quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Como quer “continuar espanhol”, desta vez Rubio vai mesmo votar

REPORTAGEM
Sofia Lorena
em Barcelona 21 de Dezembro de 2017, 6:30

São “as eleições mais estranhas e tristes” da democracia mas terão uma participação recorde. 
ERC e Cidadãos disputam o primeiro lugar e cada voto conta. 
“Desta vez parece que estás obrigado a tomar posição”.

Pilar não tinha tempo nenhum, ia “visitar uma amiga”; Maria não se importava de falar mas agora a amiga é que não se cala. 
Pelo meio aparece Rubio, que Pilar conheceu “na barriga da mãe”. 
Aos 36 anos, leva o mais novo dos três filhos pela mão. 
Despede-se e começa a subir a rua (por aqui é quase impossível não subir ou descer, poucas são as rectas), ainda Pilar faz piadas.

A conversa acaba com Maria a dizer a Pilar para votar Partido dos Socialistas Catalães, explicando que o “importante é votar num dos três constitucionalistas”. 
Já o tinha dito a Rubio. 
“Votes o que votes, não te enganes”. 
Rubio não se vai enganar, tem é pressa, vai buscar outro filho ao ginásio. 
“Ginásio? 
Que luxos são esses?”, pergunta Pilar. 
“Agora temos um, na rua Julia”.

Estamos no pequeno bairro de Torre Baró, parte da freguesia de Nou Barris. 
Para aqui chegar de carro ou autocarro é preciso sair de Barcelona por via-rápida e voltar a entrar.

O bairro que nasceu na montanha pelas mãos dos operários que chegaram nos anos 1960 de outras zonas de Espanha foi dos que menos votou nas últimas eleições autonómicas, em 2015: na Catalunha votaram 77% dos eleitores, em Barcelona 75%, em Nou Barris 72%, aqui apenas 58,4%. 
Com as sondagens a anteciparem uma participação de 80 a 82% terão de sair daqui alguns dos novos eleitores. 
Como Rubio.

“Nunca votei na vida. 
Mas parece que desta vez te sentes obrigado a tomar posição”, diz. 
“É mais importante sim, conheço outros que se vão estrear como eu. 
Porque aqui ninguém quer a independência, queremos continuar espanhóis. 
Espanhóis e catalães, como sempre”.

No pequeno bairro de Torre Baró não há bandeiras independentistas nem de Espanha à janela, como em tantas varandas e prédios dos bairros centrais de Barcelona. 
Aqui há cartazes, principalmente da ERC (Esquerda Republicana da Catalunha), mas estão pichados de azul, e há uma grande faixa vermelha pendurada nas grades de protecção de uma das vias-rápidas que rodeiam Torre Baró: “Vota Socialistas”, lê-se.

Maria, 65 anos, nem sempre votou, mas sempre que o fez votou PSC. 
“Não tem a ver com o candidato, foi o partido que sempre me agradou”, afirma. Tradicionalmente, o PSC era o partido das zonas operárias, como esta. 
Hoje, o Cidadãos prepara-se para lhe roubar muitos eleitores nas cinturas urbanas das principais cidades.

“Vou votar, sim, ali acima, ao Picasso”, o liceu de um bairro com poucos cafés, um restaurante de pizzas e kebabs, um supermercado e pouco mais comércio. 
“Em quem não digo. 
A idade também não. 
Menos de 100. 
Mas sou bonita, não sou?”, dispara Pilar, casaco comprido e brincos de mola roxos nas orelhas. 
“Enfim, dizem que já fui”. 
“A minha mãe sempre me disse, ‘Mariquitas, não há outra como tu’”, diz a amiga, de fato de treino vermelho. 
“Ai, a minha não teve tempo, morreu tinha eu oito anos”, conta Pilar.

Torre Baró e Pedralbes
Pilar conheceu mesmo Rubio na barriga da mãe. 
“Vim para aqui há 46 anos, mas já tenho 53 de Barcelona”, diz. 
Maria sabe que veio aos três anos e logo para esta área. 
“Vivi aqui toda a vida, antes num bairro ao lado, Ciudad Meridiana, depois aqui”, recorda Maria. 
Ciudad Meridiana, que com Torre Baró forma uma espécie de enclave em Nou Barris, é o bairro mais pobre de Barcelona. 
“Ah, sim? 
Eu antes vivia em Pedralbes”, responde Pilar, olhos muito abertos. 
Pedralbes é um dos bairros mais ricos de Espanha.

Maria nasceu em Saragoça, Pilar em Jáen e ainda viveu em Granada antes de vir para a Catalunha. 
Andaluzia ou Aragão são duas das muitas regiões de Espanha de onde vieram tantos catalães ou os seus pais. 
Dos 5,553,983 eleitores, sete em cada dez nasceu na Catalunha, um em quatro no resto de Espanha.

Este não é um bairro com muita cor. 
Mas algum investimento recente permitiu transformar parte do que era autoconstrução em prédios novos, todos brancos, como os da recente urbanização da praça dos Eucaliptos, uma praça que tinha deixado de o ser e que agora tem direito a parque infantil, aparelhos de ginástica para os mais crescidos, quatro eucaliptos em homenagem à praça original e mais umas tantas árvores.

“Estas são as eleições mais estranhas e tristes desde a democracia”, escreveu na sua coluna habitual o antigo director do jornal catalão La Vanguardia, Enric Juliana.

O governo de coligação PDeCAT (Partido Democrata Europeu Catação) e ERC, com o apoio da CUP, cumpriu o seu programa e realizou um referendo sobre a independência que a Justiça suspendera e entretanto considerou ilegal. 
Com muitos obstáculos, votaram 2,2 milhões de catalães, e a esmagadora maioria escolheu a soberania. 
A votação, que Madrid garantiu que não aconteceria, ficou marcada por cargas policiais. Semanas depois, o presidente Carles Puigdemont declarou a independência.

A resposta de Madrid já estava anunciada: Mariano Rajoy aplicou pela primeira vez em Espanha o artigo 155 da Constituição, que nesta interpretação lhe permitiu dissolver o parlamento, demitir o governo, assumir a gestão da Catalunha (que entregou à sua vice, Soraya Saénz de Santamaría) e convocar eleições.

16 deputados investigados
É provável que o vencedor se encontre na prisão (Oriol Junqueras, líder da ERC), enquanto outro cabeça de lista, Carles Puigdemont, está na sua fuga/ auto-exílio de Bruxelas. 
Entre exilados, detidos ou não, 16 deputados com eleição garantida são investigados ou estão já acusados de “sedição” ou “sedição, rebelião e desvio de fundos” por causa do referendo e do processo independentista.

A estranheza aumenta com um voto tão próximo do Natal e a um dia de semana. 
Depois de três meses de alta intensidade, os catalães parecem decididos a ir às urnas em massa, num último esforço para fazer ouvir a sua vontade. 
É provável que o resultado seja a ingovernabilidade. 
E é possível que ganhe um partido unionista, o Cidadãos, enquanto o bloco independentista fica muito próximo de repetir a maioria.

Contados os votos, uns ficarão furiosos, outros frustrados, que é como muitos catalães estão há demasiado tempo. 
Uma derrota dos independentistas será festejada em Torre Baró e chorada noutros lugares. ERC e Cidadãos preparam palcos para a (longa) noite eleitoral. 
Depois, vão seguir-se semanas de ressaca e algum descanso. 
A sessão inaugural do novo parlamento não deve acontecer antes da segunda quinzena de Janeiro.

slorena@publico.pt

Sete candidatos importam nas contas para um só lugar

ELEIÇÕES
Sofia Lorena
em Barcelona 21 de Dezembro de 2017, 6:31

Os partidos com representação parlamentar deverão ser os mesmos. 
Junqueras, Puigdemont ou Arrimadas? 
Iceta? 
Quem será presidente?


Não foram as grades da prisão de Estremera que o calaram – Oriol, Junqueras, líder e cabeça de lista da ERC (Esquerda Republicana da Catalunha), ex-vice-presidente acusado de “sedição, rebelião e desvio de fundos”, fez campanha. 
Diferente, claro. 
Deu pequenas entrevistas a jornais, gravou mensagens telefónicas e escreveu aos militantes. 
Na primeira carta, dizia-lhes que Marta Rovira é “uma mulher de força” e foi ela, sua “número dois”, o rosto da campanha. 
A ERC contava vencer e escolheu apresentar-se sem Carles Puigdemont; tudo depende dos votos, mas os republicanos esperam ser pressionados a apoiar o líder destituído – tal como Junqueras sabe que um dia será president.

Apareceu em Bruxelas no dia em que os catalães acordaram ansiosos, à espera de perceber o que significava a ocupação, por Madrid, das instituições autonómicas. 
Carles Puigdemont apostou no que chama auto-exílio e não se saiu mal: enquanto oito membros do seu governo estiverem detidos (dois continuam) a Justiça belga arquivou o seu processo e pôs na gaveta a ordem de detenção europeia. 
Os analistas atribuem às suas intervenções a subida da Juntos pela Catalunha. 
Ganhou por ter construído a única lista aberta, com o ex-líder da Assembleia Nacional Catalã, Jordi Sànchez (detido) como “número dois” e muitos independentes. 
Vai insistir na sua legitimidade para governar.

Começou a aprender catalão na adolescência por amor ao Barça. 
A relação da andaluza Inés Arrimadas com a Catalunha fortalece-se quando decide vir trabalhar para Barcelona, como advogada. 
Depois, surgiu o Cidadãos e a política: é eleita deputada em 2012 e em 2015 torna-se chefe da oposição. 
A seguir ao líder do partido, Albert Rivera, foi a única a falar castelhano no parlamento autonómica. 
Pode ser a mais votada, mas ser-lhe-á quase impossível formar uma maioria.

O Partido dos Socialistas Catalães já deu tantas voltas que o seu eleitorado se fez volátil – pode estar indeciso entre PS, Catalunya en Comú ou C’s. 
Com a bandeira da reconciliação, Miquel Iceta foi igual a si mesmo, o candidato dos trocadilhos, sempre bem-disposto. 
Sabe que não será o mais votado, mas por causa dos vetos cruzados não é completamente impossível que chegue à presidência (com o apoio do resto dos unionistas, C’s e PP, ou da ERC e da Catalunya en Cómu) e ninguém acredita nisso como ele.

Xavier Domènech teve a campanha mais difícil, fruto de uma posição que se distancia dos blocos em que a política catalã se divide. 
O Catalunya en Cómu, apoiado pelo Podemos, é contra a independência da Catalunha mas defende o chamado direito a decidir. 
O resultado é que todos tentaram convencer os seus eleitores, mas Domènech deverá ficar perto dos onze deputados de 2015. 
E pode, isso sim, ser árbitro na altura de negociar coligações.

A posição mais intransigente em relação à independência parece ter perdido gás, se olharmos para o que as sondagens antecipam para a CUP (Candidatura de Unidade Popular), único partido que não fez autocrítica em relação ao processo e que admite boicotar o próximo parlamento se a república não avançar. 
Irrompeu com dez deputados, em 2015, tornando-se essencial para a maioria de Puigdemont e Junqueras – agora, a lista encabeçada por Carles Riera arrisca perder quase metade do grupo parlamentar.

Se dependesse dele, a aplicação do artigo 155 da Constituição teria sido mais dura e prolongada. 
Xavier García Albiol sugeriu que Madrid aproveitasse para mudar o papel do catalão no ensino. 
Nas manifestações unionistas de Outubro e Novembro era sempre quem se via melhor (mede 2 metros) mas era à passagem de Rivera e Arrimada que se ouvia gritar “presidente”. 
Vai ter o pior resultado do PP na Catalunha e nem Rajoy, que não o largou na campanha, lhe valeu.

slorena@publico.pt

Abstenção e indecisos serão chave para decidir eleições

ELEIÇÕES
Sofia Lorena
em Barcelona 21 de Dezembro de 2017, 6:32

Sem transferência de votos entre os blocos independentista e unionista, quem não costuma votar e decida fazê-lo pode definir o resultado.

No final de Outubro, quando Mariano Rajoy fez aplicar o artigo 155 da Constituição e convocou eleições autonómicas para 21 de Dezembro na Catalunha, nenhum analista dizia acreditar numa participação maior do que a de 2015. 
Afinal, 77% já foi um número histórico. 
A verdade é que estes são tempos diferentes e 80 a 82% dos eleitores catalães responderam constantemente nas sondagens que pretendem votar.

Então, nas eleições que se antecipam como as mais participadas de sempre na Catalunha, devem acabar por ser os (poucos) abstencionistas a decidi-las. 
Isto porque, apesar de haver muitos indecisos (mais de 27%, nas últimas sondagens autorizadas e no inquérito diário do GESOP – Gabinete de Estudos Sociais e Opinião Pública, catalão – que o El Periòdic d’Andorra publicou até terça-feira), não há transferência de votos entre blocos. 
Segundo uma análise do El País, a possibilidade de um eleitor mudar o seu sentido de voto de um partido independentista para um do bloco unionista é de 1%.

Assim, são os mobilizados que vão decidir quem ganha e quem perde. 
Ou, pelo contrário, os que habitualmente estavam motivados e que, desta vez, cansados de tantos anos de processo independentista, decidam ficar em casa. 
Fundamental será quem não vota habitualmente e agora o fará (participação), tanto como a abstenção dos que sempre votaram. 
Um facto ainda mais relevante se pensarmos que o parlamento de 2015 já estava partido quase ao meio entre blocos, o mesmo cenário que agora se antecipa.

Os únicos votantes que se movem são os do Catalunya en Cómu, a marca do Podemos que conta com o apoio da autarca de Barcelona, Ada Colau. 
Sem integrar nenhum dos blocos – defende o referendo, é contra a independência – os seus eleitores foram disputados por todos, principalmente pela Esquerda Republicana e pelo Partido dos Socialistas Catalães.

Outro dado sobre os indecisos: de acordo com a última sondagem proibida, a indefinição entre os não independentistas é mais do dobro da que ainda existe entre os independentistas. 
Ou seja, muitos não sabem se votar Socialistas ou Cidadãos, alguns ainda estão indecisos entre votar PP ou no partido de Inés Arrimadas. 
Sendo certo que o PP não pode descer muito mais: na última sondagem está nos 4,8%, a duas décimas de garantir um grupo parlamentar de quatro ou cinco deputados.

slorena@publico.pt

“Rajoy está morto e foi Arrimadas que o matou”

ENTREVISTA
Sofia Lorena
em Barcelona 21 de Dezembro de 2017, 6:33

Entrevista a Fernando Vallespín. 
Para o especialista em teoria e pensamento político, presidente do Centro de Investigações Sociológicas entre 2004 e 2008, as próximas eleições em Espanha deverão ser legislativas.

























A “utopia do independentismo” esvaziou-se quando as empresas começaram a abandonar a Catalunha e Madrid impôs sem resistência o artigo 155, diz Fernando Vallespín, catedrático de Ciência Política na Universidade Autónoma de Madrid. 
Diz-se “pessimista” face às eleições autonómicas desta quinta-feira, onde “o voto se decide em função de preferências identitárias e não políticas”.

As sondagens antecipam uma governabilidade difícil a partir de Janeiro.
Não há muito a dizer. 
Estamos numa situação de empate, perante duas estratégias de hegemonia, a dos independentistas e a dos unionistas. 
Depois, dentro destes campos, [Oriol] Junqueras [ERC] tenta bater [Carles] Puigdemont [PDeCAT, concorre com a lista Juntos pela Catalunha] e este quer ganhar-lhe votos. 
No lado unionista parece claro que os Cidadãos vão ficar muito à frente, não se sabe bem ainda o que se passará com o PSC [Partido dos Socialistas da Catalunha] e o mais interessante é o resultado do PP [Partido Popular, de Mariano Rajoy, no poder em Madrid], que será absurdo.

Como quer “continuar espanhol”, desta vez Rubio vai mesmo votar

Iñaki Gabilondo dizia nas suas crónicas vídeo do El País que vamos ter uma situação em que “Mariano é I de Espanha e VII da Catalunha”.
O mais provável é que deixe rapidamente de ser I de Espanha também e essa será uma das consequências de umas eleições em que muito possivelmente a relação de forças no parlamento se vai alterar pouco. 
Se os independentistas conseguirem de novo a maioria precisando dos deputados da CUP vão insistir que têm a maioria social para construir um país, o que é mentira. 
E vai voltar a aplicar-se o [artigo] 155 [da Constituição, que permitiu a Madrid dissolver o parlamento e a Generalitat e governar a Catalunha].

Já se fez bastante autocrítica entre os independentistas à forma como se conduziu o processo, com excepção da CUP (Candidatura de Unidade Popular).
Muitos independentistas estão a favor de um processo mais pensado. 
Mas ninguém vota por preferências políticas, o voto é decidido em função de preferências identitárias. 
Claro que em algum momento vai ter de voltar a governar-se. 
A Catalunha está há anos sem governo, entregue a este desatino do independentismo. 
Sou pessimista. 
Com os processos judiciais em marcha, um auto-exilado [Puigdemont], o outro na prisão [Junqueras], muitos mais implicados, tudo se complica. 
É difícil que enquanto isto se passa se chegue a um acordo de governo e haja alguma normalização. 
Por tudo isto, seria mais simples se vencesse o Cidadãos, ainda que não seja fácil formar governo desse lado.

O mais certo é que o bloco independentista vença, com ou sem maioria.
Sim. 
E o sensato seria que os seus líderes dissessem ‘necessitamos de uma reflexão, temos de fazer alguma marcha atrás e resolver os problemas urgentes; por um lado, os processos judiciais; por outro, os problemas mais graves da economia, por isso vamos adiar a questão da independência, não é uma desistência, é um adiamento táctico’. 
Isso teria lógica.

Mas a pressão de parte da sociedade não vai parar. 
Os jovens que gritaram “traidor” quando Puigdemont admitiu convocar eleições em vez de declarar a independência não desistem.
Sim, mas não são a maioria. 
Veja-se o absurdo de tentar montar uma república onde nem sequer metade dos cidadãos está de acordo com isso. 
Como é que vais governar um país novo assim? 
É uma loucura, mas já se sabe que de vez em quando os povos enlouquecem.

A ideia da maioria social é um mito nunca provado. 
Mas umas eleições autonómicas não são um referendo. 
Por mais difícil que fosse organizar um referendo negociado, essa não é a única forma de saber quantos catalães querem ser independentes?
Mas eles agora também não querem o referendo, sabem que perderiam. 
O que querem é acções repressivas por parte de Espanha, agora que o independentismo começa a esvaziar-se. 
O movimento sempre andou a par da economia. 
Cresceu com a crise e começou a cair com as melhorias. 
Se olharmos para as curvas vemos que vão em paralelo. 
Precisavam de repressão e quase o conseguiram com o [referendo de] 1 de Outubro. 
O problema é que só houve dois feridos [Generalitat, autarquia e serviços de saúde falam em mais de mil, dois deles graves, incluindo um que perdeu uma vista, atingido por uma bala de borracha] e Puigdemont não pôde ir visitar hospitais. 
Ele precisava disso, melhor ainda com tanques. 
Mas depois [da declaração de independência, a 27 de Outubro] veio o 155 e a gente ficou em casa.

Essa segunda-feira, com toda a gente à espera que os conselheiros fossem trabalhar e pudessem ser detidos, Puigdemont a aparecer em Bruxelas, poucos a sair à rua… Foi um enorme anticlímax.
As pessoas estão fartas. 
São muitos anos à espera de algo que não chega, com os dirigentes a tentarem convencer os não independentistas com dúvidas que a sua narrativa é a realidade. 
Que Espanha não é uma democracia, que a Catalunha não tem autonomia, com as competências que tem… 
Nada disto encaixa no que o direito internacional prevê. 
Nem sequer se proíbe a língua, o catalão é a língua veicular, o que não é possível é escolarizar um filho em castelhano. 
E toda a narrativa assentava numa utopia.

O futuro brilhante impossível em Espanha.
Sim, uma Dinamarca no Sul. 
Essa ideia teve muito impacto, sobretudo entre os jovens que se vêem sem futuro e de repente acreditaram na possibilidade de melhorias sociais, com leis que já não são concebíveis na Europa actual. 
As pessoas mais à esquerda a sonhar com uma república popular, as elites tradicionais a ver-se como embaixadores em Washington e Paris. 
A verdade é que quanto muito seria uma colónia da China, uma espécie de Singapura ora dentro ora fora da Europa, um paraíso fiscal. 
Não é este o modelo de sociedade que os catalães têm no seu imaginário.

Apesar da situação de empate técnico entre blocos há a incógnita dos socialistas, com Miquel Iceta a garantir que se os unionistas tiverem maioria será ele o presidente e não Inés Arrimadas, do Cidadãos. 
Apoiar Arrimadas seria desastroso para o PS nacional.
Claro. 
Se Iceta tivesse um resultado melhor do que aquele que as sondagens antecipam e se unisse a [Xavier] Domènech [candidato do Catalunya en Comú, o movimento do Podemos local], aí sim, poderia haver um bloco não independentista com capacidade para governar de forma diferente, mas isso é quase impossível que aconteça.

Uma vitória do Cidadãos mudaria a política espanhola?
Simbolicamente seria muito, muito importante, mesmo se Arrimadas não puder governar. Enfim, pode sempre haver surpresas nestes processos. 
Agora mesmo o que sabemos é que o independentismo está mobilizado a 100%, o outro lado não. 
E falta saber o que vai acontecer com os indecisos, que são mais de 27%. 
Creio que são novos eleitores. 
Jovens, que votam independentismo, saem das escolas já com essa ideologia, e quem não vota habitualmente, gente habitualmente mais opaca, que tende a optar por uma postura mais conservadora.

Gente que vai votar Cidadãos e não PP. 
Vamos ter legislativas mais depressa do que Rajoy gostaria?
Sim, de certeza. Rajoy está morto e foi Arrimadas que o matou. 
Com isto é que ele não contava, aplica o 155, diz que está a salvar a Catalunha e vai ter um resultado miserável. 
De certa forma, é um paradoxo maravilhoso, ele que sempre foi passivo em relação à Catalunha para ganhar votos noutras zonas de Espanha quando finalmente é assertivo acaba esmagado pela própria Catalunha. 
Rajoy está morto, mas os socialistas não estão melhor e o Podemos também não soube colocar-se bem nesta disputa.

Já demos Rajoy como morto algumas vezes. 
E depois lá está ele, de novo presidente.
Sim, vai tentar aguentar-se, não se vêem livres dele facilmente. 
Mas é um pato coxo, já não pode aspirar a ser presidente do Governo. 
E [Albert] Rivera [líder do C’s] também não me parece ter perfil para liderar o país. Arrimadas tem carisma, chega às pessoas, Rivera não. 
Se o PP fosse inteligente tentava encontrar alguém com um perfil diferente. 
O que se avizinha é a possibilidade de uma vingança maravilhosa dos cidadãos contra o PP, contra a corrupção. 
Quem não tinha alternativa para não votar à esquerda agora pode vingar-se de consciência tranquila, votando Cidadãos.

slorena@publico.pt

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Quando vencer as eleições não é o mais difícil

CATALUNHA
Sofia Lorena
Barcelona 17 de Dezembro de 2017, 20:59

Se os partidos independentistas não sabem se chegarão à maioria, podem pelo menos contar uns com os outros. 
O Cidadãos, de Arrimadas, só sabe que conta com o PP.



Numa campanha absolutamente extraordinária – os jornalistas espanhóis repetem que é a “mais estranha e difícil vivida desde 1977”, na transição do franquismo para a democracia –, todos sabem que ser o mais votado no dia 21 não significa ser capaz de governar. 
Depois de meses de comoção, referendos e cargas policiais, ninguém quer admitir que será necessário voltar às urnas, mas também ninguém pode garantir que não seja.

Nos últimos anos proclamou-se o fim do bipartidarismo em Espanha, com governos alternados entre o Partido Popular e o PSOE, mas a verdade é que não foi possível chegar a acordos e o PP de Mariano Rajoy lá governa em minoria, depois de ter tido o apoio do Cidadãos de Albert Rivera e Inés Arrimadas para ser investido. 
Na Catalunha tudo pode ser ainda mais complicado.

Em 2015, a coligação Juntos pelo Sim, que unia a direita do Partido Democrata Europeu Catalão (antiga Convergência) com a ERC (Esquerda Republicana da Catalunha) e outros pequenos partidos e independentes, ficou aquém da maioria de 68 num parlamento de 135. 
Mas contou com o apoio dos dez deputados da CUP (Candidatura Unitária Popular, à esquerda da ERC).

Agora, todos se apresentam sozinhos, menos o PDeCAT, que com a lista Juntos pela Catalunha junta ao partido o ex-líder da Associação Nacional Catalã, Jordi Sánchez (em prisão preventiva, acusado de “sedição”) e outros independentes. 
E por mais que se tente fugir à ideia dos dois blocos, o soberanista e o unionista, são essas as contas que se fazem a cada sondagem: as últimas mostram que nem um nem outro terão deputados suficientes para chegar à Generalitat.

Se a vitória couber a Inés Arrimadas, como indicam grande parte dos inquéritos mais recentes, a situação pode ser ainda mais difícil. 
A líder do C’s catalão só sabe que pode contar com o apoio do PP de Xavier García Albiol, muito provavelmente o partido menos votado. 
A incógnita é Miquel Iceta e o Partido Socialista Catalão – Iceta já disse que nunca investiria Arrimadas mas também já recusou esclarecer se o fará.

Não há impossíveis em política, mas não está fácil antecipar uma solução de governo com Arrimadas à cabeça. 
Mesmo porque o desaire do PP pode ter consequências nacionais – e se os partidos suspeitarem que haverá legislativas antecipadas não deixarão de fazer contas antes de decidir apoios na Catalunha. 
Cenário em que os socialistas terão uma decisão ainda mais difícil.

slorena@publico.pt

A jovem advogada andaluza que quer governar a Catalunha

ESPANHA
Sofia Lorena
Barcelona 17 de Dezembro de 2017, 20:58

Inspira paixões e ódios. 
No parlamento fala com o à vontade de uma política experiente, à frente de um partido feito por gente sem passado político. 
Depois de cinco anos como deputada, quer mudar-se para o Palácio da Generalitat.


Em 2015, a imprensa espanhola chamou-lhe “a melhor criação de Albert Rivera”. 
Quando foi eleita porta-voz do grupo do Cidadãos no parlamento autonómico da Catalunha, tornando-se líder da oposição, com 25 deputados, Inés Arrimadas contava com três anos de experiência parlamentar. 
Tinham passado cinco desde que decidira ir a um comício do partido fundado por Rivera no Teatro Romea, de Barcelona.

Andaluza, como gosta de se afirmar (também se diz “salmantina” em homenagem aos pais, da aldeia de Salmoral, Salamanca), apaixonou-se pela capital catalã através das memórias dos pais, Rufino Arrimadas e Inés Garcia, que ali viveram parte da vida. 
Arrimadas, a andaluza que entretanto se fez catalã, nasceu em Jerez de La Frontera há 36 anos. 
Antes da política, exerceu como advogada empresarial, trabalhando desde 2008 em empresas de Barcelona.

A actual líder do C’s na Catalunha, candidata à presidência da Generalitat nas eleições de quinta-feira, dia 21, acredita que sem o surgimento deste partido não teria entrado na política. 
O pai, pelo menos, sempre lhe pediu que não o fizesse, tentando convencê-la que dava muito trabalho e chatices – foi conselheiro no primeiro governo autárquico de Jerez depois de Franco, pela União de Centro Democrático, do então presidente Adolfo Suárez, a grande referência de Arrimadas.

Ela, contou a mãe, ouvida pelo El Mundo, “sempre teve o seu critério, não a calávamos nem debaixo de água, como era pequena, tinha de se pôr em bicos de pés para discutir com os irmãos”. 
Segundo Inés mãe, a filha já mostrava habilidade para o debate e pouca tendência para os pólos. 
“Nunca foi de extremismos de esquerda ou direita. 
Sempre gostou de discutir tendo em conta o que é justo”.

Um dia depois de ter recebido os apoios do Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa (o peruano foi um dos impulsionadores da manifestação pela unidade de Espanha em Barcelona a 8 de Outubro, uma semana depois do referendo sobre a independência organizado pelo governo deposto de Carles Puigdemont e Oriol Junqueras) e do ex-primeiro-ministro francês Manuel Valls (nascido em Barcelona), num comício que encheu o Teatro Goya, este domingo, Arrimadas subiu ao palco aos gritos de “presidenta” no maior acto eleitoral do C’s nesta campanha.

O dia grande desta campanha tão estranha – as eleições foram antecipadas e marcadas por Mariano Rajoy depois de destituir parlamento e governo; o ex-president e candidato auto-exilou-se em Bruxelas, o seu antigo vice e igualmente candidato está na prisão – que nem foi possível encontrar um domingo para as realizar, foi passado por Arrimadas num dos seus bastiões, L’Hospitalet de Llobregat, perante 5000 pessoas.

A segunda cidade em população da Catalunha é um dos símbolos da transformação da chamada “cintura vermelha” de Barcelona, que costumava votar nos socialistas, para a nova “cintura laranja”, a cor do partido de centro-direita fundado em 2006 por Rivera precisamente para combater o independentismo que Arrimadas quer agora derrotar de vez.

“Partir-me o coração”
Entre a audiência (para além de Rivera e toda a cúpula do partido) estiveram muitos nascidos fora da Catalunha, ou filhos de pais que vieram de outras regiões, especialmente a Andaluzia (como a maioria dos catalães), e se concentram na área metropolitana de Barcelona. 
“Tentaram partir um coração em que cabem três bandeiras. 
A mim cabe-me a bandeira andaluza, e sei que a muitos de vocês também”, afirmou a candidata.

Recuperando uma ideia que repete com grande frequência, Arrimadas, a mais nova de cinco irmãos, recordou a sua grande família andaluza. 
“Não quero que ninguém tenha de trazer um passaporte para nos vir ver”, disse. 
“Os que roubam foram sempre os corruptos [referência ao argumento dos soberanistas de que Espanha não devolve o suficiente dos impostos cobrados na Catalunha] e não os nossos familiares do resto de Espanha.”

As últimas sondagens mostram o C’s ligeiramente à frente da ERC, de Junqueras. 
As anteriores, um pouco atrás. 
A quatro dias do 21-D, Arrimadas insistiu na importância de ir votar (mesmo se já se antecipa uma participação recorde): “Asseguro-vos que não se vão arrepender e que o explicarão aos vossos netos com orgulho”.

slorena@publico.pt

Universitários vão “pressionar para erguer a República”

INDEPENDENTISMO NA CATALUNHA
Sofia Lorena
em Barcelona 20 de Dezembro de 2017, 7:00

A plataforma Universitats per la República já tem o seu lugar no movimento soberanista catalão. 
Ajudou a forçar Puigdemont a declarar a independência e agora exige um país.


Antes, “queixavam-se que os jovens não se envolviam, agora é porque tomam posições”, desabafa um catalão ao ouvir outro criticar o “radicalismo destes universitários, parece que lhes fizeram uma lavagem ao cérebro”. 
O alvo destes comentários é o colectivo Universitats per la República, um novo movimento na Catalunha, diferente por ser transversal – une várias organizações e junta estudantes, professores e funcionários – e pela dimensão dos protestos que tem organizado.

“Se há um ano alguém me tivesse dito que íamos viver tudo isto eu nunca acreditaria”, diz Marta Rosique, uma das porta-vozes da plataforma, como ela se refere sempre ao Universitats per la República. 
A conversa marcou-se para a praça da Universidade, a jovem de 21 anos estudar na Universidade Pompeu Fabra (está a tirar dois cursos em simultâneo, Jornalismo e Ciência Política). 
O lugar faz sentido. 
Afinal, foi a ocupação do edifício histórico da Universidade de Barcelona, que se impõe na praça, a marcar um antes e depois na vida deste colectivo.

Tudo começou a 20 de Setembro, dia em que agentes da Guardia Civil e da Polícia Nacional detiveram 14 pessoas (a maioria funcionários da Generalitat suspeitos de estarem envolvidos na organização do referendo sobre a independência marcado para 1 de Outubro) e fizeram buscas em várias instalações do governo autonómico. 
“Houve uma mobilização instantânea da sociedade e, de repente, a plataforma ganhou mais sentido e os jovens voltaram a ser ponta de lança da luta pelos direitos civis”, diz.

De certa forma, o chamado “processo” irrompeu no movimento estudantil com esta plataforma, fundada em Abril. 
Com a sua própria natureza, o movimento segue o exemplo da Associação Nacional Catalã e da Òmnium Cultural, responsáveis por carregarem a causa do independentismo até que os políticos a assumissem.

O Universitats per la República propõe-se fazer o mesmo: nasceu para defender o direito a decidir, o referendo e agora tem como principal objectivo defender a construção de uma república catalã.

A ocupação da Universidade de Barcelona começou a 21 de Setembro e haveria de prolongar-se até 2 de Outubro, um dia depois do referendo. 
“A ocupação serviu-nos para ter um espaço de organização e coordenação, foi um espaço de encontro entre associações que nunca tinham trabalhado juntas. 
Foi um espaço de mobilização, as pessoas sabiam que podiam vir aqui ter, e acabou por se tornar num espaço informativo”, descreve Marta.

"Caixa da resistência"
Nos dias antes do referendo, a Justiça ia encerrando sites criados para as pessoas confirmarem a que escolas deveriam dirigir-se para votar. 
E nem todos os eleitores têm smartphones ou acesso a Net. 
Na comprida banca montada no exterior da Universidade, os jovens disponibilizavam-se a procurar a mesa de voto a quem o pedisse, distribuíam boletins (não se sabia se tinham sido todos confiscados) e explicavam como se esperava que actuasse a polícia. 
Ao mesmo tempo, distribuíam material sobre o referendo.

“Logo a seguir às detenções de dia 20 juntámos 70 mil estudantes na rua, e isso é algo que nunca antes se tinha feito. 
E a partir da ocupação também acabámos por nos substituir à campanha, como foi ilegalizada nós continuámos a fazê-la”, diz Marta. 
Na altura, como agora, em que apelaram ao voto nas forças independentistas, o movimento teve fundos para as suas actividades vindos de doações de pessoas para a “caixa de resistência” sempre presente nos seus actos.

A bandeira da paz
O dia do referendo foi o da “violência brutal que nunca tínhamos esperado”, descreve a estudante. 
Os membros da plataforma mantiveram-se ali mesmo, na Universidade, a tentar coordenar informação, saber que escolas permaneciam abertas, onde é que fazia falta gente para defender as urnas e a informar quem ali passasse sobre o que estava a acontecer no seu lugar de voto e onde se podia dirigir se a sua escola tivesse sido encerrada pela polícia.

No dia seguinte, saíram para protestar em silêncio contra as cargas policiais que fizeram, segundo a autarquia de Barcelona e os serviços de saúde, mais de mil feridos. 
“Esta não é a República com que sonhamos. 
Na nossa República, uma das bandeiras é a paz e o Governo tinha-nos demonstrado claramente que em vez de meios pacíficos escolhe a repressão”, diz Marta.

“Foram dias de urgência, de mobilização em reacção. 
Faltou-nos rapidez e estratégia, mas a verdade é que nunca imaginámos o nível de repressão do 1-0 nem as detenções que se seguiram”, afirma a jovem. 
“Como é que se manda prender Jordi Sànchez e Jordi Cuixart, líderes das organizações [ANC e Òmnium], eles que mobilizaram manifestações absolutamente pacíficas com um milhão de pessoas, só estão presos pelas suas ideias políticas”.

Tanta gente
Dia, 1, dia e, e logo veio o 3 de Outubro, com a greve geral marcada por centrais sindicais contra a violência do referendo. 
A plataforma Universitats per la República juntou-se à greve, claro, mas sem planear qualquer papel de organizador.

“Que confusão, as pessoas eram tantas, os jovens juntaram-se espontaneamente aqui, na praça. 
De repente, a Gran Via estava cheia e percebemos que tínhamos de assumir o papel de mobilizadores. 
Decidimos encaminhar as pessoas para o parlamento, em defesa nas nossas instituições”, recorda Marta. 
Na altura, sem saber que em breve as instituições catalãs iam ser intervencionadas pelo Governo de Madrid.

Foi nesse dia que a vimos pela primeira vez, cabelo curto, olhos muito azuis, do azul dos brincos que trouxe à entrevista, agora de casaco de Inverno e cachecol rosa forte; nesse dia de sol estava de T-shirt e megafone em punho, a pedir à gente que se sentasse por um momento antes da caminhada final. 
Não parecia atrapalhada.

Eleições são eleições
Marta recusa as acusações de radicalismo, mas assume que os objectivos da plataforma são claros e inamovíveis. 
Aliás, reivindica para os jovens do movimento a mudança de ideias de Carles Puigdemont, na véspera da declaração de independência de 27 de Outubro. 
“Estávamos na praça da Catalunha e íamos manifestar-nos no parlamento, mas soubemos que Puigdemont ponderava marcar eleições e decidimos ir para Sant Jaume”, a praça da sede da Generalitat. 
Os gritos de “independência” e “traidor” chegaram ao gabinete do president.

E é por isso que repete que as eleições de quinta-feira, além de ilegítimas por terem sido convocadas por Rajoy, não são um referendo. 
“O referendo já aconteceu e só foi possível porque a sociedade se organizou de forma massiva e descentralizada. 
Somos um exemplo de como uma democracia forte pode exigir pacificamente os seus direitos”, defende. 
“Mas já votámos e a independência já foi declarada, agora vamos às urnas porque tem de ser, é mais um obstáculo que nos impõem”.

O futuro passará por exigir que a república declarada comece a ser erguida. 
Vença quem vencer. 
“Ainda que ganhem os unionistas nunca ficaremos de braços cruzados. 
Temos responsabilidades e o povo pede a independência há muito tempo”, diz Marta.

“Queremos um país mais livre, mais autónomo, que possa pôr em prática leis como as da ‘pobreza energética’ ou da ‘emergência habitacional’, duas das 46 aprovadas pelo parlamento e chumbadas pelo Tribunal Constitucional”, enumera a jovem estudante. “Queremos continuar a ser um exemplo de sociedade intercultural que tem a língua, o catalão, como factor de união nas suas diferenças. 
E isso sempre em fraternidade com os povos de Espanha. 
Eu sei que é uma mudança estrutural e que isso implica riscos, mas também traz oportunidades”

slorena@publico.pt