso chegue sequer a estar em cima da mesa: é o único trunfo relevante de Kim e, mesmo que venha a estar escrito num acordo, será num cenário distante no futuro. 
Isto porque os homens de Pyongyang têm três exigências que querem ver reconhecidas antes de avançarem para a desnuclearização: segurança face ao vizinho do Sul e à presença militar americana na vizinhança do paralelo 38; respeito nas relações internacionais e reconhecimento como parceiro global; prosperidade financeira, o que implica a retirada imediata das sanções sobre o regime.

Trump não quererá correr o risco de voltar de mãos a abanar, especialmente depois de ter oferecido esta cimeira a troco de nada. 
Mas a recusa em preparar-se devidamente e a contínua predisposição para o exercício de vaidade colocam o Presidente americano nas mãos do líder coreano — que já mostrou o quanto entende Trump quando mandou entregar uma carta de simpatia num envelope gigante e adequado a uma encenação bem ao gosto da antiga estrela de O Aprendiz.

Por tudo isto, não vale a pena esperar por um resultado extraordinário na cimeira de Singapura: o mais certo é que esta seja uma primeira ronda inconclusiva de compromissos a definir, num calendário em aberto, de forma que nenhum dos líderes perca a face. 
Mas com dois líderes que não se prestam a provas de confiança nem estabilidade, é perfeitamente possível antever o fim abrupto das negociações ou o não-cumprimento de um eventual plano. 
É o risco de negociar com líderes que não inspiram confiança.

dqandrade@público.pt

Imprensa norte-coreana fala de desnuclearização e “nova era” nas relações

CIMEIRA EUA-COREIA DO NORTE
LUSA
11 de Junho de 2018, 9:13 
Prepara-se a cimeira histórica em Singapura

A imprensa norte-coreana faz uma antevisão daquela que vai ser uma cimeira história entre os líderes norte-coreano e norte-americano: do "estabelecimento de novas relações" entre Pyongyang e Washington, à "construção de uma paz permanente" com a desnuclearização da península.

A imprensa norte-coreana fez nesta segunda-feira uma antevisão da cimeira histórica entre o líder do país e o Presidente dos Estados Unidos marcada para esta terça-feira, escrevendo que vai ser discutida a desnuclearização da península coreana, como parte de uma "nova era" nas relações bilaterais.

Segundo um despacho da agência noticiosa oficial KCNA, Kim Jong-un e Donald Trump vão discutir, em Singapura, o "estabelecimento de novas relações" entre Pyongyang e Washington, a "construção de uma paz permanente" e a "implementação da desnuclearização da península coreana e outros assuntos de interesse mútuo". 
O texto indica que a cimeira, a primeira entre os dois países, celebra-se "sob o olhar atento e grandes expectativas de todo o mundo".

A capa do Rodong, jornal oficial do Partido dos Trabalhadores, partido único do país, mostra Kim a chegar a Singapura, no domingo, transportado por um avião da companhia aérea chinesa Air China, e a ser recebido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Singapura, Vivian Balakrishnan. 
A segunda página do jornal destaca o encontro entre Kim e o primeiro-ministro de Singapura, Lee Hsien Loong, no mesmo dia, no palácio presidencial de Istana.

Em editorial, o jornal assegura que a Coreia do Norte "vai procurar, através do diálogo, a normalização das relações" com um país (sem identificar qual), sempre que essa nação "respeitar a autonomia" norte-coreana. 
A televisão estatal norte-coreana KCTV noticia também a viagem de Kim a Singapura, com imagens da chegada e a reunião com o primeiro-ministro Lee.

Já a norte-americana Associated Press, uma das poucas agências internacionais com delegação em Pyongyang, descreve a capital norte-coreana como a "calma no centro da tempestade". 
"Com poucas fontes de informação, além da imprensa estatal, rumores e passa a palavra, a maioria dos norte-coreanos está às cegas sobre o histórico evento, que potencialmente transformará as suas vidas", descreve Eric Talmadge, correspondente da agência em Pyongyang.

Trump e Kim vão reunir-se na terça-feira, em Singapura, num encontro histórico que ocorre depois de, em 2017, as tensões terem atingido níveis inéditos desde o fim da Guerra da Coreia (1950-53), face aos sucessivos testes nucleares de Pyongyang e à retórica beligerante de Washington.

sábado, 9 de junho de 2018

E assim nasceu uma estrela: Pelé

MUNDIAL 2018
Tiago Oliveira
10.05.2018 às 8H00

O "Rei" Pelé ainda hoje é o mais jovem jogador de sempre a marcar numa final de um Mundial
 

O melhor e mais famoso futebolista de todos os tempos espantou pelo primeira vez o mundo como estrela da equipa que deu o primeiro campeonato do mundo ao Brasil no Suécia 1958. Com apenas 17 anos (Esta é a sexta história na nossa série enquanto Portugal não entra em campo no Mundial da Rússia)

"Quando o Pelé marcou o quinto golo na final, tenho que ser honesto. 
Só me apeteceu aplaudir", confessou, muitos anos mais tarde, Sigvard Parling. 
O sueco falava como testemunha em primeira mão na emergência do maior talento que o futebol já tinha visto na maior palco do futebol, o Mundial. 
Que para muitos ainda é o melhor jogador de sempre (sim, já sabemos que isto é coisa para muita discussão) e o maior embaixador de sempre do desporto sem a benesse fas redes sociais. 
Falamos, claro, de Edson Arantes do Nascimento, Pelé para os amigos.



Não é fácil separar a história do ícone brasileiro da lenda que o rodeia mas, numa coisa, é possível convergir. 
O mito começou a ganhar forma no Mundial 1958 na Suécia perante o espanto dos adversários que, não só viram uma estrela nascer, como o Brasil atingir o primeiro título na competição.

Se hoje o pentacampeão mundial é visto como a potência mais reconhecida do universo futebol, há 60 anos era mais vista como uma nação do "tenta", sobretudo após o famoso débacle frente ao Uruguai em pleno Maracanã no Mundial de 1950 e outros saídas inglórias da prova. 
Aliás, as camisolas amarelas que hoje são tão exemplificativas do Brasil nasceram precisamente como forma de expurgar o equipamento branco que até ao "Maracanazo" tinha sido o principal.

Ao contrário do amadorismo verificado noutras edições do Mundial, os canarinhos prepararam esta edição quase como um desígnio nacional, com Vicente Feola a reunir todos os atletas um mês antes (o que na altura não era muito comum) para afinar tudo ao pormenor. 
Era uma seleção recheada de craques, com nomes míticos como Nilton Santos, Didi ou Garrincha. 
E que, só após muita pressão popular, incluiu o menino que se tinha estreado um ano antes com apenas 16 anos.

Pelé lá acabou por seguir na comitiva para o país nórdico onde a atenção mediática da competição era cada vez maior e daria ao então atleta desconhecido uma fama global sem paralelo. 
Se por estar tocado, se por Feola ainda não confiar no jovem de 17 anos, certo é que o herói desta trama só se estreou no último jogo da fase de grupos (juntamente com Garrincha). 
Jogo onde fez uma assistência e, segundo os relatos que chegam da época, deixou logo água na boca. 
Não mais saiu do onze inicial.

FUTEBOL DE ATAQUE

O Brasil jogava num inovador 4-2-4 (na altura, a esmagadora maioria das equipas europeias atuava com 3 defesas) que lhe permitia estar um passo à frente dos adversários que terão sido dos mais equilibrados em qualquer edição do Mundial. 
Além da anfitrião Suécia que, com a sua melhor geração de sempre, chegou à final, havia ainda a França de Kopa e Fontaine (melhor marcador de sempre numa só edição da prova, com 13 golos em seis jogos), a reforçada Alemanha campeã em título ou um País de Gales também a deixar a sua marca.

Foi uma competição com recorde de golos marcados e onde, mesmo com todo o talento à sua volta, Pelé rapidamente se assumiu como um talento inédito. 
O menino de sorriso tímido encarregou-se de ludibrirar os defesas adversários rumo ao título que faltava ao seu país. 
Após ter marcado o único golo na vitória por 1-0 sobre os galeses, seguiu-se a França nas meias-finais, jogo encarado quase como uma final antecipada. 
Se dúvidas ainda havia sobre o nascimento de uma estrela, foi aqui que elas se dissiparam.

O Brasil saiu a ganhar 2-1 para a segunda parte num jogo muito equilibrado, até que o génio se soltou. 
Em 23 minutos, Pelé fez um hat-trick e apresentou-se ao mundo em todo o seu repertório de fintas e finalização.

Na final, restava a Suécia a jogar em casa e, não querendo repetir o trauma de 1950, os canarinhos procuraram evitar o ambiente festivo que os havia recebido dessa feita. Fechados na concentração, chegaram a colocar em causa a entrada em campo se houvesse cheerleaders como estava previsto, por exemplo. 
Pedido que foi aceite após alguma diplomacia.

Para não confundir com o equipamento amarelo da equipa que jogava em casa, a equipa teve que entrar em campo com camisolas azuis (que ainda hoje são o equipamento secundário do Brasil) compradas com a brevidade possível. 
Sem o seu recente amarelo talismânico, os canarinhos rapidamente se viram em desvantagem mas, também rapidamente, igualaram a contenda por intermédio de outro craque desta geração, Vavá, que bisou antes do intervalo para colocar o resultado em 2-1.

Mais uma vez, seria após o intervalo que Pelé se mostraria, desta feita com um bis que inclui um dos golos mais icónicos da sua carreira. 
Sem deixar cair a bola no chão, recebe de peito, passa a bola por cima do defesa e remata para o fundo das redes. 
Não admira que este lance tenha levado o público sueco a aplaudir de pé e Sigvard Parling a proferir a frase que abre este texto. 
O mundo nunca tinha visto nada assim.


No final, a vitória fixou-se nos 5-2, com a Taça Jules Rimet finalmente a ser levantada pelos brasileiros. 
Foi a primeira vez (e única) que uma seleção não europeia venceu a competição no Velho Continente e os festejos do outro lado do atlântico foram imensos.

Em Pelé, ainda hoje o mais jovem de sempre a marcar na final da prova, estava encontrado a bandeira da seleção que ganharia dois dos três mundiais seguintes e que passou a carreira a deslumbrar públicos como verdadeiro embaixador do futebol. 
Reinado do Rei que só começou em 1958.

O Milagre de Berna ou o improvável nascimento de uma potência

MUNDIAL 2018
Tiago Oliveira
03.05.2018 às 8H00
A seleção alemã celebra a improvável vitória por 3-2 frente à favorita Hungria no Mundial de 1954 na Suíça, um jogo que ficou conhecido como o Milagre de Berna

Numa cena da clássica série de comédia britânica "Sim Sr. Ministro", Sir Humphrey Appleby está a explicar ao epónimo ministro o porquê da entrada de certos países na então Comunidade Económica Europeia. 
Chegado à Alemanha, afirma estarem à procura "de readmissão na raça humana" após o seu papel na II Guerra Mundial. 
E se tal visão ainda era comum no início dos anos 80, mais ainda em plena ressaca do conflito. 
Era uma nação dividida (literalmente) em duas que teve no futebol o início de uma redenção com os outros e consigo mesmo. 
Graças ao Milagre de Berna e frente a uma seleção húngara que ninguém esperava que perdesse.

Nos anos 50 a Europa ainda tinha nos escombros e no racionamento uma uma lembrança diária da guerra e foi por isso, sem surpresa, que quando a FIFA procurou organizar um novo nundial no Velho Continente, um dos poucos países poupados pela carnificina tenha sido o escolhido. 
Sede da organização que celebrava o seu 50º aniversário, a Suíça foi nomeada como o palco da quinta edição da competição.

SORTEIO PARA APURAR

Foi o primeiro Mundial a ser alvo de transmissões televisivas e que marcou a estreia de países como a Coreia do Sul ou a Turquia que se apurou por sorteio. 
O que quer isto dizer? 
Exatamente o que parece. 
Passamos a explicar: após dois jogos com a Espanha que acabaram empatados, realizou-se um terceiro jogo em Roma para definir quem ia à fase final. 
O encontro também terminou empatado o que - numa altura em que ainda não tinha sido inventado o desempate por grandes penalidades - obrigou a FIFA a recorrer a um método geralmente reservado para colocar as equipas nos grupos.

Desta forma, num palco e em recipiente improvisados, Luigi Franco Gemma (filho de 14 anos de um dos funcionários do estádio) foi escolhido para tirar um de dois papeis de dentro da Taça Jules Rimet (atribuída ao vencedor do Mundial). 
Calhou a Turquia, o que obrigou a Espanha dizer adeus à competição. 
E se pensam que este método é uma relíquia do passado, ainda em 2014 esteve próximo de ser utilizado quando havia hipótese de Irão e Nigéria estarem iguais nos seis critérios de desempate.

Mas voltemos à Alemanha, neste caso representada pela então RFA (República Federal Alemã, também conhecida como Alemanha Ocidental). 
Só após 1950 tinham sido readmitidos na FIFA e eram olhados com desconfiança por grande parte dos seus congéneres. 
O selecionador, Sepp Herberger, tinha escapado incólume aos julgamentos de desnazificação, apesar de ter sido um membro do partido desde os anos 30 enquanto o capitão, Fritz Walter, tinha escapado a uma deportação para a Sibéria por alguém o ter reconhecido como futebolista num campo de trânsito. 
Era um conjunto de amadores no qual poucos depositavam esperanças, ainda muito distante dos dias do "futebol são 11 contra 11 e no final ganha a Alemanha."

ESTRATÉGIA OU SÓ POUPANÇA?

Sobretudo quando no seu grupo tinham aquela que era considera a melhor equipa da época e uma das melhores de sempre, a Hungria de Puskas ou Kocsis. 
Os "poderosos magiares" ou "equipa dourada", como eram alcunhados, não conheciam a derrota há quatro anos e 31 jogos, tinham entre os escalpes uma vitória por 6-3 sobre a Inglaterra (na primeira vez que os ingleses perderam em solo caseiro) e eram os campeões olímpicos em título. 
Conhecidos pelas suas inovações táticas, percursores do futebol total dos holandeses, eram favoritos não só a vencer o Mundial como quase a cilindrar a oposição.

O que começaram por fazer, com uma vitória por 9-0 frente à Coreia do Sul. 
Seguiu-se um confronto com a Alemanha, mas ainda não era hora do milagre. 
Sabendo que podia perder porque tinha o play-off de passagem à fase a eliminar assegurado, e numa opção tática ainda hoje muito discutida (para perceber se queria poupar ou esconder a sua real força do adversário), Sepp Herberger mudou mais de metade da equipa e prontamente perdeu por 8-3. 
Uma sensação de falsa segurança que nem a lesão de Puskas (que só voltou a jogar a final e não a 100%) ajudou a mitigar.

Ambas as equipas apuraram-se e, com maior ou menor dificuldade - sobretudo a Hungria, que teve alguns jogos de grande dificuldade, ao contrário dos germânicos com um sorteio mais simpático - ultrapassaram as eliminatórias até marcarem novo encontro a 4 de julho de 1954 para a final de Berna. 
Agora sim, era hora do milagre. 
Além do espírito de equipa e de umas inovadoras chuteiras com pontas de ferro adaptáveis inventadas por Adi Dassler (fundador da Adidas) pouco mais se poderia atribuir de vantagens aos alemães, que cedo se viram a perder por 2-0 aos oito minutos e pareciam completamente perdidos em campo. 
Agora sim, foi a hora do milagre.

Aos 18 minutos já a Alemanha tinha recuperado da desvantagem perante a surpresa geral e com os adversários atónitos. 
Seguiu-se um período de domínio da Hungria que durou praticamente durante todo o jogo, com o guarda-redes Toni Terek a fazer várias defesas de recurso. 
Até que, quando nada o fazia prever, Helmut Rhan se tornou o herói da reconciliação de um povo consigo e com os outros. 
Quando faltavam seis minutos para os 90, encheu-se de fé e rematou de fora da área para aquele que é considerado o golo mais importante da memória coletiva germânica.


Puskas ainda viu um golo anulado por um fora de jogo questionável, mas estava consumado o Milagre de Berna perante o delírio dos alemães no estádio e que assistiam pela televisão. 
Foi o início da aura que fez dos germânicos uma das potências mais temidas dos Mundiais, presença regular em finais e detentores de quatro troféus.

Ao passo que os "poderosos magiares" nunca mais foram os mesmos e a inesperada derrota provocou ondas de choque e manifestações de descontentamento pelo país que, apenas dois anos mais tarde, se viu envolvido numa revolução e invasão soviética.





















Exposição alemã a comemorar os vencedores de 1954 com a bola da final ao centro

Já na RFA, a reação e o impacto foi diametralmente oposto. 
"Só nos apercebemos do que nos esperava quando regressamos. 
Só quando atravessamos a fronteira", recordou ao "Der Spiegel", Horst Eckel, jogador da equipa. 
O comboio mal conseguiu avançar com a multidão posicionada ao longo da linha e a equipa era engolida por adeptos em festa por onde quer que andasse.

"De repente, a Alemanha era alguém outra vez", de acordo com Beckenbauer, então um jovem adepto.
Um resultado que foi muito além de uns simples pontapés na bola: "recuperamos a nossa auto-estima."

O dia em que o soccer (por uma vez) saiu da sombra

MUNDIAL 2018
Tiago Oliveira
26.04.2018 às 8H00
A equipa dos EUA que provocou um dos maiores choques da história dos mundiais ao vencer a Inglaterra por 1-0
 
A vitória por 1-0 dos EUA frente à Inglaterra no Mundial 1950 é considerada uma das maiores surpresas de sempre, com uma equipa recheada de amadores (e dois luso-descendentes) a ganharem à pátria do futebol. Tão inconcebível que, segundo reza a lenda, alguns jornais britânicos achavam que a notícia tinha chegado com um erro: afinal era 10-0 para a sua equipa (Esta é a quarta história na nossa nova série enquanto Portugal não entra em campo no Mundial da Rússia)

Será provavelmente o momento mais alto da história do futebol norte-americano - vulgo soccer para aqueles lados - e no seu país praticamente ninguém se recorda ou fala dele. Mas do outro lado o seu efeito foi sísmico e destruiu um mito de superioridade que nunca mais se reafirmou com a mesma veemência. 
Argumento onde os protagonistas foram os EUA e a Inglaterra, o palco foi o Mundial 1950 no Brasil e o resultado foi uma vitória por 1-0 frente aos pais do futebol.

Apesar de terem participado no primeiro mundial, onde inclusivamente chegaram às meias-finais, o futebol foi durante largas décadas um desporto de terceira ou quarta categoria comparativamente a outras modalidades mais mediáticas nos EUA. 
Sem competições nacionais de relevo, a seleção era composta inteiramente por jogadores amadores, com um condutor de carros funerários e carteiros entre a comitiva, composta em grande parte por imigrantes de segunda geração e atletas recentemente naturalizados. 
Era o caso, por exemplo, de Eddie Sousa e Clarkie Souza, dois luso-descendentes que jogavam pelo Fall River Ponta Delgada (um dos clubes dominadores do futebol norte-americano de então) e compunham a ala esquerda da equipa.

Falamos de uma seleção que tinha perdido os seus últimos sete jogos internacionais sem apelo nem agravo, com um registo de 2 golos marcados e 45 sofridos, e que viajava para o Brasil com o rótulo de derrotada à partida. 
Só que como qualquer pessoa fã de uma boa história poderá dizer, pode haver sempre uma surpresa na manga. 
O que não parecia muito possível desta feita, até porque logo no primeiro jogo a doer da competição, a equipa norte-americana foi derrotada por 3-1 frente à Espanha. 
E seguia-se a Inglaterra.

A equipa de Sua Majestade participava no seu primeiro mundial, após ter recusado entrar nos anteriores por não considerar que houvesse adversários à altura dos inventores do futebol moderno. 
Conhecidos então como "os Reis do Futebol", tinham um histórico de 23 vitórias, 4 derrotas e 3 empates desde o final da 2ª Guerra Mundial com triunfos por 4-0 sobre a Itália e 10-0 frente a Portugal, entre outros. 
Uma equipa composta inteiramente por profissionais e onde pontificavam alguns dos melhores futebolistas do mundo, com destaque para o que era considerado mesmo O melhor, Stanley Mathews, o mago do drible.


Passar à fase final do Brasil 1950 (em que só os vencedores dos quatro grupos passavam ao grupo final) era considerado quase uma formalidade e a equipa não se deu sequer ao trabalho de juntar os jogadores de imediato, deixando alguns fazerem um tour de exibição para ganharem mais dinheiro, incluindo Stanley Mathews. 
Decisão que pareceu vindicada após a vitória sobre o Chile por 2-0 no primeiro jogo e que levou o treinador a tomar a decisão de deixar a estrela da companhia no banco para o jogo frente aos norte-americanos. 
Que tinham probabilidades, de acordo com as casas de apostas, de 500 para 1 de ganhar e que segundo o "Daily Express", até podiam começar "com três golos de avanço." 
Consegue adivinhar o que se segue?

"Acho que ninguém de nós achou que tinhamos alguma hipótese de ganhar", lembrou um dos veteranos da equipa, Walter Bahr. 
"O nosso objetivo era não perder por muitos." 
Ou, como afirmou o treinador, Bill Jefrey, os jogadores eram como "ovelhas à espera da chacina." 
O que não terá passado de jogo psicológico, mas não deixa de ser forte.

INCREDULIDADE GERAL

Os relatos que sobrevivem do jogo em Belo Horizonte deixam perceber o expectável. Domínio intenso dos ingleses desde o primeiro minuto do jogo, com o guardião Frank Borghi (cuja verdadeira ambição era jogar basebol, sonho que a 2ª Guerra Mundial terá travado) a aplicar-se várias vezes. 
Entre duas bolas no ferro até aos 12 minutos de jogo e uns ingleses complacentes, os EUA começaram a desenvolver algumas jogadas que mereceram o agrado dos exigentes adeptos brasileiros.

Os arranques de Clarkie Souza, sobretudo, iam provocando alguns calafrios enquanto a equipa subia timidamente. 
E eis que aos 37 minutos o impensável aconteceu. 
Um remate fraco de Walter Bahr, que o guarda-redes Bert Williams parecia ter controlado, foi desviado pelo recentemente naturalizado Joe Gaetjens (de origem haitiana) com a bola a entrar lentamente na baliza inglesa. 
1-0 e choque entre as hostes adversárias.

O golo deu renovada confiança aos americanos, que entraram mais fortes para a segunda parte, à espera do assalto inglês. 
Que nunca se materializou como se esperava, apesar de mais algumas oportunidades de golo, um apelo de grande penalidade e uma bola que o árbitro negou que tivesse entrado. Parecia estar destinado e o resultado improvável manteve-se até final, perante os vencedores (e uns vencidos) incrédulos.

Quando a notícia viajou o Atlântico até aos jornais ingleses, alguns editores assumiram que era um erro tipográfico e que o resultado, na realidade, teria sido 10-0 a favor da Inglaterra. Equipa que não mais recuperou do choque e perdeu no jogo seguinte também 1-0 para carimbar o adeus prematuro ao Mundial dos vencedores eleitos.

Já os norte-americanos viram o seu feito digno de David e Golias passar completamente ao lado do público e imprensa, até porque só havia um repórter do país a cobrir o evento, Dent McSkimming do "St. Louis Dispatch", que tinha pago a viagem do próprio bolso. 
"Foi como se a equipa de basebol inglesa tivesse jogado com os Yankees e vencido", recordaria mais tarde.























Num jogo que ficou para sempre no imaginário do futebol mundial, o Brasil perdeu por 2-1 no Maracanã frente ao Uruguai e perdeu a oportunidade de se sagrar campeão em casa 

Passariam 40 anos até os EUA voltarem a participar num Mundial e a vitória histórica caiu no esquecimento. 
Os jogadores voltaram ao anonimato das suas vidas de sempre, com a exceção, pelos piores motivos, de Joe Gaetjens. 
O marcador do golo regressou ao Haiti, onde as suas ligações à oposição ao ditador Papa "Doc" Duvalier garantiram o seu desaparecimento e assassinato.

Já Clarkie Souza viu a sua exibição ser reconhecida com a eleição para a equipa do torneio, proeza que só voltaria a ser repetida por um norte-americano em 2002, Claudio Reyna que, curiosamente, também é luso-descendente. 
No Mundial que ficou para a história como o do Maracanazo, em que os favoritos brasileiros foram derrotados em casa pelo Uruguai (com direito a suicídios), a surpresa maior terá sido mesmo cometida por uns amadores de que poucos se lembram.