terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A fotografia perdida de um sorriso

OPINIÃO
João Soares
7 de Janeiro de 2018, 7:45


João, filho de Mário Soares, recorda “os segundos” de “emocionada ternura” depois do beijo que deu ao pai num corredor da prisão de Caxias, contacto fugaz apenas autorizado pelos guardas porque era o dia em que fazia 13 anos.


Um ano.

Faz hoje, 7 de Janeiro, um ano que o meu pai, Mário Soares, morreu. 
No Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa. 
Onde, um ano e meio antes, a 7 de Julho, tinha morrido a minha mãe, Maria Barroso. 
Sua mulher, companheira solidária, durante 66 anos. 
Morreu, morreram ambos, rodeados pela ternura, e solidariedade indefectível, de filhos e netos. 
E também de amigos e outros familiares que apareceram durante esses dias finais, exprimindo a sua amizade por eles.

Os últimos três anos da sua vida, depois da encefalite que quase lhe provocou a morte, foram difíceis. 
Para ele, e para nós filhos e netos, que sempre, diariamente, o acompanhámos. 
A morte da minha mãe agravou a sua debilidade. 
Sinto que a ideia de a sua própria morte ser possível só se lhe tornou nítida depois de confrontado com a doença grave que o acometeu. 
O meu pai foi sempre um símbolo e um exemplo admirável de alegria de viver. 
De amor à vida, e às coisas boas da vida. 
Diria mesmo, único.

Nas circunstâncias mais adversas de um quadro sombrio de ditadura, que, como sublinhou Manuel Alegre, dominou a maior parte dos seus 92 anos de vida, Mário Soares foi sempre um exemplo de optimismo e confiança indestrutíveis. 
Por isso resistiu, como muito poucos, aos longos anos retrógrados que oprimiram a nossa terra.

Deixou, sobre esses tempos, um testemunho único. 
De alguém simultaneamente protagonista e narrador da história. 
Rasgou a mordaça que silenciava Portugal. 
Essa sua fibra marcou, também, de uma forma impressiva, para o bem, e algumas poucas vezes para o menos bem, a sua vida, depois do 25 de Abril.

Tinha uma cultura, inteligência e sensibilidade raras. 
Mas também uma coragem física, intelectual e política absolutamente únicas. 
A sua vida prova-o de uma forma admirável. 
A Isabel e eu, seus filhos, fomos testemunhas, próximas, dessas qualidades que o distinguiam e nos marcaram também a nós, muito. 
Parte delas, é justo que se sublinhe, vinham do seu pai, nosso avô paterno, João Soares. Um grande pedagogo, um homem de carácter e coragem excepcionais. 
Que o educou, formou e que o adorava.
Família Soares

A sua mulher, nossa mãe, Maria Barroso, foi sempre um esteio afectivo de inteligência, beleza e dignidade, únicos, a seu lado. 
Sem o mais pequeno sobressalto relevante. 
Mas é importante sublinhar que o meu pai potenciou e valorizou esse ambiente, e as qualidades transmitidas por seus pais. 
Nas amizades que soube manter e criar, com portugueses ilustres que marcaram essa época. 
Todos, sem excepção, opositores da ditadura. 
Era um homem com amigos, muitos amigos e muitos bons amigos. 
Amigos que encheram, sempre, a nossa casa e nalguns casos fizeram o pleno de três gerações. 
Na casa do Campo Grande, a cozinha do Colégio, onde então havia internato, provinha ao sustento de quem a mais aparecesse para almoçar ou jantar. 
O meu pai foi sempre fiel às suas amizades, nos bons e nos maus momentos. 
Foi também um homem de família, profundamente ligado aos seus mais próximos. 
Nos últimos dias de vida, com uma consciência muito débil do que se passava à sua volta, nunca deixou de reconhecer aqueles que lhe eram mais próximos. 
Recordo com tristeza embevecida e ternura o carinho que teve com sua neta mais nova, nove anos na altura, quando ela, comigo, o visitou. 
Num dos últimos dias em casa, antes de ir para o hospital.

A Isabel e eu testemunhámos publicamente, várias vezes, muitos momentos marcantes da sua vida que acompanhámos de perto. 
Mas importa procurar deixar, em textos como este, que me foi pedido pelo PÚBLICO, alguma história que tenhamos vivido.

Recordo dois ou três desses momentos que me marcaram e marcam.

A forma como nos contou a prisão que sofreu, depois da tentativa revolucionária de Beja, e a tortura do sono a que foi submetido, por vários dias e noites pelos esbirros da PIDE. Queriam saber onde estava Piteira Santos. 
Que, entretanto, deu sinal público de que tinha conseguido chegar, salvo erro a Marrocos. Enquanto não o souberam, os pides não o deixaram dormir. 
Ele sabia onde estava Piteira Santos. 
Tinha-o apoiado nos dias que antecederam a sua prisão. 
Mas não lhes disse nada, rigorosamente nada. 
Ele relatou-nos esses dias de tortura de uma forma serena, com um orgulho tranquilo. Sublinhando os pormenores ridículos no comportamento dos esbirros. 
Como noutras das suas mais de dez prisões. 
Lembro-me de Salgado Zenha dizer, várias vezes, que, quando a direcção do MUD Juvenil foi toda presa, quase só eles dois não falaram à polícia.

No dia em que fiz 13 anos, ele estava preso, em Caxias. 
Salvo erro por causa do Programa para a Democratização da República, em que teve, com Zenha, um papel muito relevante. 
Ele foi, desses presos então, o que passou mais tempo no Aljube, e depois em Caxias.

Já estava em Caxias nesse dia em que fiz anos. 
A pedido do meu avô, com mais de 80 anos, também já várias vezes preso, deixaram-me a mim, só a mim, miúdo que fazia anos, dar-lhe um beijo no corredor de acesso dos presos ao parlatório. 
Guardo desses segundos uma memória de emocionada ternura. 
E da alegria que esse momento lhe deu, também a ele.

Recordo depois já em 1968, quando foi libertado por poucos dias, antes de ser novamente preso, e depois deportado para São Tomé, a sua chegada inesperada, de táxi, a casa na Rua de Malpique. 
E o sorriso com que nos abraçou a todos, na rua, antes de pagarmos o táxi. 
A Isabel fotografou esse momento, eu não sei onde está essa fotografia, mas hei-de encontrá-la, porque ela mostra bem, nesse sorriso, a fibra excepcional de que era feito o nosso pai.

























Recordo também os momentos que a Isabel, o Eduardo, e eu vivemos a seu lado em Itália. Quando tínhamos ido ter com ele, e lhe demos a notícia de que tinha morrido o seu pai, nosso avô. 
De como, imediatamente, decidiu voltar a Portugal nessa noite. 
Com a perspectiva de uma prisão logo à chegada. 
Estávamos no Verão de 1970. 
Os pides, provavelmente por ordem do ditador Marcelo Caetano, deixaram-no entrar e assistir ao funeral. 
No dia a seguir, Pereira de Carvalho, um dos cérebros mais temíveis da PIDE, telefonou-lhe a propor um encontro num café. 
O meu pai recusou. 
Disse-lhe que ou o prendia ou o convocava formalmente a apresentar-se na sede da António Maria Cardoso. 
O que o esbirro fez. 
Dando-lhe, então, estava-se já no fim da manhã, até à noite desse dia para sair do país. Recordo a pequena reunião de amigos que chamou a nossa casa nesse inicio de tarde. Zenha, Gustavo Soromenho, Magalhães Godinho, Rego, Catanho de Menezes. 
Para decidir se saía, ou ia, mais uma vez, a 14.ª vez, para a prisão. 
Houve, entre os presentes, quem se pronunciasse nos dois sentidos. 
Ele, encarando sempre com firme serenidade a hipótese de nova prisão, optou por sair. Acompanhado, no carro, pela minha mãe, a minha irmã e eu. 
Estava claramente apostado em terminar o Portugal Amordaçado e em fundar o Partido Socialista.

Revelou nessa decisão, mais uma vez, a sua firmeza, sensibilidade, inteligência e sentido do tempo e da hora.

Há um ano, nos Jerónimos deixei-lhe, em público, um enternecido adeus.

Tenho muitas saudades do meu querido pai.

Deputado do Partido Socialista

Uma casa onde havia sempre mais alguém à mesa

OPINIÃO
Isabel Soares
8 de Janeiro de 2018, 16:53
Isabel Soares com o pai na RTP, em 1990 

























Isabel, filha de Mário Soares, escreve sobre “o sentimento de orfandade e de tristeza enormes” depois da morte do pai. 
“Um ano depois da sua partida, a dor e a saudade não se atenuaram, antes aumentam a cada dia que passa”.

Começo por sublinhar, uma vez mais, que o olhar de uma filha é sempre um olhar que não é isento, pois está embaciado pela emoção, pela ternura e pela profunda admiração.

O meu pai era, para mim, o meu herói.
Quando ele estava, tudo parecia seguro e tranquilo.

E, desde a minha mais remota infância, tudo, mas mesmo tudo, em nossa casa, girava à sua volta. Era assim que a nossa mãe agia, nos mais pequenos detalhes do quotidiano, companheira que foi, admirável, durante 66 anos de vida.

A nossa casa foi sempre uma casa cheia de gente, de amigos políticos, de amigos escritores, de amigos artistas. Nunca me lembro de haver almoços e jantares só em família, havia sempre mais alguém à mesa. As refeições, com a presença da figura tutelar do nosso avô João Soares, eternizavam-se, com as conversas e as histórias sobre política ou sobre livros, filmes ou pintura.

Lembro-me de que o meu Irmão João e eu ficávamos pregados àquela mesa a ouvir tudo, com uma atenção desmedida, em vez de irmos ter com os amigos da nossa idade.

Até porque, de vez em quando, essas confraternizações eram interrompidas, durante largos períodos, pelas ausências forçadas do nosso pai nas cadeias do Aljube ou de Caxias, na deportação para S. Tomé ou, mais tarde, no longo exílio em Paris.

Nessas alturas, a casa ficava silenciosa e triste sem ele. Eram os dias cinzentos e de chumbo da ditadura.

Nesses dias de prisão, íamos, com a nossa mãe e avô, às visitas semanais nos parlatórios, onde estava permanentemente um pide a seguir todas as conversas, sem qualquer hipótese de privacidade, e onde ficávamos sempre com a raiva e as lágrimas contidas dentro de nós.






















Maria Barroso e Mário Soares, em Nafarros, 1987 

Seguíamos o que a nossa mãe nos dizia: não se pode chorar em frente da polícia!

Lembro-me, bem, de preferir as visitas ao parlatório do Aljube, naquela sala, quase medieval e soturna, dividida ao meio por uma imensa rede, porque aí ainda conseguíamos tocar nas suas mãos, ao contrário do frio asséptico de Caxias, onde nos separava um vidro e um corredor imenso onde circulava um guarda, porque aí não havia qualquer hipótese de contacto físico.

Nessas ocasiões, o João e eu tínhamos sempre a incumbência de tentar distrair os guardas para que a nossa mãe pudesse passar algumas informações sobre a vida cá fora.

Nas breves visitas semanais, de uma curta hora, era sempre o nosso pai que, nos dava alento e ânimo, que nos consolava e que nos dizia, com o seu sorriso luminoso, que a libertação estava para breve.

Nunca lhe ouvimos um queixume ou uma palavra de recriminação ou de desânimo.

Recordo, com emoção, o dia em que apareci numa fotografia de jornal, julgo que O Século, que noticiava o início dos exames de admissão ao liceu. No dia seguinte havia visita à cadeia do Aljube e o meu pai, com o seu olhar mais terno, disse-me orgulhoso: “Recortei a tua fotografia e colei-a na parede da minha cela.” Este era o meu pai!

Atento, preocupava-se com os nossos estudos e tinha sempre tempo para nos ouvir e aconselhar.

Nas longas cartas que nos escrevia da cadeia, todas carimbadas, lidas e devassadas pela censura da prisão, fazia-nos recomendações sobre o cuidado e o carinho com que devíamos envolver a nossa mãe e avô, os estudos que não devíamos nunca descurar e o comportamento exemplar que esperava de nós. Eram longas cartas muito ternas e atentas que nos enchiam de orgulho.

Com a nossa mãe, ensinou-nos o amor à liberdade, à democracia e à tolerância.

E mesmo nos momentos mais difíceis convencia-nos de que havia sempre uma janela de esperança. Nunca desistir e lutar por aquilo em que acreditávamos, foi uma das suas lições de vida.

“Só é vencido quem desiste de lutar” — frase que estava escrita na sede da CEUD — Comissão Eleitoral de Unidade Democrática da Rua dos Fanqueiros — era o lema que lhe estava colado à pele. Dizia-nos, muitas vezes, “atrás do tempo, tempo vem” e convencia-nos de que era sempre possível mudar o mundo e que o regime ditatorial ia acabar no dia seguinte.

Indomado e indomável, dizia o que pensava e nunca se deixava abater, mesmo quando estava sozinho contra quase todos. A dignidade com que viveu e a imensa coragem que sempre demonstrou foram para nós, seus filhos, um exemplo de vida. A liberdade era como o ar que respirava.

Republicano, laico e socialista, como dizia com grande orgulho, detestava o pretensiosismo, a pequenez e a cobardia.

Desde cedo percebeu que Portugal não podia viver isolado do mundo. Europeísta convicto, acreditava numa Europa mais justa, mais fraterna mais humana e solidária. E essa foi uma das suas grandes batalhas.

Depois, amava a vida acima de tudo, e ensinou-nos a aproveitar cada minuto, e a retirarmos o lado positivo, mesmo das situações mais adversas.

Adorava livros e ir às livrarias e aos alfarrabistas. Sabia onde tinha cada um dos seus livros e coleccionava primeiras edições. Tinha um imenso orgulho na sua biblioteca. Os museus, as galerias e a arte moderna eram outras das paixões, que partilhava com a nossa mãe.

Gostava de mar, de sol, de árvores e de estar à conversa com os amigos. Era um grande conversador e um excelente contador de histórias. As suas gargalhadas e o seu sorriso luminoso eram contagiantes e enchiam a casa.

Tinha uma curiosidade imensa por tudo e por todos. Conhecia Portugal como ninguém, a sua história e as suas gentes. Adorava flanar pelas ruas e ver todas as novidades.

Como a nossa mãe dizia, era um pouco um “enfant gâté”, mimado pelos pais, pela mulher, pelos filhos e netos, pelos amigos. Fazia questão em dizer que se sentia bem na sua pele e isso via-se porque estava à vontade em todo o lado.

A sua ligação ao mar era quase física. Adorava nadar. Primeiro na Foz do Arelho, onde passámos as férias todas da nossa infância, e onde nos ensinou a não ter medo das ondas.

Depois na Praia Grande — de que tanto gostava — e que data do tempo em que a nossa mãe descobriu o terreno de Nafarros e onde, com a ajuda do amigo Keil do Amaral, construíram a casa dos fins-de-semana. Era um retiro privilegiado para ele, onde instalou parte da biblioteca e dos quadros e onde amorosamente via crescer as plantas e o jardim, desenhado pelo seu bom amigo Gonçalo Ribeiro Teles.

Os almoços de domingo eram sagrados, com o seu tradicional cozido à portuguesa, e sempre na presença de amigos, que tinham dificuldade em seguir as conversas, porque discutíamos todos ao mesmo tempo e atropelávamo-nos no entusiasmo das palavras.

Depois do almoço era obrigatório, estivesse quem estivesse, ir ver as árvores e dar a volta ao jardim. Conhecia-as todas e algumas tinha-as até trazido de longe, como as sequóias da Califórnia.

E depois o mar da Praia Grande, com as suas ondas revoltas, dava sempre aso a banhos revigorantes, ou no Inverno a longos passeios à beira-mar.
























Finalmente no Algarve, onde até quase aos 90 anos, gostava de nadar e passear no areal do Alvor, rodeado da família e dos amigos.

Até ao fim dos seus dias adorava ir ver o mar, quase como se fosse uma necessidade imperiosa. Mesmo que no fim o olhasse com uma doce melancolia, repetindo-nos, incessantemente, a frase de De Gaulle: “A velhice é um naufrágio.”

Teve uma vida longa e rica, e sobretudo adorava viver.

Como escreveu o nosso querido amigo José Manuel dos Santos, “a palavra que melhor o diz é vida. Ele foi aquele que quis fazer a sua vida coincidir com a Vida (...) Ele foi aquele que levou a sua vida ao encontro das vidas dos outros: para atravessá-las, marcá-las, mudá-las, erguê-las, sobrepor-se a elas”. “(...) A política era-lhe uma respiração, uma pele, uma circulação.”

Mas é justo e imperioso dizer que o nosso pai nunca teria feito o que fez, ou chegado onde chegou, sem a presença tranquila, serena e doce, mas firme, dessa mulher admirável que foi a sua, minha mãe. Tinham a mesma dimensão, e esse é o nosso maior orgulho.

Quando a minha mãe partiu — foi a única vez em que o vi chorar — começou, também ele, a partir devagarinho. Deixou praticamente de sair, de ler jornais, de se interessar pela vida política.

Como tão bem caracterizou Clara Ferreira Alves, querida amiga que o visitava frequentemente, “e pouco a pouco, como um pássaro desgarrado, começou a partir”.

Partiu como viveu, rodeado do amor incondicional dos filhos e netos, com a sua mão na minha.

Um ano depois da sua partida, a dor e a saudade não se atenuaram, antes aumentam a cada dia que passa. O sentimento de orfandade e de tristeza são imensos. Crescemos e vivemos com este exemplo extraordinário de coragem, carácter e determinação, e a sua ausência é muito difícil e dolorosa.

Era ao meu pai que voltava quando tinha alguma dúvida ou precisava de um conselho e ele estava sempre lá.

Hoje é como se tivesse perdido uma luz.

A “pequenina luz bruxuleante” de que nos fala Jorge de Sena
(...)
“Como a exactidão como a firmeza
Como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha”

Estou certa de que muitos de nós, portugueses, respeitaremos o seu legado de esperança, continuando a luta pela liberdade, pela democracia e pela tolerância, honrando a sua memória e mantendo viva a sua imagem.

O meu pai deixou-nos poucos dias antes do meu aniversário. E de novo ouvi a voz maravilhosa de minha mãe citando Álvaro de Campos:

“No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
(...)
raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira.”

Trago-o no meu coração.




Soares e a caça à felicidade

MÁRIO SOARES
Nuno Ribeiro
7 de Janeiro de 2018, 7:00

Para Mário Soares, “a alegria de viver impunha-se”. 
Até ao fim do ano, será publicado o primeiro volume das Obras Completas do antigo primeiro-ministro e ex-Presidente da República. 
“Escrever era do que ele mais gostava”, garante o organizador da edição

A partir de hoje e até 10 de Junho na capela do Cemitério dos Prazeres está patente uma exposição de fotografias publicadas na imprensa das cerimónias da despedida de um homem que sempre andou à caça da felicidade.

“Que se chame dos Prazeres a um cemitério acho perfeito desde que Mário Soares lá está. E só enquanto lá estiver. 
Porque foi um homem que nasceu para ser feliz.” 
A citação é de António Lobo Antunes, um dos autores da pequena antologia de textos Como Assim, Mário?, publicada no ano passado. 
E sintetiza com mestria o que parece uma contradição: a morte nos Prazeres como o fim de uma vida feliz.

“Mário Soares não aceitou ser vivido pela vida — foi ele que a viveu. 
E também não aceitou ser morto pela morte — foi ele que foi morrendo, antes de ela o vir matar”, escreve José Manuel dos Santos, assessor presidencial de décadas, amigo e comissário da exposição num texto intitulado Um Adeus Português. 
Há anos, com Soares convalescente, certificava ao PÚBLICO aquilo de que já suspeitávamos. 
Que o antigo Presidente teve uma vida ímpar de combates e felicidade: “A maior parte das horas da sua vida foram felizes.” 
Agora, nas vésperas da inauguração da exposição de fotografias da imprensa, que incluem trabalhos dos repórteres do PÚBLICO Daniel Rocha, Rui Gaudêncio, Nuno Ferreira Santos e Enric Vives-Rubio, insiste: “Mário Soares era assim, queria ter momentos felizes, fazer de cada coisa uma oportunidade para ser feliz, a alegria de viver impunha-se, mesmo perante a adversidade.”

Para os menos íntimos, desatentos e para a história apressada, esta caça da felicidade passou como e por bonomia. 
Num misto de à-vontade desmedida, uma coragem de desassombro ou um poder de comunicação avassalador. 
Para tal, contribuíram os media com a narração de episódios e legendas do turbilhão da política. 
O candidato que beijou por acaso um anão que estava na fila das saudações. 
O dirigente de cara cheia ao qual um beliscão de ternura e incentivo de um militante baptizou com o cognome de “bochechas”. 
E como não recordar os recorrentes bailes de malícia com as varinas da Nazaré?

Mas a busca da felicidade não era um acaso apenas para instantâneos fotográficos. 
E, muito menos, produto de campanha destinada ao consumo eleitoral. 
“Acho que Mário Soares era um stendhaliano; Stendhal dizia que o carácter de um homem se define pela forma como vai à caça da felicidade”, refere o antigo assessor cultural. 
E Soares perseguiu-a.
Mário Soares com Miguel Veiga, em Matosinhos, em 1990

Tertúlia mensal de padres

“Toda a vida de Mário Soares foi a insistência, sem medo, sem medida e sem meta, nessa liberdade que a vida dá e a morte tira”, refere Santos. 
“Vivia muito dos sentidos, mesmo nos seus últimos tempos continuava a gostar de ir ver o mar”, recorda.

“Viveu sempre com gente à volta encantada por ele, condição e práxis da condição de líder”, relata. 
“Gostava imenso de se dar com aqueles que eram diferentes dele, era ele que os mobilizava, não o contrário”, exemplifica José Manuel dos Santos a propósito de um hábito desenvolvido nos últimos anos de vida do antigo Presidente: uma tertúlia mensal na sua casa, com refeição incluída, com quatro sacerdotes.

À mesa estavam os padres Vítor Feytor Pinto e Vítor Melícias, D. Januário Torgal Ferreira, então bispo emérito das Forças Armadas, e Frei Bento Domingues, companheiro de várias lutas. 
“Mário Soares repetia muito a expressão: ‘A fé é um dom de Deus que não recebi’”, revelou ao PÚBLICO o padre Feytor Pinto: “Foi um laico profundamente ecuménico, teve relações com a Igreja através do cardeal Agostino Casaroli, secretário de Estado do Vaticano, com quem teve reuniões sobre a descolonização, e participou no espírito de Assis, reunião de dezenas de dirigentes mundiais com João Paulo II para a construção da paz.”

A busca da paz era uma iniciativa ecuménica em tempos conturbados, portanto com fundo político e social. 
Os encontros com Casaroli e o então cardeal-patriarca de Lisboa, António Ribeiro, decorreram durante o Verão Quente de 1975, no denominado PREC [Processo Revolucionário em Curso], uma das fases mais agudas do pós-25 de Abril. 
Foram, assim, política, pura e dura, em atmosfera de afabilidade que criou laços de amizade entre o laico socialista e o diplomata do Papa.

Na tertúlia mensal da sua residência ao Campo Grande, em Lisboa, era celebrado um ritual. “Quando terminava a reunião, levava-nos sempre ao seu escritório e mostrava-nos as fotografias do pai vestido de sacerdote”, conclui Feytor Pinto. 
Eram duas as fotografias do republicano João Soares que estavam visíveis: uma enquanto sacerdote, outra depois de abandonar os hábitos.

Em Mário Soares, José Manuel dos Santos anota ainda um instinto vital, que caracteriza como nietzschiano, ou seja, a existência de um homem positivo. 
“Tal como Stendhal, sabia que a morte era inevitável, por isso a esquecia, ele sabia que a morte existia mas não queria saber.” 
No seu texto para o catálogo da exposição, José Manuel dos Santos refere que o antigo Presidente “fazia da vida uma felicidade íntima e uma exaltação exclamada, não falava da sua morte e dos acontecimentos que a seguir se dariam, mas sabia que somos tempo e que a morte é, desse tempo, o fim. 
Olhava a morte com uma indignação distraída ou com aquela aproximação longínqua com que se olha a queda dos graves e se conhece a lei que a rege”. 
E, também, a sua inevitabilidade.

A cultura como transmissão

Na política, o testamento é legado. 
O político trabalha sabendo que se pode perpetuar no futuro, ao ponto de antever o seu lugar na História se poder transformar numa obsessão. 
Mesmo que dissimulada pelas urgências e realizações do tempo presente, pela pressão da actualidade. 
“O grande político é complexo e contraditório, na sua personalidade há opostos. 
Nas pessoas ‘normais’ isso paralisa e enfraquece, na política há a harmonia dos opostos, um espírito de firmeza”, diz o assessor de 20 anos em Belém, de Mário Soares a Jorge Sampaio.

“De Soares é possível dizer tudo e o seu contrário, dizer que foi frio e caloroso, mais que caloroso, referir que foi generosíssimo e egoísta, afirmar que foi muito flexível e inflexível em relação a algumas questões fundamentais”, prossegue.

Contudo, ao contrário do seu amigo François Mitterrand, que preparou tudo meticulosamente, a régua e esquadro, Soares não tentou influenciar os acontecimentos do day after. 
Segundo José Manuel dos Santos, foi omisso: “Não regulou os tempos e os modos das suas exéquias, não teve vontades para quando já não tivesse vontade, nada disse ou escreveu sobre um futuro que já não era o seu.”























“Nunca vi nele nenhum gesto ou acto artificial premeditado para a História, embora tivesse o culto da memória"


Encontrar o lugar na História estava implícito como fruto do seu caminho, dos seus actos. Nas conversas da década em Belém e já nos anos de pós-presidência, a ideia de ter o seu nome gravado nas esquinas das ruas não o seduzia. 
Considerava-o já morte, embora o próprio admitisse como inevitável a sua inscrição na toponímia. 
No entanto, com reserva de afecto, há quem insista que adoraria estátuas com o seu perfil e avenidas com o seu nome. 
Contradições numa personalidade de opostos.

“Nunca vi nele nenhum gesto ou acto artificial premeditado para a História, embora tivesse o culto da memória. 
Nas presidências abertas fazia sempre o culto da memória das pessoas e acontecimentos que tinham ligação com o local onde estávamos”, observa quem foi seu assessor. 
“Mário Soares explicou-se nos livros, nos artigos, na correspondência, tinha confiança no que tinha feito, mas não planeou excessivamente o futuro, deixou as coisas seguirem o seu curso.” 
Com uma excepção: a escrita. “Soares achava que um grande político era um grande escritor político, como as grandes figuras que admirava, de Winston Churchill a Georges Clemenceau”, prossegue José Manuel dos Santos.

A paixão da escrita era confessada pelo próprio. 
No seu livro Incursões Literárias (editado pela Temas e Debates) afirma que o pai sempre lhe aconselhara a ser escritor: “Pretendia que eu tinha alguma facilidade para escrever e realmente tinha, talvez demasiada, penso hoje, para poder ter sido, alguma vez, um bom escritor.”

Com inesperada franqueza, revela: “Sempre tive, talvez, uma visão literária da vida e das personagens, romanescas ou não, que encontrei no meu caminho.” 
No mesmo livro publicado em 2003, depois de dez anos de Belém e de décadas na política, confessa uma saborosa transgressão: “Adquiri o hábito de inventar histórias, totalmente ficcionadas, de pessoas que conheci e, por esta ou aquela razão, me interessavam.”

O artesão da escrita tinha tempos definidos. 
“Ele escrevia muito, era do que mais gostava. 
Chegava ao Palácio de Belém por volta das 10h30 depois de já ter estado a escrever em casa”, refere José Manuel dos Santos. 
“Há muita coisa inédita ou dispersa, a grande dificuldade vai ser organizar os milhares de páginas que estão escritas porque, de facto, ele passou a vida a escrever.” 
Deste relato desagua a notícia. 
Até ao fim do ano, com a chancela da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, é publicado o primeiro volume das Obras Completas de Mário Soares. 
Uma edição cuidada, com uma comissão de honra, um conselho científico e outro editorial em fase de constituição.

“A publicação póstuma dos seus escritos seria, para o próprio, a melhor homenagem, até porque, segundo ele, a sua vida e acção foi um acto de pedagogia democrática”, considera o antigo assessor. 
“Desde o início da sua vida que Soares teve sempre o reconhecimento de que a cultura é transmissão, que as coisas não começam connosco nem acabam connosco.”























nribeiro@publico.pt