sábado, 9 de junho de 2018

Senhoras e senhoras. Eis Leônidas, o homem que mostrou o pontapé de bicicleta ao mundo

MUNDIAL 2018
Tiago Oliveira
19.04.2018 às 8H00
Leônidas (à esq.) a marcar um dos três golos com que brindou a Polónia num jogo que terminou com uma vitória po 6-5 dos brasileiros
O "diamante negro" deu nome a uma barra de chocolate, fez sucesso com as adeptas francesas e converteu-se numa das primeiras estrelas de dimensão global no França 1938. De tal modo que um árbitro não sabia se o seu pontapé de bicicleta era contra as regras ou não (Esta é a terceira história na nossa nova série enquanto Portugal não entra em campo no Mundial da Rússia)


Haverá poucos gestos mais icónicos no futebol e com tanta capacidade de deixar as pessoas boquiabertas do que um bom pontapé de bicicleta. 
Que o diga Zinedine Zidane, por exemplo, quando ficou embasbacado com a nota artística de Cristiano Ronaldo e o seu tento que voltou a pôr todos a falar dos melhores lances do género da história. 
E a quem temos a agradecer a fama deste elástico movimento de pés e braços? Leônidas da Silva.

O "diamante negro" ou "homem elástico", como ficou conhecido para a posteridade, foi o grande responsável por fazer do pontapé do bicicleta algo tão popular e, para os primeiros que o viram, algo que desafiava as leis da física e da gravidade. 
Um pioneiro que foi a primeira super estrela brasileira, um dos primeiros nomes verdadeiramente globais do futebol e um homem que enfrentou com uma bola no pé os preconceitos raciais da época. 
E que teve no França 1938 o seu grande palco.

Não foi um percurso fácil, desde as favelas do Rio de Janeiro até ao topo do futebol mundial. 
Avançado centro diminuto mas com uma velocidade e uma agilidade que lhe permitiam estar sempre no sítio certo à hora certa, Leônidas teve uma ascenção meteórica. 
Na década de 30, em poucos anos, passou do São Cristovão para os gigantes como o Peñarol (no Uruguai), ou o Botafogo. 
Pelo meio, ainda foi ao Mundial 1934, mas sem o peso mediático e desportivo que alcançaria quatro anos depois.

Foi por esta altura que terá começado a treinar o movimento que ganharia a alcunha de pontapé de bicicleta. 
Para muitos, terá sido mesmo o inventor e, se é certo que não deveríamos deixar um facto meter-se no meio de uma boa história, não existem dados históricos que permitam comprovar essa asserção com 100% de certeza (as fontes mais fiáveis dizem que os primórdios do gesto estarão pelos finais do séc. XIX na América do Sul, entre as comunidades que conheceram o futebol por intermédio dos imigrantes ingleses). 
Ainda assim, ninguém lhe tira a fama como o homem que deu a conhecer esta arte ao mundo, assim como o seu primeiro grande mestre.

A primeira ocasião documentada em que o terá utilizado remonta a 24 de abril de 1932 e cedo a sua fama começou a levar multidões ao futebol na esperança de apanhar o lance que parecia saído das lendas de magia. 
De tal modo se tornou um ícone que quebrou a barreira racial e conseguiu ser contratado pelo Flamengo, então famoso pelo seu estatuto elitista branco. 
Por tudo isto a sua presença no terceiro Mundial tinha tudo para ultrapassar a de um mero jogador.

E assim foi. 
Numa competição onde Uruguai e Argentina não viajaram para França em protesto pelo segundo Mundial consecutivo na Europa, o Brasil foi o grande representante sul-americano numa altura onde os canarinhos (que então ainda não jogavam de amarelo) ainda não eram o sinónimo de futebol que hoje encarnam. 
Cartel que podem agradecer em parte a Leônidas, que se destacou logo no primeiro jogo a caminho de se tornar o melhor marcador do torneio, naquele que é um dos grandes clássicos da história dos mundiais.


Do outro lado estava a Polónia para o jogo de "mata-mata" (uma vez que não havia fase de grupos) que vendeu muita cara a derrota. 
O resultado foi de 6-5 (não, não é resultado de desempate por grandes penalidades), numa partida imprópria para cardíacos que contou com muitas reviravoltas no marcador, um campo cheio de lama, tempo-extra, e um hat-trick de Leônidas que saiu em ombros perante o entusiasmo geral.

Foi o início da fama do brasileiro que haveria de explodir na ronda seguinte. 
Seguiram-se mais dois golos frente à Checoslováquia (em dois jogos) na eliminatória em que mostrou ao mundo o pontapé de bicicleta. 
Segundo reza a lenda, o árbitro terá ficado tão estupefacto que não sabia se o que tinha acabado de ver estava de acordo com as regras do jogo ou não. 
Desta feita, não vamos deixar os factos intrometer-se no meio de uma boa história.

A eliminatória deixou mazelas físicas em Leônidas que terá saído a coxear de um jogo que levou Raymond Thourmagem a escrever para o "Paris Match" que, "esteja na terra ou no ar, o homem borracha tem um dom diabólico para controlar a bola e disparar tiros indefensáveis quando menos se espera. 
Quando ele marca, tudo parece um sonho." 
Aura que também passou para as adeptas francesas, segundo consta, que não perdiam uma oportunidade de meter conversa com a estrela que, pelo seu lado, não desprezava de todo a atenção.
A grande estrela do teatro de burlesco "Folies Bergère", Mistinguett, terá ficado encantada com a passagem por França do "diamante negro"

Numa ocasião, terá visitado o famoso teatro do burlesco "Folies Bergere" onde após o espetáculo foi convidado aos bastidores para conhecer a estrela, Mistinguett. 
Após a entrada no camarim, as atenções dos presentes viraram-se para ele, o que fez a artista sair para regressar com ainda menos do que tinha vestido anteriormente e dizer "claro que aceito o seu convite para jantar, querido". 
Leônidas não tinha convidado, mas aproveitou a oportunidade e ganhou uma fã. 
As artistas não perderam um jogo seu até ao final do Mundial.

Competição em que o "diamante negro" acabou por não agraciar a final porque, confiantes na sua superioridade, os brasileiros pouparam-no para o jogo das meias-finais. Saíram derrotados pelos eventuais bicampeões Itália e tiveram que se contentar com a disputa pelo terceiro lugar, com Leônidas a marcar mais dois golos e a ganhar o troféu para melhor artilheiro do torneio com sete tentos.

A fama global de Leônidas - que no seu país natal levou à criação do chocolate "diamante negro", ainda hoje um produto de grande sucesso - acabaria por ser cortada precocemente com o eclodir da II Guerra Mundial e o interregno dos mundiais por 12 anos. 
O avançado continuou a sua carreira pelo Brasil, onde após ter passado oito meses na prisão por ter falsificado documentos para escapar ao serviço militar obrigatório, ingressou no São Paulo onde acabou o seu percurso como jogador e chegaria a ser treinador.

Seria depois comentador e, mais tarde, dono de uma loja de mobília, longe dos olhares curiosos. 
Com o gesto gravado na memória coletiva que levou uma geração de milhões a apaixonarem-se pelo futebol e ganhou quase vida própria. 
Certo, Cristiano?

Os faraós pioneiros (e escoceses) que fizeram história na Itália de Mussolini

MUNDIAL 2018
Tiago Oliveira
13.04.2018 às 7H00
Mussolini entrega o troféu Jules Rimet ao capitão da Itália. O ditador italiano utilizou a competição de 1934 como uma montra do regime fascista e do poderio transalpino

Foi a primeira seleção africana a participar no Mundial e a única durante 36 anos. Ícones para toda uma geração, os estreantes do Egito só tiveram 90 minutos para fazer história no Itália 1934. 
Já com direito a queixas do árbitro (Esta é a segunda história na nossa nova série enquanto Portugal não entra em campo no Mundial da Rússia)

"Foi a minha primeira internacionalização e na altura não compreendi a magnitude daquele evento histórico." 
Nem Mustafa Kamel Mansour, guarda-redes do Egito, nem porventura muitos dos seus colegas que se preparavam para o primeiro jogo de qualificação para o Mundial de 1934. Mas o seu feito já estava a ser inscrito na memória coletiva de todo um continente que demorou até voltar ao maior palco do futebol global.

Foi uma competição de estreias, aquela que escolheu a Itália de Mussolini para a segunda edição do torneio e que o ditador tentou converter em montra do fascismo. 
Só para começar, pela primeira (e única vez) o campeão em título, o Uruguai, não esteve presente para defender o troféu como resposta à recusa da Itália em viajar para a América do Sul quatro anos antes.

Introduziu-se também o sistema de qualificação, após o sistema exclusivo de convites que a FIFA definiu para o torneio inaugural. 
36 equipas (inclusivamente a anfitriã Itália, também pela primeira e única vez) tiveram que disputar eliminatórias para chegarem à fase final de 16 equipas. 
O último play-off, por exemplo, jogou-se em Roma apenas três dias antes do arranque do Mundial, com os EUA a vencerem o México.

Desses lugares, apenas um estava alocado para uma equipa da África ou Ásia. 
E é aqui que entram os nossos pioneiros. 
O Egito já era a grande potência regional da altura, tendo ficado em quarto lugar do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 1928 (com uma vitória por 2-1 sobre Portugal nos quartos de final pelo caminho) e um futebol potenciado pelo globetrotter treinador escocês Jimmy McRae. 
Estrelas caseiras, como Mohammed Latif, Mahmoud Mokhtar e já referido Mansour abrilhantavam o plantel que sonhava com um papel de destaque.

Pelo caminho, a Turquia e o Mandato da Palestina (à época um colónia britânica que ocupava, com ligeiras diferenças, o atual território de Israel). 
Antes sequer de colocaram os pés em campo, os turcos desistiram (segundo os rumores da época, por não quererem nova humilhação à escala dos 7-1 com que foram brindados pelos faraós em 1928) o que converteu a fase de qualificação numa simples eliminatória. 
A primeira disputada por uma equipa africana e árabe que, ao contrário do que possa pensar, não era a Palestina, uma vez que a equipa era inteiramente composta por jogadores oriundos de Terras de Sua Majestade. 
Que não teve qualquer hipótese. 
Ou um autêntico passeio, fazendo uso dos chavões atuais.

O GOLO DA DIFERENÇA

No Cairo, perante um público oficial de 13 mil pessoas (muitos mais estiveram presentes de acordo com os relatos) o Egito venceu por 7-1 e praticamente carimbou a viagem para Itália. 
Só faltava a formalidade da segunda mão, onde uma equipa de segunda linha triunfou em Tel Aviv por 4-1. 
Eis que chegou a hora daquilo que hoje se trataria por amadorismo.

Apesar de o selecionador e a federação terem acordado um mês de concentração em caso de qualificação, incluindo a viagem e um semana de treinos já em solo europeu, os responsáveis fizeram ouvidos de mercador e deixaram a época doméstica decorrer normalmente. 
O resultado foi que a equipa se viu privada de alguns dos melhores jogadores e os preparativos foram tudo menos ideais, sobretudo se tivermos em conta que a fase final do Mundial era só jogos a eliminar. 
Por outras palavras, 90 minutos para validar anos de espera. 
Para se ter uma ideia, o sorteio tinha colocado a Hungria no caminho do Egipto a 27 de maio e a final da Taça que envolveu quase metade do plantel final (nove jogadores), só se realizou a 12 de maio.

Depois das peripécias, os faraós lá partiram para uma viagem de barco de quatro dias rumo a Itália e ao encontro com o destino em Nápoles. 
Apesar dos húngaros serem os favoritos, a confiança era elevada e o jogo havia de provar, segundo Mustafa Kamel Mansour, que "éramos a melhor equipa, merecíamos ter ganho." Se não fosse um nome que ainda hoje é maldito no futebol egípcio, Rinaldo Barlassina.

O árbitro italiano haveria de estar em destaque, numa partida onde os húngaros chegaram rapidamente a uma vantagem de 2-0 e tudo parecia estar encaminhado para uma vitória sem história. 
Só que ninguém avisou os egípcios. 
Abdulrahman Fawzi tornou-se no primeiro africano a marcar e, pouco depois, a bisar, num Mundial para empatar o desafio perante o espanto do público italiano que começou a torcer pelos egípcios. 
E chegou a fazer o hat-trick. 
"Pegou na bola no centro, driblou uma série de jogadores e marcou. 
Mas o árbitro anulou por fora de jogo", contou, incrédulo, Mustafa Kamel Mansour. 
Um "gol de placa", como diriam os brasileiros, que não valeu.

MOTIM NO ESTÁDIO

Eventualmente os húngaros chegaram ao 3-2 e o jogo não acabaria sem mais um lance a motivar protestos por parte do Egito, com o lance do 4-2 a chegar com aquilo que Mustafa Kamel Mansour considerou "uma falta escandalosa" sobre si. 
Com direito a quase um motim no estádio e duras críticas nos jornais italianos do dia seguinte.
Os jogadores italianos levam o selecionador Vittorio Pozzo em ombros após a vitória por 2-1 frente à Checoslováquia

Uma saída inglória de uma seleção que fez história, no Mundial ganho pela equipa da casa com um jogador que, quatro anos antes, tinha perdido a competição pela Argentina. 
Luís Monti (mais uma vez na primeira e única vez que tal aconteceu) a mostrar o poder da nacionalidade flutuante que conheceu nos "Oriundi" italianos (alcunha para descrever os sul-americanos de origem transalpina que jogavam pela squadra azurra) a sua máxima expressão.

Os egípcios chegaram a casa como heróis, com Mohammed Latif e Mustafa Kamel Mansour a não ficarem muito tempo por casa. 
Levados pelo seu selecionador, foram para a Escócia onde fizeram carreira e se tornaram famosos no Glasgow Rangers e no Queens Park, respetivamente, onde continuaram os estudos universitários. 
Já África teve que esperar até 1970 para voltar a ter uma equipa na fase final do Mundial, Marrocos. 
36 anos à espera para voltar aos 90 minutos.


O barco que transportou o primeiro Mundial dentro dele

MUNDIAL 2018
Tiago Oliveira
05.04.2018 ÀS 11H50
A equipa francesa que viajou até ao Mundial 1930 num momento de descontração a bordo do Conte Verde
Correr, conversar, descansar e nada de táticas. Foi assim a viagem de duas semanas do Conte Verde em 1930 que levou quatro seleções, três árbitros e a taça do mundo rumo ao Campeonato do Mundo inaugural no Uruguai. (Esta é a primeira história na nossa nova série enquanto Portugal não entra em campo no Mundial da Rússia)


Vamos fazer um pequeno exercício. 
Deixe a sua cabeça entrar no ritmo da música do Barco do Amor (se precisar de uma auxiliar de memória, é só clicar no vídeo em cima) e entre no espírito de viagens exóticas e romance que a série semanalmente prometia. 
Agora é concentrar tudo num espaço de duas semanas, substituir “Barco do Amor” por “Conte Verde” e romance por futebol. 
É o “rumo para uma nova aventura” que muitos dos passageiros devem ter sentido quando embarcaram rumo ao encontro com a história.

O destino era o Uruguai e o primeiro campeonato do Mundo organizado pela FIFA em 1930. E se hoje viajar para uma competição internacional de seleções terá como maior complicação o controlo aeroportuário para entrar no avião, na altura não era bem assim. Deslocações intercontinentais implicavam tempo e muito dinheiro para um desporto que não tinha a dimensão de hoje. 
Nem os recursos. 
Pelo que teve que ser um rei recentemente coroado e a nacionalidade de dois presidentes a ajudar a compor o ramalhete de 13 equipas (já vai perceber o porquê do invulgar número ímpar).

Tudo começou pela polémica na atribuição do torneio. 
O Uruguai era a potência sem contestação da época, enquanto as nações britânicas (berço do futebol moderno) já davam asas a um Brexit rudimentar ao saírem da FIFA para se colocarem à parte, num campeonato entre elas. 
Medalha de ouro na competição de futebol dos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, a nação sul americana aproveitou os festejos do centenário da primeira constituição do país para se candidatar à organização. 
Juntaram-se a Itália, Suécia, Holanda, Espanha e Hungria que, por uma razão e por outra, foram desistindo ao longo do processo.

Sem apuramento, a competição fez-se exclusivamente por convite aos países que então faziam parte da FIFA. 
Quem quisesse, podia entrar. 
Nas Américas, o interesse foi elevado, com sete equipas da América Latina (além do Uruguai) e os EUA a declararem o seu interesse. 
Já do lado europeu, que compunha a parte de leão das federações, ainda ninguém se tinha chegado à frente quando faltavam só dois meses para a competição.

Eis que chegou a hora do bom velho entusiasmo político que conseguiu apelar a quatro equipas do velho continente. 
Pelo seu lado, o presidente francês da FIFA, Jules Rimet (que deu o nome ao troféu de campeão do mundo), não descansou enquanto não garantiu a presença de uma seleção francesa. 
Que ainda assim viajou sem a principal estrela e o selecionador habitual (Manuel Anatol e Gaston Barreau respetivamente), sem tempo nem paciência para o que esperava, segundo reza a lenda. 
O mesmo se passou com a Bélgica, sob pressão do então vice-presidente belga-alemão da associação, Rodolphe Seeldrayers.

Quarteto de cordas para relaxar

Com espaço histórico para mais duas equipas, chegou a hora do rei Carol II da Roménia. Coroado há pouco tempo, faz da ida de uma seleção romena uma cause celebre nacional que levou muito a peito. 
Escolheu o treinador e selecionou os jogadores 1 a 1, além de ter convencido os empregadores a deixá-los ausentarem-se (com salário) por um período de tempo indeterminado. 
Foi também instrumental em convencer o rei Alexandre I a fazer a Jugoslávia a juntar-se à festa à última da hora, não sem problemas também, mas aqui de outro género. 
Os croatas recusaram-se a entrar numa equipa conjunta, o que, para não ferir sensibilidades, obrigou a federação a optar por levar só jogadores sérvios.

Alinhamento definido e tudo pronto para receber. 
Só faltava definir a pequeníssima questão das viagens e dos custos de transporte das equipas. 
Após muita discussão, conversas, avanços e recuos, decidiu-se que a união fazia a força e optou-se por uma solução que se escreve em duas palavras: Conte Verde. 
Construído em 1922, nos estaleiros da firma William Beardmore & Cº em Glasgow, era um paquete de luxo que levava a alcunha porque era conhecido o popular Amadeu VI, Conde de Sabóia. 
Pesava 18.761 mil toneladas e estava rotinado para a exigente viagem transatlântica que se pretendia, além de ter espaço para todos. 
Ou quase, melhor dizendo, porque a entrada tardia da Jugoslávia fez com que já não houvesse lugar para eles. 
Nada que mais uma pressão não resolvesse e arranjasse lugares noutro navio.

Mas voltemos ao Conte Verde. 
A viagem mais famosa do navio começou em Génova, onde embarcou a seleção da Roménia. 
Seguiu-se uma paragem em Villefrance-sur-Mer, onde apanhou a seleção francesa, três árbitros (para juntar aos 11 uruguaios que compuseram a equipa do apito) e o próprio Jules Rimet, que levou o troféu literalmente na mala. 
Os belgas entraram em Barcelona e a viagem prosseguiu rumo ao encontro com a história.

Um dos golos do Uruguai na vitória por 4-2 sobre a Argentina que levou à conquista do primeiro Mundial da história

Foram 15 dias muito felizes”, contou Lucien Laurent, o francês que se tornaria no primeiro jogador a marcar um golo no Mundial. 
“Fazíamos o aquecimento no porão e o treino no convés. 
Depois relaxávamos na piscina e à noite com comédia ou um quarteto de cordas. 
Foi como um campo de férias. 
O treinador nunca nos falou de táticas”, recordou com a ressalva que eram “jogadores jovens a divertirem-se.” 
Só mais tarde se aperceberam do “lugar na história” que tinham garantido.

Transporte de tropas

Pelo caminho, ainda apanharam o Brasil no Rio de Janeiro antes de atracarem em Montevideo, capital uruguaia onde se realizaram todos os jogos da competição. 
Caminho de convívio que não levou nenhuma destas equipas à fase a eliminar, que curiosamente contou com os afastados da Jugoslávia. 
O campeão, esse seria o anfitrião Uruguai a confirmar a hegemonia da época após todos os percalços para que o Mundial fosse efetivamente mundial.


Quem voltou a ter papel na história foi também o Conte Verde. 
Entre 1938 e 1940 levou perto de 17 mil refugiados judeus para a China, onde o advento da II Guerra Mundial acabou por o deixar ancorado na posse dos japoneses. 
Dois anos depois, já com o nome de Teikyo Maru, foi utilizado para uma troca de diplomatas no então porto neutral de Lourenço Marques (agora Maputo) e acabaria por ser reconvertido para o transporte de tropas japonesas. 
Afundado e reconstruído duas vezes, acabaria por ser desfeito em 1949.

São duas palavras e um navio que ficam para a história “de uma nova aventura” que deu pelo nome de Campeonato do Mundo de Futebol. 
Até aos dias de hoje.


O curioso caso de Pickles, o cão que salvou o Mundial

MUNDIAL 2018
Tiago Oliveira
23.05.2018 às 13H10
Pickles tornou-se um herói nacional com a sua descoberta da taça roubada

Em 1966 o troféu Jules Rimet foi roubado da vitrina em que estava a ser exibido e a organização do mundial na Inglaterra estava em risco. Até que um improvisado agente canino entrou em ação e deixou tudo pronto para a competição que colocou Eusébio no panteão dos melhores (Esta é a oitava história na nossa série enquanto Portugal não entra em campo no Mundial da Rússia)


Antes dos inspetores Rex e Max nos darem a conhecer o mundo da investigação canina na televisão, houve um caso bem real a que não faltam reviravoltas, enganos e heroísmo acidental. 
Falamos de Pickles, o intrépido cão que em 1966 recuperou o roubado troféu do Mundial, salvou a honra inglesa e (aqui talvez num plano mais romântico) foi o catalisador da vitória do país de sua majestade na competição realizada em solo caseiro.

Tal como nos lembra a música oficial do Euro 96, era o regresso do futebol a casa e as expectativas dos anfitriões estavam ao rubro, na esperança de finalmente conquistar o primeiro troféu mundial para a equipa dos três leões. 
Inglaterra engalanou-se para receber a competição onde se estrearam duas equipas que proporcionaram momentos épicos no decorrer da prova, Portugal e Coreia do Norte e para a qual as seleções africanas se recusaram a participar no apuramento em protesto contra as regras de qualificação que as obrigavam a disputar um lugar com uma seleção asiática.

Polémicas que não retiraram brilho à ocasião para a qual viajaram as maiores estrelas do mundo, como Eusébio, Pelé, Beckenbauer ou Bobby Charlton. 
E Jules Rimet, não o defunto presidente da FIFA, mas a taça de prata banhada a ouro que levava o seu nome e que chegou à sede da Federação Inglesa em janeiro de 1966, onde se encontrava guardada sobre fortes medidas de segurança.

ROUBO À LUZ DO DIA

Nada que um magnata dos selos e um simpático acordo financeiro não contornasse, e permitisse a exibição do troféu numa exposição a realizar em pleno centro de Londres. Com um seguro de 30 mil libras (€34 mil), foi colocada numa vitrina que, em teoria, estaria guardada 24 horas por dois agentes de uniforme. 
É hora de utilizar a expressão alegadamente, pois logo no segundo dia, a taça foi roubada. 
Como? 
Ainda hoje a situação é pouco clara mas, ao que parece, bastou os dois agentes "profissionais" saírem ao mesmo tempo do seu posto para que alguém, em poucos segundos, entrasse por uma saída de emergência, tirasse o troféu do seu local e saísse sem qualquer problema. 
Tudo em plena luz do dia.

O caso lançou um enorme terramoto mediático e recriminações de parte a parte, pela mancha provocada no bom nome da Inglaterra e pelo risco do Mundial mudar de sítio como castigo pela desfaçatez. 
Sem esquecer o ridículo da situação. 
Até porque o que se segue é uma sucessão rocambolesca de enganos que mais parece saída de um sketch de Monty Python.

Após várias recompensas terem sido oferecidas para recuperar a taça, o presidente da Federação Inglesa, Joe Mears, recebeu uma caixa com a tampa do troféu e uma mensagem para entregar um resgate de 15 mil libras (€17 mil). 
Apesar de ameaças para não o fazer, a polícia foi contactada e um agente disfarçado foi ao local de encontro combinado com uma mala com notas de 5 e 10 libras por cima e muitas páginas de jornais por baixo para dar a ideia de recheio.
A polícia inglesa com o troféu recuperado

Após ter aceite conduzir o intermediário até à taça, o interlocutor (que não tinha reparado nos recortes de papel, para surpresa do polícia) finalmente reparou que tinha um ou outro carro suspeito a segui-lo e tentou escapar, com sucesso até ser detido uns metros mais à frente. 
A polícia finalmente achou que ia conseguir desvendar o caso mas o homem disse ser apenas uma frente da verdadeira mente criminosa, que apenas conhecia como o "polaco" e do qual mais nada sabia. Mais um beco sem saída.

ESTRELA DE CINEMA

Até que entrou em cena o nosso herói, Pickles. 
Sete dias depois do assalto, David Corbett saiu de casa no sul de Londres para fazer uma chamada na cabine telefónica e levar o seu cão a passear. 
Segundo conta, a dada altura, Pickles começou a farejar e chamar a atenção para uns arbustos debaixo de sua casa. 
Quando a insistência do cão o obrigou a baixar-se, viu um saco de papel castanho e algo que parecia brilhar. 
Abriu e percebeu o que tinha encontrado. 
"Corri para casa a berrar à minha mulher que tinha encontrado a taça do Mundial", lembra.

Não sem que a polícia o tenha considerado como suspeito do crime que ainda hoje não está resolvido. 
Louros que passaram para Pickles, o cão que salvou a competição e se tornou numa celebridade instantânea. 
Capa de jornal, estrela de cinema, convidado de honra das festas oficiais do Mundial, teve até um agente para tratar das suas aparições mediáticas. 
Que infelizmente durou até ter morrido acidentalmente enquanto perseguia um gato, em 1967.

Na competição em que Eusébio foi bota de ouro e a Inglaterra conseguiu mesmo o seu primeiro (e até agora único) título mundial, muito há a agradecer ao intrépido cão herói. Já a taça, que foi ganha definitivamente em 1970 pelo Brasil, seria roubada anos mais tarde no Rio de Janeiro para nunca mais aparecer. 
Faltava um Pickles.































O mesmo refúgio de "excelência", mas sem o ambiente do Euro

MUNDIAL DE 2018
David Andrade
Moscovo 9 de Junho de 2018, 8:00 

Selecção portuguesa chega hoje a Moscovo e dirigir-se-á de imediato para Kratovo, onde a aguarda um complexo desportivo de topo.

A 9 de Junho de 2016, quando o Airbus da TAP Eusébio aterrou em Paris com a comitiva portuguesa que ia disputar o Campeonato da Europa em França, os 23 convocados de Fernando Santos sabiam que após percorrem os pouco mais de 20 quilómetros que separavam o aeroporto de Orly da pacata vila de Marcoussis, teriam uma recepção calorosa na chegada ao Centre National de Rugby, o quartel-general de Portugal durante a prova. 
Precisamente dois anos depois, voltará a ser curta a distância que um novo grupo de 23 convocados terá que percorrer do aeroporto de Domodedovo, na Rússia, ao centro de estágio onde vão preparar a participação lusa em mais uma grande competição internacional. 
Desta vez, porém, a chegada a Kratovo, nos subúrbios de Moscovo, deverá ter pouca pompa e circunstância.

Há dois anos, o aparato foi grande. 
Havia um helicóptero da polícia no ar, polícia a cavalo, muitos agentes a pé e, pelo meio, muitos portugueses efusivos pelas estradas. 
Quando Portugal chegou a Marcoussis, uma pitoresca vila a Sul de Paris, várias centenas de adeptos pintaram de vermelho e verde a estreita rua Jean de Montaigu, porta de entrada do centro de estágio da Federação Francesa de Rugby. 
Nesse dia, o primeiro treino de Cristiano Ronaldo e companhia em solo francês teve direito a bancada cheia – os bilhetes disponíveis esgotaram-se num ápice.

Hoje, o filme deverá ser totalmente diferente. 
Tal como Marcoussis, Kratovo é uma pequena localidade com cerca de 10 mil habitantes, mas na Rússia a comitiva portuguesa encontrará uma paisagem bem mais austera e rústica. 
A cerca de 70 quilómetros de Moscovo, onde a comunidade portuguesa ronda apenas as duas ou três dezenas de pessoas, Kratovo tem poucos motivos para figurar num qualquer roteiro turístico. 
É, no entanto, a terra natal do pianista e compositor Sergei Prokofiev, autor de obras-primas como Romeu e Julieta e Pedro e o Lobo, e é o local do centro de estágio do FC Saturn, equipa que faliu há menos de uma década, caindo por esse motivo para os escalões secundários do futebol russo.

Apesar do declínio do clube local, o quartel-general da selecção nacional durante o Campeonato do Mundo de 2018, pré-reservado pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) desde Agosto de 2016, recebeu obras de melhoramento no último ano, mesmo se já antes figurava entre os melhores centros de estágio na Rússia. 
Não será por acaso que Suleiman Kerimov – o multimilionário russo que há meia dúzia de anos contratou jogadores como Roberto Carlos, Lassana Diarra ou Samuel Eto´o numa tentativa de fazer do modesto FC Anzhi Makhachkala uma potência do futebol europeu – escolheu Kratovo como base da equipa, fugindo dessa forma aos perigos do Daguestão, considerado como um dos locais mais perigosos da Europa.

Ao longo de uma área com mais de 11 hectares, os 23 jogadores portugueses terão à sua disposição no centro de estágio do FC Saturn dois relvados naturais e um sintético, ginásio, piscina de 25 metros aquecida, duas saunas, sala de vibromassagem, campos de basquetebol, voleibol e mini-futebol. 
São instalações a que Fernando Santos atribuiu “excelência” a “todos os níveis”. 
“Temos a possibilidade de treinar à porta de casa – ou dentro de casa, como é o caso – e há um aeroporto muito perto, que nos vai evitar deslocações de cerca de duas horas. Moscovo tem um trânsito muito difícil e o aeroporto está a 15 ou 20 minutos. 
Tudo isso é muito importante”, afirmou o seleccionador nacional após ser revelado o local escolhido pela FPF, que repete assim a receita usada no Euro 2016 ao preferir um complexo desportivo em vez de uma unidade hoteleira.


Para além dos “relvados perfeitos”, o Ministro do Desporto da região de Moscovo Roman Terukov, citado pela sua assessoria de imprensa, revelou mais algumas exigências dos portugueses: pintura de todo o interior, mobiliário de cortiça nas varandas, plasmas de grande dimensão nos quartos e consolas de jogos ligadas em rede para os jogadores poderem competir entre si.

E, por falar em competição, apesar de as 32 selecções estarem bem distribuídas na vastidão do território russo e de a FIFA ter colocado à disposição de todos os países múltiplas opções de escolha, Portugal de Cristiano Ronaldo terá concorrência por perto: em Bronnitsy, a apenas 29 quilómetros de Krotovo, estará o quartel-general da Argentina de Lionel Messi.

dandrade@público.pt

Este é o momento especial que marca da partida da Seleção rumo à Rússia

FLASH !  Cristiano Ronaldo   09 de junho de 2018 às 11:13

O menino de oito anos fintou o cordão policial e correu até ao melhor do mundo para pedir o autógrafo.

"- Eu passei rápido, a policia deixou-me eu fui!
- E o que é que disseste ao Ronaldo?
- Dá-me um autógrafo. Depois dei-lhe a caneta e ele deu-me.
- E o que disse o Ronaldo?
- Parece que és uma flecha, corres mais do que eu!
- E estás feliz?
- Sim. Daqui a bocado já estou a chorar..."

sábado, 2 de junho de 2018

Em Espanha espera-se pelo homem que ninguém esperava: Albert Rivera /premium

MOÇÃO DE CENSURA
João de Almeida Dias
30 Maio 2018


















Ciudadanos é a chave do fim de Rajoy. 
O partido de Albert Rivera ganhou o protagonismo e a confiança que o PP perdeu com a crise catalã e corrupção. 
Mas será capaz de avançar? 
Especialistas hesitam.

Albert Rivera tem nas suas mãos a possibilidade de mudar a vida política de Espanha — mas, para lá chegar, terá de deixar de ser quem é. Aos 38 anos, o fundador e líder do Ciudadanos é conhecido por ser um homem do centro — e, por isso, impreterivelmente comprometido com o meio-termo.

São vários os exemplos que para aí apontam. A começar por uma questão fraturante em Espanha como o debate Monarquia vs. República. “Eu considero-me republicano, mas respeito a Constituição espanhola e a monarquia parlamentar”, dizia no início de 2015. Na mesma altura já dizia que era “a favor da despenalização” do aborto, mas contrapunha que este “não é um direito”. Sobre os imigrantes não queria dar nem cidadania nem fechar-lhes as portas, mas antes conceder-lhes vistos de residência. E dizia ser “contrário às quotas de paridade” de género do parlamento — mas assumia como “objetivo” um parlamento igualmente distribuído entre homens e mulheres. O meio-termo fazia até parte do meio de transporte de eleição. Quando chegou a deputado regional, em 2006, Albert Rivera tratou de se “livrar” de ter motorista — mas não foi por isso que aderiu aos transportes públicos ou à bicicleta. Encontrou o equilíbrio no táxi, que designou como “o melhor carro oficial”.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra, Albert Rivera e o Ciudadanos fizeram o seu caminho até chegarem a quarto maior partido de Espanha em dezembro de 2015. Dessa vez, viraram-se à esquerda deram a mão ao PSOE para formar governo — o que viria a fracassar, obrigando a novas eleições, em junho de 2016. À segunda tentativa, o Ciudadanos voltou-se então para a direita — e levou Mariano Rajoy ao seu segundo, e muito complicado, mandato como Presidente de Governo.

Agora, aproximadamente um ano e meio depois de ter dado a Mariano Rajoy o empurrão necessário para subir ao poder, Albert Rivera está em posição de derrubá-lo. Num discurso em que oficializou rutura do Ciudadanos com o PP, Albert Rivera disse que “a corrupção liquidou a legislatura”. Tradução: depois da sentença do caso Gürtel, o Ciudadanos deixa de sustentar o governo de Mariano Rajoy e quer o seu fim. Porém, o caminho para ali chegar não é assim tão simples.

A saída de cena de Mariano Rajoy ganhou contornos mais concretos na semana passada, quando o PSOE apresentou uma moção de censura contra o governo de Mariano Rajoy. Isto, na sequência da sentença do escândalo Gürtel, que culminou numa sentença onde a justiça declara que o Partido Popular teve “benefícios económicos significativos” daquele esquema de corrupção.

Mas há aqui um ‘mas’: Albert Rivera e o Ciudadanos não estão dispostos a apoiar a moção de censura do PSOE.

Primeiro, porque segundo a Constituição espanhola, os proponentes de uma moção de censura têm de apresentar um candidato para substituir o Presidente de Governo visado pela votação. E, neste caso, os socialistas decidiram escolher o seu líder, Pedro Sánchez, para suceder a Mariano Rajoy. Só que o Ciudadanos rejeita levar Pedro Sánchez ao poder, mesmo que temporariamente, propondo antes três nomes. São eles Nicolás Redondo (sindicalista histórico da UGT), Ramón Jáuregui (eurodeputado do PSOE) e Javier Solana (ex-ministro do PSOE e antigo secretário-geral da NATO). Para Albert Rivera, trata-se de três “pessoas independentes próximas do PSOE”. Ou seja, de meio-termo.
























Depois das eleições de junho de 2016, Albert Rivera deu a mão a um governo minoritário de Mariano Rajoy. Depois da sentença do caso Gürtel, retirou o seu apoio

Depois, porque apesar de se comprometerem com eleições antecipadas, os socialistas dizem que a principal prioridade é a “estabilidade” do país. Ou seja, no que depender estritamente do PSOE, não há qualquer data para eleições no calendário. Algo que o Ciudadanos também não aceita, exigindo a realização de eleições no Outono. Não imediatamente, nem para uma data a definir — algo a meio-termo.

O contexto em que tudo isto decorre é de valorização do Ciudadanos e, por outro lado, de queda dos dois partidos históricos de Espanha, PSOE e PP, pilares do outrora vigente bipartidismo.

Na última sondagem do CIS para o El País — publicada a 8 de maio, ou seja, antes da sentença do caso Gürtel — o PP surgia ainda em primeiro, mas com aquilo que seria o seu pior resultado de sempre, fixado nos 24%. Logo a seguir, em segundo, aparecia o Ciudadanos, com 22,4%. Depois, o PSOE com 20% e, por fim, o Unidos Podemos (soma do Esquerda Unida com o Podemos) com 19,6%.

Se o cenário não é positivo para o PP na sondagem do CIS do início de maio, então ficou verdadeiramente negativo com a primeira sondagem após a leitura da sentença do caso Gürtel, publicada no El Español e da autoria da SocioMétrica. Além de colocar o Ciudadanos em primeiro (28,5%), renegava o PP para quarto lugar, com 16,7%. Pelo meio, ficava o PSOE com 20,3% e o Podemos com 19,3%.

Nunca o Ciudadanos teve o poder tão próximo das mãos, levado pelas mãos de um homem que ninguém esperava — um jovem catalão que vingou em Madrid graças a uma mensagem liberal e centrista num país conservador e de alguns extremos.

Mas agora, para poder chegar ao poder, o Ciudadanos vai ter de fazer agora aquilo que (com a exceção da sua ação na Catalunha) nunca fez verdadeiramente a nível nacional: escolher um lado de forma inequívoca, pondo de lado o meio-termo do costume. Neste caso, tomar o lado do PSOE para derrubar o PP. Esta parece ser a única opção realista, uma vez que o Ciudadanos, por si só, não consegue apresentar uma moção de censura — são necessários 35 deputados para fazê-lo e o partido de Albert Rivera tem 32.

“O Ciudadanos está numa posição delicada”, diz ao Observador a politóloga espanhola Berta Barbet. “Por um lado não pode coligar-se contra o PP porque muitos dos seus eleitores vêm desse lado Mas ao mesmo tempo não pode dar apoio ao PP porque têm de parecer diferentes.”

Semelhante análise faz o politólogo Jorge Galindo. “O Ciudadanos tem um dilema irresolúvel. Se se distancia muito do PP, perde eleitores. No caso da corrupção, o Ciudadanos acredita que tem de ser duro, mas não ao ponto de dar força à esquerda. Por isso, vai ter de ser sempre um partido de meio-termo”, garante ao Observador, numa entrevista por telefone.

A esta realidade, Berta Barbet prefere chamar de “equilíbrio” em vez de “paradoxo”. “O Ciudadanos recebe votos dos eleitores que ideologicamente se sentem bem representados no PP, mas que estão cansados da gestão que o PP fez do tema da corrupção. Por isso, vão tentar mostrar que são mais limpos”, sublinha. “É típico de um partido que está a crescer e que, ao mesmo tempo que tenta marcar posição, sabe que não pode perder pessoas pelo caminho.”

Da Catalunha para (o resto de) Espanha

Se as eleições de 2015 e de 2016 tornaram o Ciudadanos num país imprescindível para a vida política de Espanha, foi na sua base que o Ciudadanos começou a criar a ideia de que pode vir a ser agora o maior partido do país. Com Albert Rivera em Madrid e Inés Arrimadas a liderar o partido a partir de Barcelona, na bancada parlamentar do Ciudadanos no parlamento regional catalão, o partido naranja roubou ao PP o protagonismo na gestão de uma mas maiores crises da democracia espanhola.

“A liderança do Ciudadanos na Catalunha é muito forte e o PP na Catalunha é muito débil. E como se trata de um tema que preocupa os espanhóis, e de forma homogeneizada, este foi um tema que correu bem ao Ciudadanos a nível local e nacional”, diz Berta Barbet, ela própria catalã. Prova disso foi a subida do Ciudadanos e a descida do PP nas eleições autonómicas antecipadas, celebradas em dezembro de 2017. Ao passo de os naranjas se tornaram no maior partido da região (o que não impediu que houvesse uma maioria de deputados independentistas) os conservadores passaram a ter apenas quatro deputados e foram o partido menos votado entre aqueles que entraram no parlamento regional.

Tudo isto aconteceu à medida que, na generalidade de Espanha, o parlamento a merecer mais atenção passou a ser o da Catalunha — onde as intervenções de Inés Arrimadas cativam indecisos e unionistas — ao invés do Congresso dos Deputados em Madrid, onde Mariano Rajoy tem insistido em que a crise catalã não pertence à política, mas sim aos tribunais.

Na ausência de uma posição forte de Mariano Rajoy — cujo principal trunfo na Catalunha, o Artigo 155, lhe foi exigido ainda antes do referendo de 1 de outubro por Albert Rivera — o Ciudadanos cresceu com aquela que foi (e tem sido) a sua maior oportunidade. “O Ciudadanos tem agora uma janela de oportunidade semelhante à que o Podemos conseguiu ter no seu melhor momento, que foi a crise económica e o surgimento de vários escândalos de corrupção”, diz o politólogo Jorge Galindo. “Para o Ciudadanos, esse momento surgiu por causa de dois temas: a Catalunha e a corrupção. A corrupção é tanto um tema do Podemos como do Ciudadanos. Mas a a Catalunha é uma bandeira do Ciudadanos, onde tem uma presença forte e uma mensagem clara. Tudo isto ajuda-os a serem um partido de projeção nacional, porque a Catalunha é uma questão nacional da qual toda a gente fala.”

Assim, sintetiza Jorge Galindo, o Ciudadanos “encontrou esta combinação entre a questão da corrupção e o eixo nacional”, o que lhe permite ter entre a seu favor um terço de eleitores que antes votavam no PSOE e dois terços que tinham por hábito votar no PP.
























A subida do Ciudadanos e do Podemos, consagrada em 2015 e confirmada em 2016, pôs um fim um bipartidismo. Desde então, o Ciudadanos tem sido o fiel da balança

Nesta ascensão, o Ciudadanos tratou de puxar para si aquilo que até agora era um ponto de honra e orgulho do PP: a ostentação dos símbolos nacionais de Espanha e a apologia irredutível do patriotismo. A 20 de maio, Albert Rivera participou no lançamento da Espanha Cidadã (España Ciudadana, no nome original), uma plataforma patriótica encabeçada pelo partido naranja e com a participação de associações de cariz nacional.

“Que nenhum espanhol volte a pedir perdão por usar a sua bandeira, por falar a sua língua e por se sentir parte de um projeto comum”, disse Albert Rivera naquele dia, no Palácio de Congressos de Madrid. “Ao percorrer Espanha, não vejo ‘vermelhos’ e ‘azuis’, não vejo jovens e velhos, vejo espanhóis. Não vejo crentes e agnósticos, vejo espanhóis. Vamos unir-nos para recuperar o orgulho de pertencer a esta grande nação.”

A iniciativa não caiu bem no PP, onde soaram alarmes e surgiram críticas e queixas de conservadores que se sentiram ultrapassados pela direita por um partido recém-chegado. Em declarações ao El País, fontes conservadoras e também do governo de Mariano Rajoy demonstraram desagrado pela iniciativa de Albert Rivera, sobretudo nas menções que fez aos políticos do PP mortos em atentados da ETA. “Quando mataram Jesús Pedrosa em Durango, em 2000, tivemos de ir ao baú buscar uma bandeira de Espanha para a pôr em cima do caixão. Passávamos pelas aldeias e a nossa gente as tinha escondidas. Começávamos as reuniões beijando-as quase em segredo”, disse ao El País um deputado do PP basco. “Agora vem o Ciudadanos falar da bandeira. Nós defendiamo-la com os mortos!”, diz. Um membro do governo manifestou um desagrado semelhante, mas com ironia: “Agora foi o Ciudadanos que acabou com a ETA, que defendeu Espanha durante os últimos 40 anos na Catalunha. Agora ninguém é do PP, nem sequer Miguel Ángel Blanco”, disse, referindo-se ao político do PP sequestrado e assassinado pela ETA em 1997.

Os politólogos ouvidos pelo Observador falam tanto do sentido de oportunidade de Albert Rivera — e, por arrasto, do Ciudadanos — como das condições especiais do partido, que lhe permitem rapidamente içar ou recolher velas, conforme a direção dos ventos políticos. “Albert Rivera tem um olfato político muito apurado, consegue perceber em cima dos acontecimentos onde e como pode obter ganhos”, diz Jorge Galindo. E Berta Barbet acrescenta: “O Ciudadanos é um partido com bases fracas, mas com uma liderança forte. Os que estão no topo do partido podem dar guinadas ideológicas muito rápidas. Há um ano e meio não diríamos que o Ciudadanos estaria a apontar  dedo ao PP por falta de patriotismo”.

Rajoy morto, zombie ou… sobrevivente?

Ao longo da sua carreira política, Mariano Rajoy tem tido o prazer de navegar contra uma maré de previsões que, de tempos a tempos, apontavam para a sua morte política. “A primeira morte de Mariano Rajoy foi quando perdeu com Zapatero em 2004”, relembra Jorge Galindo, entre gargalhadas. Desde então já passaram 14 anos, dos quais sensivelmente metade com Mariano Rajoy a liderar o governo — primeiro com maioria absoluta, depois com o apoio parlamentar do Ciudadanos e outros mais pontuais, como o Partido Nacionalista Basco (PNV, na sigla espanhola).  Pelo meio, Mariano Rajoy aplicou um duro programa de austeridade, governou um país em recessão e com um desemprego descontrolado e viu alguns dos seus mais próximos aliados dentro do PP a serem condenados a penas de prisão por corrupção.























Esta é a segunda moção de censura contra o governo de Mariano Rajoy. A primeira foi proposta pelo Podemos, em 2017 (Pablo Blazquez Dominguez

Agora, Mariano Rajoy enfrenta a sua segunda moção de censura (a primeira aconteceu em 2017, promovida pelo Unidos Podemos, com a maioria do parlamento a garantir a continuação do governo do PP) e também a mais complicada. Segundo o El Confidencial, o PSOE conta neste momento com 175 votos a favor do derrube de Mariano Rajoy (onde, além dos deputados do Unidos Podemos, se contam vários independentistas) e 170 votos contra (onde, salvo uma mudança de última hora, se contam os 32 deputados do Ciudadanos). Ficam a sobrar os 5 do PNV que, neste contexto, servirá de fiel da balança.

“O PNV é a parte mais débil da confiança de Rajoy, mas não quer dizer que lhe falhe”, diz Jorge Galindo. Ainda recentemente, o PNV garantiu ao PP a aprovação dos orçamentos (do Estado e regionais) no Congresso dos Deputados. Além disso, sublinha que o partido basco tem mais tendência para acreditar no pouco que o PP de Mariano Rajoy lhe dá, do que no muito que o PSOE de Pedro Sánchez lhe pode prometer. “Pedro Sánchez pode prometer-lhes tudo, desde um acordo na Catalunha e até termos mais agradáveis para o País Basco, que no final o que os independentistas lhe vão pedir é referendos e indultos. E isso o PSOE nunca lhes vai dar. Com o PP, ao menos já sabem com o que contam”, diz.

“Sempre perguntámos: como é que ele se aguenta. E a verdade é que se aguentou”, diz Jorge Galindo. “Rajoy não se vai demitir por iniciativa própria. Depois, sempre foi muito ágil na hora de fazer fracassar qualquer tipo de rebelião dentro do próprio partido. Por isso, não há nada que o empurre efetivamente para fora do poder. Nem dentro do partido, nem fora”, acrescenta Berta Barbet.

Ainda assim, Jorge Galindo não acredita que o talismã da sorte seja eterno. “Os maiores desafios ao rajoyismo foram durante o seu primeiro mandato, em que tinha maioria absoluta. Agora não, agora está em maioria simples. Por isso, esta legislatura agora será, se sobreviver, uma legislatura zombie.”

Quando questionado sobre o que prefere Albert Rivera, entre um Rajoy Presidente de Governo zombie ou Pedro Sánchez no poder, o politólogo não hesita em responder: “Claro que prefere o Rajoy Presidente zombie. Além de eleições antecipadas, é o melhor que o Ciudadanos pode ter. Um Rajoy zombie, que se queima aos poucos, como num cozinhado lento.” Albert Rivera já terá o avental de cozinheiro vestido. Entre desligar o fogão e aumentar a chama ao máximo, deverá preferir o lume brando. Uma solução de meio-termo, portanto.