quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Quando vencer as eleições não é o mais difícil

CATALUNHA
Sofia Lorena
Barcelona 17 de Dezembro de 2017, 20:59

Se os partidos independentistas não sabem se chegarão à maioria, podem pelo menos contar uns com os outros. 
O Cidadãos, de Arrimadas, só sabe que conta com o PP.



Numa campanha absolutamente extraordinária – os jornalistas espanhóis repetem que é a “mais estranha e difícil vivida desde 1977”, na transição do franquismo para a democracia –, todos sabem que ser o mais votado no dia 21 não significa ser capaz de governar. 
Depois de meses de comoção, referendos e cargas policiais, ninguém quer admitir que será necessário voltar às urnas, mas também ninguém pode garantir que não seja.

Nos últimos anos proclamou-se o fim do bipartidarismo em Espanha, com governos alternados entre o Partido Popular e o PSOE, mas a verdade é que não foi possível chegar a acordos e o PP de Mariano Rajoy lá governa em minoria, depois de ter tido o apoio do Cidadãos de Albert Rivera e Inés Arrimadas para ser investido. 
Na Catalunha tudo pode ser ainda mais complicado.

Em 2015, a coligação Juntos pelo Sim, que unia a direita do Partido Democrata Europeu Catalão (antiga Convergência) com a ERC (Esquerda Republicana da Catalunha) e outros pequenos partidos e independentes, ficou aquém da maioria de 68 num parlamento de 135. 
Mas contou com o apoio dos dez deputados da CUP (Candidatura Unitária Popular, à esquerda da ERC).

Agora, todos se apresentam sozinhos, menos o PDeCAT, que com a lista Juntos pela Catalunha junta ao partido o ex-líder da Associação Nacional Catalã, Jordi Sánchez (em prisão preventiva, acusado de “sedição”) e outros independentes. 
E por mais que se tente fugir à ideia dos dois blocos, o soberanista e o unionista, são essas as contas que se fazem a cada sondagem: as últimas mostram que nem um nem outro terão deputados suficientes para chegar à Generalitat.

Se a vitória couber a Inés Arrimadas, como indicam grande parte dos inquéritos mais recentes, a situação pode ser ainda mais difícil. 
A líder do C’s catalão só sabe que pode contar com o apoio do PP de Xavier García Albiol, muito provavelmente o partido menos votado. 
A incógnita é Miquel Iceta e o Partido Socialista Catalão – Iceta já disse que nunca investiria Arrimadas mas também já recusou esclarecer se o fará.

Não há impossíveis em política, mas não está fácil antecipar uma solução de governo com Arrimadas à cabeça. 
Mesmo porque o desaire do PP pode ter consequências nacionais – e se os partidos suspeitarem que haverá legislativas antecipadas não deixarão de fazer contas antes de decidir apoios na Catalunha. 
Cenário em que os socialistas terão uma decisão ainda mais difícil.

slorena@publico.pt

A jovem advogada andaluza que quer governar a Catalunha

ESPANHA
Sofia Lorena
Barcelona 17 de Dezembro de 2017, 20:58

Inspira paixões e ódios. 
No parlamento fala com o à vontade de uma política experiente, à frente de um partido feito por gente sem passado político. 
Depois de cinco anos como deputada, quer mudar-se para o Palácio da Generalitat.


Em 2015, a imprensa espanhola chamou-lhe “a melhor criação de Albert Rivera”. 
Quando foi eleita porta-voz do grupo do Cidadãos no parlamento autonómico da Catalunha, tornando-se líder da oposição, com 25 deputados, Inés Arrimadas contava com três anos de experiência parlamentar. 
Tinham passado cinco desde que decidira ir a um comício do partido fundado por Rivera no Teatro Romea, de Barcelona.

Andaluza, como gosta de se afirmar (também se diz “salmantina” em homenagem aos pais, da aldeia de Salmoral, Salamanca), apaixonou-se pela capital catalã através das memórias dos pais, Rufino Arrimadas e Inés Garcia, que ali viveram parte da vida. 
Arrimadas, a andaluza que entretanto se fez catalã, nasceu em Jerez de La Frontera há 36 anos. 
Antes da política, exerceu como advogada empresarial, trabalhando desde 2008 em empresas de Barcelona.

A actual líder do C’s na Catalunha, candidata à presidência da Generalitat nas eleições de quinta-feira, dia 21, acredita que sem o surgimento deste partido não teria entrado na política. 
O pai, pelo menos, sempre lhe pediu que não o fizesse, tentando convencê-la que dava muito trabalho e chatices – foi conselheiro no primeiro governo autárquico de Jerez depois de Franco, pela União de Centro Democrático, do então presidente Adolfo Suárez, a grande referência de Arrimadas.

Ela, contou a mãe, ouvida pelo El Mundo, “sempre teve o seu critério, não a calávamos nem debaixo de água, como era pequena, tinha de se pôr em bicos de pés para discutir com os irmãos”. 
Segundo Inés mãe, a filha já mostrava habilidade para o debate e pouca tendência para os pólos. 
“Nunca foi de extremismos de esquerda ou direita. 
Sempre gostou de discutir tendo em conta o que é justo”.

Um dia depois de ter recebido os apoios do Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa (o peruano foi um dos impulsionadores da manifestação pela unidade de Espanha em Barcelona a 8 de Outubro, uma semana depois do referendo sobre a independência organizado pelo governo deposto de Carles Puigdemont e Oriol Junqueras) e do ex-primeiro-ministro francês Manuel Valls (nascido em Barcelona), num comício que encheu o Teatro Goya, este domingo, Arrimadas subiu ao palco aos gritos de “presidenta” no maior acto eleitoral do C’s nesta campanha.

O dia grande desta campanha tão estranha – as eleições foram antecipadas e marcadas por Mariano Rajoy depois de destituir parlamento e governo; o ex-president e candidato auto-exilou-se em Bruxelas, o seu antigo vice e igualmente candidato está na prisão – que nem foi possível encontrar um domingo para as realizar, foi passado por Arrimadas num dos seus bastiões, L’Hospitalet de Llobregat, perante 5000 pessoas.

A segunda cidade em população da Catalunha é um dos símbolos da transformação da chamada “cintura vermelha” de Barcelona, que costumava votar nos socialistas, para a nova “cintura laranja”, a cor do partido de centro-direita fundado em 2006 por Rivera precisamente para combater o independentismo que Arrimadas quer agora derrotar de vez.

“Partir-me o coração”
Entre a audiência (para além de Rivera e toda a cúpula do partido) estiveram muitos nascidos fora da Catalunha, ou filhos de pais que vieram de outras regiões, especialmente a Andaluzia (como a maioria dos catalães), e se concentram na área metropolitana de Barcelona. 
“Tentaram partir um coração em que cabem três bandeiras. 
A mim cabe-me a bandeira andaluza, e sei que a muitos de vocês também”, afirmou a candidata.

Recuperando uma ideia que repete com grande frequência, Arrimadas, a mais nova de cinco irmãos, recordou a sua grande família andaluza. 
“Não quero que ninguém tenha de trazer um passaporte para nos vir ver”, disse. 
“Os que roubam foram sempre os corruptos [referência ao argumento dos soberanistas de que Espanha não devolve o suficiente dos impostos cobrados na Catalunha] e não os nossos familiares do resto de Espanha.”

As últimas sondagens mostram o C’s ligeiramente à frente da ERC, de Junqueras. 
As anteriores, um pouco atrás. 
A quatro dias do 21-D, Arrimadas insistiu na importância de ir votar (mesmo se já se antecipa uma participação recorde): “Asseguro-vos que não se vão arrepender e que o explicarão aos vossos netos com orgulho”.

slorena@publico.pt

Universitários vão “pressionar para erguer a República”

INDEPENDENTISMO NA CATALUNHA
Sofia Lorena
em Barcelona 20 de Dezembro de 2017, 7:00

A plataforma Universitats per la República já tem o seu lugar no movimento soberanista catalão. 
Ajudou a forçar Puigdemont a declarar a independência e agora exige um país.


Antes, “queixavam-se que os jovens não se envolviam, agora é porque tomam posições”, desabafa um catalão ao ouvir outro criticar o “radicalismo destes universitários, parece que lhes fizeram uma lavagem ao cérebro”. 
O alvo destes comentários é o colectivo Universitats per la República, um novo movimento na Catalunha, diferente por ser transversal – une várias organizações e junta estudantes, professores e funcionários – e pela dimensão dos protestos que tem organizado.

“Se há um ano alguém me tivesse dito que íamos viver tudo isto eu nunca acreditaria”, diz Marta Rosique, uma das porta-vozes da plataforma, como ela se refere sempre ao Universitats per la República. 
A conversa marcou-se para a praça da Universidade, a jovem de 21 anos estudar na Universidade Pompeu Fabra (está a tirar dois cursos em simultâneo, Jornalismo e Ciência Política). 
O lugar faz sentido. 
Afinal, foi a ocupação do edifício histórico da Universidade de Barcelona, que se impõe na praça, a marcar um antes e depois na vida deste colectivo.

Tudo começou a 20 de Setembro, dia em que agentes da Guardia Civil e da Polícia Nacional detiveram 14 pessoas (a maioria funcionários da Generalitat suspeitos de estarem envolvidos na organização do referendo sobre a independência marcado para 1 de Outubro) e fizeram buscas em várias instalações do governo autonómico. 
“Houve uma mobilização instantânea da sociedade e, de repente, a plataforma ganhou mais sentido e os jovens voltaram a ser ponta de lança da luta pelos direitos civis”, diz.

De certa forma, o chamado “processo” irrompeu no movimento estudantil com esta plataforma, fundada em Abril. 
Com a sua própria natureza, o movimento segue o exemplo da Associação Nacional Catalã e da Òmnium Cultural, responsáveis por carregarem a causa do independentismo até que os políticos a assumissem.

O Universitats per la República propõe-se fazer o mesmo: nasceu para defender o direito a decidir, o referendo e agora tem como principal objectivo defender a construção de uma república catalã.

A ocupação da Universidade de Barcelona começou a 21 de Setembro e haveria de prolongar-se até 2 de Outubro, um dia depois do referendo. 
“A ocupação serviu-nos para ter um espaço de organização e coordenação, foi um espaço de encontro entre associações que nunca tinham trabalhado juntas. 
Foi um espaço de mobilização, as pessoas sabiam que podiam vir aqui ter, e acabou por se tornar num espaço informativo”, descreve Marta.

"Caixa da resistência"
Nos dias antes do referendo, a Justiça ia encerrando sites criados para as pessoas confirmarem a que escolas deveriam dirigir-se para votar. 
E nem todos os eleitores têm smartphones ou acesso a Net. 
Na comprida banca montada no exterior da Universidade, os jovens disponibilizavam-se a procurar a mesa de voto a quem o pedisse, distribuíam boletins (não se sabia se tinham sido todos confiscados) e explicavam como se esperava que actuasse a polícia. 
Ao mesmo tempo, distribuíam material sobre o referendo.

“Logo a seguir às detenções de dia 20 juntámos 70 mil estudantes na rua, e isso é algo que nunca antes se tinha feito. 
E a partir da ocupação também acabámos por nos substituir à campanha, como foi ilegalizada nós continuámos a fazê-la”, diz Marta. 
Na altura, como agora, em que apelaram ao voto nas forças independentistas, o movimento teve fundos para as suas actividades vindos de doações de pessoas para a “caixa de resistência” sempre presente nos seus actos.

A bandeira da paz
O dia do referendo foi o da “violência brutal que nunca tínhamos esperado”, descreve a estudante. 
Os membros da plataforma mantiveram-se ali mesmo, na Universidade, a tentar coordenar informação, saber que escolas permaneciam abertas, onde é que fazia falta gente para defender as urnas e a informar quem ali passasse sobre o que estava a acontecer no seu lugar de voto e onde se podia dirigir se a sua escola tivesse sido encerrada pela polícia.

No dia seguinte, saíram para protestar em silêncio contra as cargas policiais que fizeram, segundo a autarquia de Barcelona e os serviços de saúde, mais de mil feridos. 
“Esta não é a República com que sonhamos. 
Na nossa República, uma das bandeiras é a paz e o Governo tinha-nos demonstrado claramente que em vez de meios pacíficos escolhe a repressão”, diz Marta.

“Foram dias de urgência, de mobilização em reacção. 
Faltou-nos rapidez e estratégia, mas a verdade é que nunca imaginámos o nível de repressão do 1-0 nem as detenções que se seguiram”, afirma a jovem. 
“Como é que se manda prender Jordi Sànchez e Jordi Cuixart, líderes das organizações [ANC e Òmnium], eles que mobilizaram manifestações absolutamente pacíficas com um milhão de pessoas, só estão presos pelas suas ideias políticas”.

Tanta gente
Dia, 1, dia e, e logo veio o 3 de Outubro, com a greve geral marcada por centrais sindicais contra a violência do referendo. 
A plataforma Universitats per la República juntou-se à greve, claro, mas sem planear qualquer papel de organizador.

“Que confusão, as pessoas eram tantas, os jovens juntaram-se espontaneamente aqui, na praça. 
De repente, a Gran Via estava cheia e percebemos que tínhamos de assumir o papel de mobilizadores. 
Decidimos encaminhar as pessoas para o parlamento, em defesa nas nossas instituições”, recorda Marta. 
Na altura, sem saber que em breve as instituições catalãs iam ser intervencionadas pelo Governo de Madrid.

Foi nesse dia que a vimos pela primeira vez, cabelo curto, olhos muito azuis, do azul dos brincos que trouxe à entrevista, agora de casaco de Inverno e cachecol rosa forte; nesse dia de sol estava de T-shirt e megafone em punho, a pedir à gente que se sentasse por um momento antes da caminhada final. 
Não parecia atrapalhada.

Eleições são eleições
Marta recusa as acusações de radicalismo, mas assume que os objectivos da plataforma são claros e inamovíveis. 
Aliás, reivindica para os jovens do movimento a mudança de ideias de Carles Puigdemont, na véspera da declaração de independência de 27 de Outubro. 
“Estávamos na praça da Catalunha e íamos manifestar-nos no parlamento, mas soubemos que Puigdemont ponderava marcar eleições e decidimos ir para Sant Jaume”, a praça da sede da Generalitat. 
Os gritos de “independência” e “traidor” chegaram ao gabinete do president.

E é por isso que repete que as eleições de quinta-feira, além de ilegítimas por terem sido convocadas por Rajoy, não são um referendo. 
“O referendo já aconteceu e só foi possível porque a sociedade se organizou de forma massiva e descentralizada. 
Somos um exemplo de como uma democracia forte pode exigir pacificamente os seus direitos”, defende. 
“Mas já votámos e a independência já foi declarada, agora vamos às urnas porque tem de ser, é mais um obstáculo que nos impõem”.

O futuro passará por exigir que a república declarada comece a ser erguida. 
Vença quem vencer. 
“Ainda que ganhem os unionistas nunca ficaremos de braços cruzados. 
Temos responsabilidades e o povo pede a independência há muito tempo”, diz Marta.

“Queremos um país mais livre, mais autónomo, que possa pôr em prática leis como as da ‘pobreza energética’ ou da ‘emergência habitacional’, duas das 46 aprovadas pelo parlamento e chumbadas pelo Tribunal Constitucional”, enumera a jovem estudante. “Queremos continuar a ser um exemplo de sociedade intercultural que tem a língua, o catalão, como factor de união nas suas diferenças. 
E isso sempre em fraternidade com os povos de Espanha. 
Eu sei que é uma mudança estrutural e que isso implica riscos, mas também traz oportunidades”

slorena@publico.pt

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Apple e Nike nos documentos secretos da consultora fiscal Appleby

PARADISE PAPERS
PÚBLICO
5 de Novembro de 2017, 19:03

Os Paradise Papers, documentos revelados este domingo em que a Rainha de Inglaterra, figuras próximas de Donald Trump e várias personalidades são visadas, comprometem igualmente algumas das maiores empresas multinacionais em potenciais esquemas de evasão fiscal. O consórcio de investigação jornalística, do qual o jornal português Expresso faz parte, cita correspondência trocada entre advogados da Apple e a Appleby, a consultora fiscal no centro deste novo escândalo, em que a tecnológica com sede na Califórnia procura um novo paraíso fiscal depois de um inquérito do Senado norte-americano ter concluído que a multinacional tinha evitado pagar dezenas de milhares de milhões de dólares ao transferir lucros para as suas subsidiárias irlandesas.

Outra empresa visada é a Nike. Os documentos revelam como a gigante do equipamento desportivo terá colocado bens intangíveis como o logotipo da marca sob o nome de companhias de fachada em paraísos fiscais.

Ainda no desporto, a investigação levanta dúvidas sobre a verdadeira identidade dos proprietários do Everton, clube de futebol da Premier League inglesa. A suspeita é a de que Farhad Moshiri, empresário britânico de origem iraniana a residir no Mónaco, detentor oficial de 50% do clube, poderá afinal ser um testa-de-ferro de Alisher Usmanov, oligarca russo que controla 30% do Arsenal. Para além de possíveis infracções fiscais, está em causa uma violação dos regulamentos da liga de futebol, que não permite a um detentor de 10% de um clube ter qualquer acção noutra equipa, de modo a evitar conflitos de interesse.

À Glencore, multinacional do sector mineiro, é atribuído um escritório dedicado na sede da Appleby, em Bermuda. Através dos serviços da consultora fiscal, a empresa terá evitado pagar somas avultadas devidas a países africanos.

Um mundo de hipócritas

EDITORIAL
Diogo Queiroz de Andrade
5 de Novembro de 2017, 21:21

Os offshores têm dois tipos de utilização: os criminosos e corruptos usam-nos para lavar dinheiro obtido de forma ilegal; muitos outros usam-nos, de forma legal, para esconder o que têm e fugir aos impostos. 
Estes mecanismos da finança internacional não servem para mais nada a não ser permitir que os ricos fiquem mais ricos e que os criminosos tenham a vida facilitada.

Por que é que ainda são legais? 
Porque as pessoas que encabeçam os Estados e as instituições internacionais beneficiam directamente deste estado de coisas — e de cada vez que se revelam os nomes por trás destes esquemas aparecem invariavelmente os poderosos do mundo. 
Não é preciso acreditar em teorias da conspiração e clubes de poderosos em que o destino do planeta é decidido para ter nojo da política que se pratica na maioria das instituições de poder, sejam elas governos ou empresas. 
Para ter nojo destes comportamentos basta ter consciência, virtude rara em quem manda.

Os offshores são o principal motor da desigualdade económica e social que se verifica no mundo. 
E, se essa desigualdade tem sido tradicionalmente Norte-Sul, o cenário já mudou: a globalização permitiu que as economias menos desenvolvidas recuperassem parte do atraso e hoje a desigualdade que mais cresce é a que destrói a classe média nas sociedades ocidentalizadas. 
Este tem sido o padrão no século XXI, marcado por uma longa crise financeira e uma política que asfixia os cidadãos comuns com uma austeridade rigorosa, ao mesmo tempo que se permitem — e incentivam — mecanismos que enriquecem ainda mais os poderosos.

Seria de esperar que a União Europeia, sempre tão pronta a aplicar receitas que empobrecem despudoradamente os seus cidadãos, tivesse coragem para criminalizar as relações com offshores. 
Seria de esperar que um governo que se diz de esquerda — ou qualquer governo que se diga de bem — recusasse ter um offshore (perdão, uma zona franca) no seu território. 
Mas não é isso que acontece, nem em Portugal nem nos outros países europeus, nem nas instituições internacionais. 
Já que não são capazes de acabar com os offshores, acabem ao menos com a hipocrisia.

Uma última nota: mais uma vez foi a imprensa, numa notável investigação lançada por um jornal alemão, a descobrir e a destacar este escândalo de proporções mundiais. 
Quem ataca a imprensa livre quer precisamente evitar que este tipo de informações chegue ao grande público.

dqandrade@publico.pt

Isabel II e Administração Trump atingidos por nova fuga de informação sobre offshores

PARADISE PAPERS
PÚBLICO
5 de Novembro de 2017, 18:29 actualizada às 0:12

















Os Paradise Papers revelam investimentos da Rainha de Inglaterra em fundos nas ilhas Caimão e ligações do secretário do Comércio nos EUA à Rússia.

Foi publicado neste domingo o mais recente capítulo da investigação às offshores por parte do ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação), do qual faz parte em Portugal o semanário Expresso, em que foram analisados mais de 13 milhões de ficheiros que expõem ligações entre a Rússia e o secretário do Comércio da Administração Trump, negócios do responsável de angariação de fundos do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, e os investimentos da Rainha Isabel II de Inglaterra.

Uma das revelações tornadas públicas pelos chamados “Paradise Papers” implica a Rainha Isabel II, cujos gestores pessoais terão investido, a partir de 2007, milhões de euros através de um fundo no paraíso fiscal das ilhas Caimão. 

Grande parte da fuga de informação terá tido origem na Appleby, um escritório de advogados sediado nas Bermudas e com filiais em Hong Kong, Xangai, ilhas Virgens e nas ilhas Caimão, entre outros paraísos fiscais. 
São quase sete milhões os documentos referentes a este escritório ou a empresas associadas agora revelados. 

Secretário de Trump com ligações à Rússia
As implicações do novo escândalo chegam também à Administração Trump. 
Sabe-se agora que Wilbur Ross, o multimilionário que é o actual secretário do Comércio dos EUA, detém uma participação numa empresa de transporte marítimo com ligações a outra empresa que é detida, entre outros, pelo genro de Vladimir Putin e por um magnata russo próximo do Presidente russo, e que foi alvo de sanções por parte do Departamento do Tesouro norte-americano.

Ross tinha abdicado da maioria das suas participações em empresas antes de ser nomeado para o Governo norte-americano, mas sabe-se agora que manteve a participação nesta empresa de transporte – a Navigator Holdings Ltd.

A Navigator Holdings Ltd., que opera através das ilhas Marshall, tem uma parceria com a Sibur, uma empresa de gás com sede em Moscovo, cujo co-proprietário é Kirill Shamalov, marido de Katerina Tikhonova, filha de Putin, e também Guennady Timchenko, um oligarca com diversas actividades no sector energético que, segundo o Departamento do Tesouro, estão “directamente ligadas a Putin”.

Segundo a documentação analisada pelo consórcio, a Navigator iniciou esta relação com a Sibur a partir de 2014, altura em que os EUA e a União Europeia começaram a aplicar os pacotes de sanções contra a Rússia devido à intervenção militar na Crimeia. 
Desde então, a Navigator Holdings Ltd. recebeu 68 milhões de dólares da Sibur.

Rainha Isabel II com investimentos através das ilhas Caimão
Os documentos da Appleby demonstram também como cerca de dez milhões de libras (mais de 11 milhões de euros) dos activos pessoais de Isabel II, geridos e concentrados no ducado de Lancaster, foram utilizados para investimentos num conjunto de empresas através de um fundo nas ilhas Caimão. 
O ducado havia já tornado público os investimentos imobiliários da Rainha em Inglaterra, nunca tinha sido, porém, revelado a utilização de offshores para outros negócios por parte da monarca.

A partir deste fundo nas Caimão os montantes investidos eram direccionados para empresas, incluindo a cadeia Threshers e a BrightHouse, uma retalhista de capitais de investimento e de crédito, e que foi criticada por alegadamente explorar milhares de famílias pobres e pessoas vulneráveis. 
O ducado, em resposta ao consórcio, garantiu que a participação na BrightHouse é insignificante, mas não revela a dimensão dos investimentos feitos desde 2005. 

O The Guardian, parceiro do consórcio internacional de jornalistas, aponta também o dedo a lorde Ashcroft, um dos principais financiadores do Partido Conservador de Theresa May, revelando a existência, até hoje desconhecida, de um fundo no valor de 382 milhões de euros sediado nas Bermudas e mediado pela Appleby. 
O jornal sublinha que não estará em causa qualquer ilegalidade, mas que a revelação traz uma nova dor de cabeça para a primeira-ministra britânica.

Assessor próximo de Trudeau transferiu milhões para offshores
As revelações chegam ainda ao Canadá. Stephen Bronfman, conselheiro próximo do actual primeiro-ministro, Justin Trudeau, e o principal responsável pela angariação de fundos para o partido do governante, transferiu milhões de dólares para as ilhas Caimão juntamente com a família do antigo senador Leo Kolber, que faz parte do Partido Liberal de Trudeau. Esta operação permitiu a poupança em impostos no Canadá, Israel e EUA.

Além disso, os representantes de Bronfman e Kolber foram realizando algumas manobras de bastidores no seio do Parlamento canadiano para que as propostas de lei que visavam os rendimentos a partir de offshores fossem rejeitadas.

Bronfman foi fundamental para que Trudeau chegasse à liderança do Partido Liberal em 2013 e ao cargo de primeiro-ministro em 2015. 

Bono e Madonna também recorreram a paraísos fiscais
Um dos nomes que surgem de forma mais inesperada nos Paradise Papers é o do vocalista dos U2 – Paul Hewson, mais conhecido por Bono. 
O músico, aponta o The Guardian, utilizou em 2007 uma empresa sediada em Malta, a Nude Estates, em que os investidores estrangeiros pagam apenas 5% de impostos sobre os seus lucros, para adquirir um centro comercial na Lituânia por cerca de 5,8 milhões de euros. 
A grande superfície passaria depois, em 2012, para as mãos de outra empresa, a Nude Estates 1, na ilha de Guernsey, outro paraíso fiscal. 
Ao jornal britânico uma porta-voz do cantor defende que o músico irlandês não cometeu qualquer infracção enquanto “investidor minoritário” na empresa maltesa.
Em relação a Madonna, a cantora norte-americana a residir actualmente em Portugal, a investigação do consórcio internacional cita documentos da Appleby que referem um investimento feito em 1998 em acções da SafeGard Medical Limited, uma empresa com sede nas Bermudas, em nome de Shari Goldschmidt.
Paul Allen, co-fundador da Microsoft, e a rainha Rania da Jordânia são outros nomes visados na investigação do consórcio, que promete novas revelações e desenvolvimentos para os próximos dias.

Rússia investiu no Facebook e no Twitter através de magnata com ligações a genro de Trump

PARADISE PAPERS
PÚBLICO
5 de Novembro de 2017, 23:05

O banco VTB e uma holding da Gazprom realizaram avultados investimentos no Facebook e no Twitter através de Yuri Milner, empresário que detém uma participação numa empresa de Jared Kushner.

Duas empresas públicas da Rússia investiram avultadas quantias no Facebook e no Twitter através de um magnata da tecnologia, que detém uma participação numa empresa que é co-detida por Jared Kushner, genro e assessor do Presidente norte-americano Donald Trump.

Segundo a documentação analisada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) no âmbito da investigação aos chamados Paradise Papers, o banco VTB investiu em 2011 191 milhões de dólares no Twitter, e uma holding da Gazprom financiou uma offshore que, por sua vez, realizou investimentos num veículo financeiro que detinha uma participação no Facebook avaliada em mil milhões de dólares.

Este dinheiro foi movimentado através de veículos de investimento controlados por Yuri Milner, que também investiu numa startup sediada em Nova Iorque cujos proprietários são Kushner e o seu irmão.

Yuri Milner disse no entanto que tanto o Twitter como o Facebook não foram informados de que os investimentos tinham tido origem no VTB e na Gazprom.

Milner tem ligações ao Kremlin, tendo assessorado o Governo de Moscovo sobre o sector tecnológico numa comissão presidencial liderada por Dmitry Medvedev, que foi Presidente da Rússia e que é actualmente primeiro-ministro. 
O magnata russo já investiu também sete mil milhões de dólares em mais de 30 empresas, incluindo o Airbnb ou o Spotify.

Estas novas revelações ganham especial relevância devido à investigação que decorre neste momento nos EUA sobre a possível interferência russa nas eleições presidenciais norte-americanas no ano passado e as suspeitas de conluio entre o Kremlin e a campanha de Donald Trump. 
O Twitter e o Facebook terão tido um papel fundamental na propagação de propaganda e notícias falsas com origem em Moscovo que terão tido como objectivo prejudicar Clinton e ajudar o actual Presidente dos EUA.